sábado, 28 de julho de 2018

O PIEDOSO Manoel Pinto da Silva!


Sonho de consumo para os ricos paraenses da época: apartamento a partir de CR$ 1.610.000,00
 (fonte: Internet)

QUANDO se fala em Manoel Pinto da Silva, o nome do magnata português que fez fortuna em território paraense imediatamente remete à sua maior obra, o imponente edifício Manoel Pinto da Silva, prédio construído na década de 1950, que foi durante anos o mais alto de de toda a Amazônia. Morar no prédio mais alto do Norte torna-se o grande sonho de consumo das elites paraenses de então.

Manoel ou Manuel Pinto da Silva? Isso não é relevante.

Leia também:

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http://www.abodegadovalentim.com/2018/06/jose-augusto-moita.html

Na verdade pouco restou registrado sobre sua passagem pelo planeta Terra. Nenhum livro, nenhuma página na Wikipédia, nada. Nada de interessante, mui provável, tenha deixado o magnata para que servisse de ensinamento aos que ficaram.

Mas que essa escassez de notícia sobre Manoel Pinto da Silva não seja razão para o nome do português ficar restrito apenas ao famoso edifício que construiu e que, por vaidade, deu seu próprio nome.

Morando na zona rural ainda garoto, não conhecia o prédio histórico batizado em homenagem a seu construtor vaidoso; apenas ouvia falar. Logo cedo, porém, travei conhecimento do nome de Manoel Pinto por meio de meu saudoso pai, um outro Manoel, o Valentim Moreira, que trabalhava como operário num dos empreendimentos do poderoso empresário português, uma de suas olarias. Lá meu pai e dezenas (centenas, provavelmente) de trabalhadores, moldando o barro, fabricavam tijolos aos milheiros para a  construção do gigantesco edifício, e também, com o excedente, para compor as casas e prédios das cidades do estado, ajudando o luso a ficar cada vez mais rico, por conseguinte.

O pai falava bastante sobre o xará milionário, que teria chegado pobre ao Brasil aportando em Belém duas décadas antes. Devia ser jovem ainda e o patriarca era o senhor Camilo Pinto da Silva.

A imprensa, entre ufanista e laudatória, como comprova esta página de jornal, 
festeja a inauguração da grandiosa obra  (fonte: Internet)

Acidentalmente um dia ouvi, entre as conversas dos adultos, minha mãe, dona Maria Ferreira, falando sobre alguém que teria enriquecido. "Difícil ficar rico se não explorou ninguém". Nunca me esqueci daquele comentário. Riqueza - pobreza - exploração. A partir de então, carrego comigo uma indagação: Seria possível alguém, não tendo recebido polpuda herança ou participado de algum grande negócio  com o governo, ficar rico sem não explorar seu empregado?

Voltando ao portuga.

Como dizia antes, ouvi da boca de meu pai muito sobre o megalomaníaco lusitano. Entre outras histórias, a de que o portuga teria lesado seu próprio pai, o velho Camilo Pinto da Silva, analfabeto, transferindo significativa parcela do patrimônio paterno para seu próprio nome. 

Pinto teria sido um dos primeiros empresários de ônibus na cidade de Belém, além de ter também fornecido material para a construção do aeroporto de Val-de-Cães.

Um patrício seu, estando em situação financeira difícil, foi-lhe bater às portas a pedir emprego. Manoel Pinto, meio que indiferente à presença do conterrâneo, admitiu o compatriota semianalfabeto em uma de suas empresas. Ao contrário do que se esperava, empregou-o num trabalho braçal em vez designá-lo para um cargo de relevância, como desejava o português pobre. Era português, era patrício, mas era pobre, não fazendo jus, portanto, a tratamento melhor. E lá foi o conterrâneo para o rabo da enxada, de nada adiantando a sua condição de conterrâneo do patrão.

Edifício Manoel Pinto da Silva (fonte: Internet)

Outra.

Certa ocasião, cavalgando por numa estrada vicinal, Manoel Pinto avista um homem  que carregava um feixe de lenha nos ombros. Era seu empregado, por coincidência, mas o patrão não o reconheceria entre centenas de outros que serviam sob suas ordens.

-- Onde pegaste essa lenha, ó rapaz?

-- Peguei aí... na sua mata, seu Manoel. -- responde o mulato, trêmulo de medo, apontando com a cabeça a floresta em redor, ao reconhecer o arrogante patrão.

O português mandou imediatamente o caboclo devolver a lenha onde tinha pego. De nada faria diferença para o rico português a lenha colhida pelo operário para queimar no rudimentar fogão. Tomou tal atitude imperativa e antipática com o fito de meramente exercer poder. Era ele o dono, era ele quem mandava e pronto.

Mas a minha mãe deu-me, sem notar, uma aula de sociologia.

Sim, hoje vejo que, por sentirem na própria pele o problema social, a dona Maria e o seu Manoel, desde aquele tempo, possuíam noção de como alguns prosperam materialmente. Muitas vezes se valem do suor alheio, pagando salário vil. Se não querem, tem quem queira. Simples assim.

Mas um belo dia o seu Manoel Valentim Moreira, sendo um homem que lia tudo o que viesse às mãos, ao comprar sabão em pedra, desembalando-o, leu no jornal que servia de embrulho a seguinte manchete:


"Falece o piedoso Manoel Pinto da Silva"

Cumpria assim o poderoso português nosso destino comum. Com certeza não fez falta alguma. 

Que a terra lhe tenha sido leve, como dizia Machado de Assis.

E foram eles, minha mãe e meu pai, os primeiros mestres a me ensinarem que o mundo se divide em dois grupos: o dos que mandam e o dos que obedecem; o dos que usufruem e o dos que apenas sobrevivem; o dos que governam e o dos que apenas servem e pagam imposto.

Mas ao final pobres e ricos têm um destino comum.

L.s.N.S.J.C.! 

2 comentários:

  1. E ainda leva o título de piedoso depois de morto...mas seus pais foram sábios, matematicamente é impossivel um enriquecimento honesto em duas dezenas de anos. E um enrequicemento sem explorar outros seres humanos é completamente impossível independendo quantidade de anos que sw tenha para realizar tal tarefa.

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    1. A mídia, meu caro Moita, desde sempre reflete a sociedade hipócrita em que está inserida, bajulando os ricos e usando os pobres.
      Manoel Pinto era vaidoso, megalomaníaco, explorador, ambicioso, resumindo: um mau caráter, a ponto de ter enganado o próprio pai, aproveitando-se dele ser analfabeto. Provavelmente tenha passado em cartório uma procuração ao filho, que o ludibriou e também a seus irmãos.
      Não tinha necessidade, mas se propôs a construir o arranha-céu mais alto da cidade. Com que propósito mostrar-se poderoso diante de todos, inclusive de seus inimigos.
      Mas era O Piedoso Manoel Pinto.

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