quarta-feira, 18 de julho de 2018

CANUDOS, não. Belo Monte!

Por José Augusto Moita

Antônio Conselheiro (fonte: Internet)


ANTÔNIO Vicente Mendes Maciel, O Conselheiro, cearense, foi um homem de poucas letras e muito estudo. Monarquista ferrenho e católico fervoroso, tocava sua vida à maneira que desse. Tentou ser comerciante, professor, deu uma de rábula pela Serra da Ibiapaba, mas acabou optando por levar sua existência do mesmo modo de um certo galileu dois mil anos antes: largando tudo e sair pregando o Evangelho aos mais carentes. 

Andou nessa peleja por quase três décadas, superando o Cristo em dez vezes no tempo de pregação, posto que o Nazareno, com três anos na infrutífera labuta, já lhe terem pregado, com pregação e tudo, numa cruz. Conselheiro conseguiu essa façanha porque foi mais esperto, agradou "azelite", construindo e reformando em mutirão com seus discípulos, igrejas, cemitérios e até açudes em propriedades privadas, enquanto o outro caiu na besteira de socorrer apenas aos pobres.

Os coronéis nordestinos se sentiam incomodados com aquela ruma de desocupados pelas estradas, mas, por outro lado... Só que a coisa começou a tomar proporções indesejadas. De poucas cabeças no rebanho do Bom Jesus (outro título, dentre os vários, concedidos a Antônio Vicente) passaram-se a centenas, depois milhares e o pior, não o estavam seguindo apenas mão de obra indesejada, doentes e prostitutas. Os braços produtores de mais valia também começaram a deixar seus patrões para acompanhar as peregrinações conselheiristas. 

Nesse ponto, por volta de 1894, para se proteger de seus difamadores e mostrar que não queria imbuança com seu ninguém, Conselheiro ocupa uma fazenda abandonada, eu disse ABANDONADA, no interior da Bahia, às margens do riacho Vaza-barris, localidade por nome Canudos, que ele renomina de Belo Monte, e ali, sem nunca ter lido O Manifesto Comunista, porém fundamentado nos preceitos verdadeiramente cristãos, aprendidos na Bíblia Católica, funda uma comunidade solidária, fraterna e igualitária -- fato que a pobreza ainda persistia, mesmo em menor intensidade que outrora, mas se o Reino do Céu está reservado aos pobres... 


Oficiais do Exército (fonte: Internet)


Como àquela época não se sabia no Brasil que diabos fosse comunismo, e muitos continuam sem saber até hoje, o Governo, sem essa opção de acusá-lo de comedor de criancinhas, jurou acabar com aquela infâmia alegando que Antônio Conselheiro queria reinstalar a monarquia. Nessa intenção envia uma tropa comandada por um tenente para desalojar aquele povo fedorento. O tenentizim com sua corriola num deu nem para meia missa, derrotados que foram pelas armas rudimentares dos conselheiristas.

Então foi o jeito mandar uma expedição maior, sob o comando de um major, que também "faiô", sem contar que na debandada deixaram armas melhores à disposição dos que vieram combater. Como os briosos senhores republicanos florianistas, saídos das fraldas do recente golpe contra a monarquia dos Orleans e Bragança, não podiam perder a pose, resolveram enviar para o agreste baiano seu mais terrível e sanguinário coronel, Moreira César, homem admirado dentre a milicada por seu honroso epíteto: o corta-cabeças, apelido esse que fez jus na valorosa campanha da Guerra do Paraguai, onde por lá utilizou do infame ato da degola nos vencidos. O orgulho, a vaidade e a soberba fizeram-no literalmente perder a cabeça no campo de batalha, e com a própria a de outro seu colega também coronel, o Tamarindo. 


Moreira César (fonte: Internet)


A tresloucada campanha do ignóbil, que disse tomar Belo Monte sem disparar um tiro, apenas a golpe de sabre, além da derrota acapachante, só serviu para municiar os conselheiristas com mais milhares de armas e milhões de cartuchos. Dentre as armas, seis modernos canhões que os habitantes do Belo Monte não souberam manusear e os transformaram em bigornas. É de bom alvitre lembrar que a comunidade, mesmo dependendo de alguns produtos do exterior, foi autossustentável no pouco que necessitavam para viver, inclusive no que concerne à metalurgia, fundição, tecelagem, etc.


Terei que encerrar esse capítulo, excedi o limite de caracteres que nessa mídia me permitem. Continua...



Por que o poder constituído -- leia-se: governos, judiciários, grandes empresários e banqueiros, latifundiários e até mesmo a Igreja -- tem tanto medo do povo organizado?

Idêntico pavor também têm de que o povo se eduque e finalmente tome consciência do quanto é explorado e que, para se acabar com tanto descalabro, precisa se organizar e tomar o poder.

Por isso, uns miseráveis, inofensivos, como o povo que formou e habitou Canudos foram combatidos e dizimados.

L.s.N.S.J.C.!

2 comentários:

  1. Hoje vinha pensando durante minha caminhada matinal: por que a famélica Cuba preoculpa tanto ao país sem nome? Uma ilha miserável, como muitos dizem, sem poder bélico algum que lhe faça frente, sem ameaça às suas fronteiras, pode prejudicar a boa vida que o modelo americano proporciona? Seria essa questão de abrir os olhos dos alienados ianques, que educação, saúde e segurança são bens inalienáveis e devem ser supridos pelo Estado?

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    1. Cuba, meu caro Moita, a exemplo do que foi Canudos, é um mau exemplo para o país sem nome e outras potências capitalistas. Ainda mais ali, a um pé dos ianques.
      Já pensou se outras comunidades resolvessem imitar Canudos? Ou se outros países acabam seguindo o exemplo de Cuba?
      É a mesma coisa com os pastores. Que seria deles se a maioria dos crentes abrissem os olhos?

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