quinta-feira, 19 de julho de 2018

CANUDOS, não. Belo Monte! (parte final)


Por José Augusto Moita

Imagem rara do Arraial de Canudos (Fonte: Internet)


EM ABRIL de 1897, após chegar na Capital Federal as humilhantes notícias do que ocorrera com a cabeça do Corta-cabeças, o imprudente primeiro presidente civil do Brasil, Prudente de Morais, jurou por tudo que para ele era prudente, que aquela vergonha não ficaria impune. Mobilizou as forças militares de dezessete Estados da Federação, metade do contingente disponível, e sob o comando de três generais, abastecidos de farta munição de arma e de boca, tocou-lhes sertão adentro para exterminar de vez aqueles monarquistas ex-comungados -- se bem que tanto de um lado como de outro eram todos católicos praticantes. Só que quando lá chegaram a coisa estava diferente do combinado. Essa quarta expedição a Canudos esteve prestes a também ser derrotada pelo pessoal do Conselheiro, faltou muito pouco. Para evitar mais essa bombacha justa ( já que muitos gaúchos foram combater com essa indumentária naquelas cercanias), o próprio Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, deslocou-se ao teatro de operações com mais homens e suprimentos; ficando porém acampado um pouco distante, que ele não era besta. Daí se deu o fim do massacre no dia 06 de outubro de 1897, depois de seis meses de um impiedoso cerco ao povoado, dizimado a bala, fogo e fome.
Antônio Conselheiro numa das charges divulgadas pelos jornais da época (fonte: Internet)



O saldo de vítimas dessa estúpida e covarde guerra foi de cinco mil vidas do lado das forças governamentais. Já as almas ceifadas entre os conselheiristas são estimadas em 25 mil, segundo dados oficiais porém oficiosos, posto esses números serem arbitrados pela contagem dos casebres destruídos a custa de granadas, incêndios e balas de canhão: em torno de 5.300, colocando-se cinco pessoas, os pais e três filhos, para cada habitação. Só que os leitores mais atentos hão de convir que essa cifra, de um casal com três filhos, estava muito aquém da realidade nordestina, que consistia de proles numerosas, sem esquecer dos avós e agregados que sempre complementavam uma família. Portanto os generais foram muito comedidos em seus cálculos e os números verdadeiros não os teremos nunca. Se o fogo associado ao esfacelamento dos corpos não permitiu a contagem correta no passado, a água do açude que soçobrou o local não favorece um trabalho científico mais apurado.

Pouco se sabe sobre sobreviventes, nada existe documentado, apenas a foto abaixo que mostra um pouco mais de uma centena de pessoas do sexo feminino e crianças. Os homens que não foram mortos em combate, quando capturados, eram todos degolados, a famosa gravata vermelha, que também não poupou as prisioneiras mais valentes. Esse fato levou a não haver rendição entre os combatentes conselheiristas. Os nossos bravos soldados adquiriram uma destreza muito grande na aplicação da degola; pelas costas do infeliz enfiavam-lhe dois dedos nas narinas, puxavam-lhe a cabeça para trás, cortando-lhe a traqueia com apenas um golpe de afiada lâmina, tanta perícia que a coisa parecia até indolor. Há relatos colhidos junto aos aplicadores de tal cirurgia, que os pacientes não vertiam sangue que enchesse uma simples chícara, devido seu estado de total desnutrição.

Euclides da Cunha, dentre tantos que escreveram sobre a página mais repugnante da nossa História, não conseguiu em momento algum achar bravura naquela guerra que não fosse da parte de um velho, de um menino e de dois homens feitos, últimos bastiões que resistiram até o último cartucho sob os escombros de um sonho.


P.S. A imprensa, a maior formadora de opinião à época, através de notícias fantasiosas e difamatórias, também corroborou com um belo serviço de limpeza étnica. Somente duas vozes não sujaram de sangue suas penas, Machado de Assis e Afonso Arinos ( tio do famoso jurista). Rui Barbosa acovardou-se, escreveu contra a carnificina mas não teve coragem de publicar. (via Facebook)

A começar por Deodoro da Fonseca, um dos grandes traíras da história brasileira, passando por Prudente de Morais, Artur Bernardes e findando em Washington Luís, em todas as (ou quase todas) cidades brasileiras essas figuras são nomes de praças, ruas e avenidas. Indaga-se: o que efetivamente fizeram esses personagens da República Velha em favor do povo humilde? Nada. Ao contrário, trabalharam em favor da conservação do poder concentrado nas classes abastadas deste país, favorecendo em consequência a a miséria e a desigualdade brutal reinante até hoje. São lembrados unicamente porque estavam no poder.

Que representava de perigo real Arraial de Canudos ao sistema instituído? Nenhum. Eram brasileiros miseráveis, analfabetas, gente que estava lá apenas para viver sua vida sossegada. Mas, ameaçada, era natural defender-se. 

Quantos Ruis Barbosas existem atualmente? Sim, muita gente influente e de saber, capaz de mudar o rumo das coisas, continua se acovardando até hoje. Com a palavra alto judiciário brasileiro.

Hoje, quem são os perseguidos deste país? Justamente aqueles que, a exemplo dos seguidores de Conselheiro, tentam se organizar. Assim, os sindicatos dos trabalhadores, os movimentos dos trabalhadores sem terra e outras organizações sociais são diariamente perseguidos, difamados pela mídia de hoje, que, maquiavelicamente, manipulam e influenciam a grande massa ignara contra esses representantes organizados das classes mais simples deste Brasil.

O sistema tem medo do povo organizado!

L.s.N.S.J.C.!

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