domingo, 13 de maio de 2018

TREZE de maio, 130 anos depois!

Depois de 130 anos da Lei Áurea, para os negros e pardos do país pouca coisa mudou. Nada a festejar e muito a conscientizar

Marielle Franco, ativista, defensora de minorias, assassinada em março de 2018 (fonte: Internet) 



NAQUELE domingo de um mês e ano qualquer dos anos de 1970, fui ao mercado de São Braz para comprar um jornal, a pedido de meu pai. Voltei para casa com o periódico embaixo do braço. No caminho alguém chamou: "Ei, garoto! Quanto é o jornal?". "Não, não estou vendendo.", respondi.

Não me dei conta do que estava por trás daquela inocente abordagem. 

Muitos anos se passaram quando pude associar essa passagem de minha infância ao episódio que me relatou a mãe de minha ex-mulher. Dona Nonata, professora aposentada, em conversa informal, disse-me  o seguinte: 

"Meu pai era funcionário humilde do governo do Estado. Era na época do Magalhães Barata. Uma vez, ele, enchendo-se de coragem, conseguiu com muito custo uma audiência com o governador. 'Que o senhor deseja?', indagou a autoridade. 'Vim aqui pedi, governador, que o senhor dê uma vaga para minha filha no Colégio Paes de Carvalho'. Naquele colégio só estudavam filhos de gente importante e filho de pobre só se fosse com a indicação de uma autoridade pública. Qual foi a resposta do governador?: 'Ora, quem não pode com o pode não pega na rodilha' (essa era uma forma de dizer que quem não tem competência não se estabelece, ou cada macaco no seu galho). 'Pegue a sua filha e a empregue numa casa de família".

Rafael Braga, ex-catador de recicláveis, preso injustamente (fonte: Internet)


Ora, além de pobre, Nonata era mestiça, ou seja, tinha as características físicas de moça pobre. Mais ainda: era mulher. De outra forma, o governador disse que para ela não havia outro futuro a não ser conformar-se com a classe social em que nasceu. Nasceu pobre, morre pobre. A educação, que abre a porta da ascensão social, estava reservada aos ricos e seus filhos. Aos pobres, quando muito, somente até a quarta série primária, aprendendo a ler, escrever e as quatro operações. No máximo. Como precisam cedo trabalhar para ajudar a família, muitos cresceram analfabetos. 

Vi então que o pai de dona Nonata tinha consciência de que a educação era importante e que, sem ela, não se chegava aos postos mais elevados da sociedade. A educação abre portas, aliás, ela própria é a porta. Por isso ele foi ao governador pedir uma vaga no colégio elitista. Pela mesma razão, negou o governador. Sabendo da importância da educação, esta era reservada aos filhos de pais ricos, crianças bem-nascidas, que mais tarde seriam os detentores dos postos de chefia, patrões dos pobres, principalmente negros e mestiços. Para que pobre estudar, ainda mais negros e pardos? Que ficassem para os trabalhos braçais, os serviços domésticos e outras funções não valorizadas, sob as ordens do rico e do doutor.



O real significado contido nesse episódio da vida de dona Nonata somente mais tarde fui compreender. O governador poderia mudar totalmente a vida dela, se quisesse. Também somente depois fui entender o episódio do menino com o jornal de domingo, negro ou mulato, franzino e mal vestido, que, aos olhos do homem que lhe abordou, somente podia ser um menor vendedor de jornal, de picolé, de balas, para ao final do dia garantir algum dinheiro, migalhas. Aos olhos de uma sociedade elitista, preconceituosa, excludente, perversa, aquele menino jamais poderia ser visto como leitor, sim como um sobrevivente.

Meus amigos!

Nesta data faz 130 anos que a Lei Áurea, a que declarou a extinção da escravatura no Brasil, foi assinada. Hoje sabemos, apesar do que dizem os livros tradicionais de História, que o documento foi meramente uma declaração formal, pois vimos que na verdade pouca coisa mudou para os negros e pardos brasileiros. O negro continua cativo, porque não se muda 350 anos de cativeiro sem ações concretas.


Na propaganda oficial, inexistia a figura do elemento negro no Brasil.
O livre acesso à educação de qualidade era privilégio de poucos (fonte: Internet)


De fato. Em qualquer lugar que cheguemos, percebemos que às pessoas negras e pardas são reservadas as posições de menor destaque. Os trabalhos menos valorizados são ocupados, em significativa parcela por gente não branca, porque a esta, mediante acesso às boas escolas, ocupa os postos mais elevados na sociedade, sendo no serviço público ou na iniciativa privada.


Juliano Moreira, médico psiquiatra referência da Psiquiatria brasileira, uma rara exceção de ascensão social (fonte: Internet)

A Lei Áurea foi um grande engodo, uma ilusão. O negro brasileiro, uma vez declarada a extinção da escravatura, foi mantido à margem da sociedade. Os antigos escravos não foram devidamente preparado para fazer parte dela, não lhe restando, para sobreviver, outros trabalhos a não ser os mais servis, a troco de salários infames, levando considerável parcela da população negra e parda , em consequência, à situação de marginalidade, a morar na periferia ou nas favelas e palafitas, ao subemprego, à fome, à perpetuação das desigualdades. Tal segregação, que a sociedade elitista lhe infringiu, levou a população negra a sofrer -- e até mesmo considerar como normal -- o preconceito racial e social, incluindo a violência policial, condições a que a própria sociedade em geral (incluindo os próprios negros) considera normal.

Neste blogue, muito temos chamado a atenção para a causa.

Eis algumas postagens: 

http://www.abodegadovalentim.com/2017/12/luana-tolentino.html
http://www.abodegadovalentim.com/2017/11/racismo-na-teve.html
http://www.abodegadovalentim.com/2017/12/djamila-ribeiro.html
http://www.abodegadovalentim.com/2018/03/mais-um-caso-de-racismo.html
http://www.abodegadovalentim.com/2017/12/das-senzalas-aos-estudios.html
http://www.abodegadovalentim.com/2018/04/milton-nascimento-conta-como-o-racismo.html
http://www.abodegadovalentim.com/2018/03/rotina-policial-ou-apenas-racismo.html
http://www.abodegadovalentim.com/2018/02/mais-um-caso-de-racismo.html
http://www.abodegadovalentim.com/2017/09/nao-ao-racismo_18.html
http://www.abodegadovalentim.com/2018/05/inseguranca-publica.html

Muitos dizem que não há racismo no Brasil, que vivemos uma democracia racial e outras balelas. Vivemos num processo de amnésia, de faz-de-conta que todos são iguais. O próprio negro e outras etnias são convencidos diariamente pelos meios de comunicação social de que não há segregação. No entanto, o que se vê nas telenovelas? Atores negros na pele de personagens representando funções menos valorizadas. Não vemos nenhum negro como juiz de direito, professor universitário, médico. Uma forma de a sociedade dizer-nos onde é o nosso lugar. Tudo normal. 

Muitos negam. Mas os fatos cotidianos (relevados ou não) somente comprovam que a sociedade brasileira ainda está longe de corrigir essas distorções, que somente podem ser minoradas ou sanadas com políticas progressistas de inclusão. 

As populações historicamente segregadas não querem favor. Tampouco migalhas. Querem oportunidades.

Vale a pena ler também essas duas notícias abaixo.


https://g1.globo.com/educacao/noticia/brasil-viveu-um-processo-de-amnesia-nacional-sobre-a-escravidao-diz-historiadora.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1

Precisamos mudar esse quadro!

L.s.N.S.J.C.! 

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