segunda-feira, 16 de julho de 2018

MONTIEZ Rodrigues!

Os irmãos Dias


Montiez Rodrigues
OS IRMÃOS Dias eram os maiores agiotas de Natal no meu tempo de Banco do Brasil. Era raro um funcionário do BB (Banco do Brasil) que não tivesse na carteira de empréstimos deles pelos menos uns dez cheques especiais assinados. 

Zé Dias e João Dias praticavam as taxas de juros mais baixas. Era de 10%, no máximo, descolados da inflação, taxa que era apenas o dobro da oferecida pelo cheque-ouro do próprio BB. Quando o funcionário esgotava seu limite, corria para os irmãos Dias. Mas havia outro irmão.

Era o Adolfo Dias. 

Para este só se recorria como o recurso do recurso, era a instância superior da agiotagem. Suas taxas, além de seletivas, eram extorsivas. Nunca eram menores que 20%. Cair ali era se arremeter num mergulho sem fim, de onde nunca mais viria à tona. Só mesmo o departamento social do Banco para, através de uma severa restrição numerária à vítima infeliz, acrescida de tratamento médico e psicológico, liquidar seu débito com o agiota. Eu mesmo, se quis escapar desse maestron naufrágico, aceitei passar oitenta dias internado numa clínica cinco estrelas para me submeter a tal tratamento.

Na FAB, quem emprestava dinheiro a juros para nós sargentos eram os taifeiros. Nunca entendi como o dinheiro deles sempre sobrava e o nosso nunca chegava nem na metade do mês.

Quando fui apresentado a Zé Dias, fui apadrinhado por um devedor seu contumaz: José Radir de Macedo, colega do BB e futuro prefeito de Parelhas. Em lá chegando, Radir, todo respeitoso, foi logo dizendo:

 "Seu Zé, trouxe um rapaz para o senhor conhecer e para ser seu futuro cliente. O cara é dos bons. Entrou no Banco agora, mas veio da Força Aérea, era sargento da Barreira do Inferno". 

Zé Dias, sem o menor entusiasmou, olhando-me de cima a baixo, disse pra Radir:

 "Da Barreira, não, mas da Base Aérea tenho mais de cem cheques aqui, de sargentos e até de tenentes". 

Lá se foi meu trunfo! Naquela noite as putas do Danúbio Azul e as de Maria Boa não teriam cervejas pagas por mim. Mesmo assim, Zé Dias, com aval de Radir, me emprestou um pouco. Entrei naquela ciranda e girei nela por muitos anos, mas nunca recorri a seu irmão mais velho. 

Com Adolfo Dias, a dor fodia sem dó nem piedade. (via Facebook)

Com alguma dose de humor, Montiez Rodrigues põe a nu uma realidade muito comum nos anos 80 e 90. Muitos chefes de família acabavam se endividando e recorrendo a agiotas. Nós não sabíamos que a conjuntura econômica de então tinha muito a ver com essa crise, tal era o achatamento salarial, o alto custo de vida e a especulação financeira.

Muitos colegas se sentiam culpados por não conseguir controlar o orçamento familiar e faziam de tudo para não deixar nada faltar em casa. Mas acredito que muitos de nós procuravam não passar o problema para a família, procurando poupá-la. 

No nosso caso, os militares, ainda tinha uma dificuldade adicional: caso atrasasse uma parcela no comércio, o lojista logo mandava uma comunicação ao comandante, que, de imediato ameaçava o milico com o número 63 do artigo 10 do Regulamento Disciplinar.

L.s.N.S.J.C.! 


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