terça-feira, 8 de maio de 2018

PAULO Leminski!


Por falar em tortura


Paulo Leminski (Fonte: Internet)


HÁ MUITOS modos de se torturar uma criança. Pode-se, por exemplo, fazer uma fogueira com todos os seus brinquedos, e obrigá-la a assistir a cena. Esse era o método favorito entre os mongóis, que entendiam de tortura infantil como poucos. Um outro modo muito eficiente também é chegar, de repente, e dizer para a criança: "Tua mãe morreu". Salvo casos raros, como o do imperador Nero, essa técnica dá resultados lancinantes. Os russos preferem métodos mais sutis. Para torturar uma criança, eles enchem um quarto escuro com as obras completas de Marx, Engels, Lenin e Stalin e deixam a criança lá dentro por 24 horas. Os americanos, mais pragmáticos, preferem levar a criança até um parque de diversões e dizer: "Titio vai comprar pipoca". E nunca mais aparecer. Soube-se de casos em que pais ou responsáveis deixaram seus filhos ouvindo Frank Zappa, a todo volume, por horas a fio, tortura preferida pelos pais contraculturais dos anos 60.

Pais imaginativos gostam de torturar seus filhos contando-lhes histórias em que lobos tentam entrar na casa dos porquinhos, sendo que a criança é um dos porquinhos. Ou histórias onde a bruxa malvada prende Branca de Neve numa jaula para que ela (a Branca, não a criança) engorde e fique no ponto, para ser assada no churrasco de domingo. Essa tortura ficcional é muito eficaz, porque vai repercutir na vida onírica dos petizes, produzindo, a médio prazo, sonhos angustiantes e pesadelos insuportáveis, dos quais a criança, invariavelmente, acorda gritando -- "Mamãe!" É a hora perfeita para dizer: "Volte a dormir, querida; mamãe, o lobisomem comeu".

Mas, de todos os métodos para torturar crianças, nenhum se compara ao método chamado "escola.

A escola deve ter sido inventada por um verdadeiro discípulo do marquês de Sade. Basta dizer, para vocês fazerem uma ideia, que, nesses hediondos calabouços, as crianças são obrigadas a memorizar que dois mais dois "é quatro", que "pi" é um número sem fim, que um ao quadrado é um e que todo número multiplicado por zero -- mesmo que seja um bilhão -- é zero. E não para aí. Uma das torturas mais requintadas usadas nessas tais "escolas" é a chamada análise sintática, nome inocente para disfarçar um dos tormentos mais sofisticados que a doentia mente humana foi capaz de inventar.

Basta dizer que na tal "análise sintática', diante de uma frase, uma criança tem que adivinhar quem é o sujeito, quem é o predicado, quem é o objeto, não necessariamente nessa ordem, é claro. Adivinhar é uma brincadeira divertida. Mas não no caso da "análise sintática". Se você adivinhar errado, reprova, e vai ter que fazer, de novo, aquele ano inteirinho, tentando adivinhar quem é o sujeito, quem é o objeto, quem é o predicado. Depois de reprovar uma, duas, três, quatro vezes, a criança desiste e prefere ser trombadinha, surfista ou cabo eleitoral de Jânio Quadros, qualquer coisa, menos sujeito, predicado ou objeto.

Peguem o tal sujeito inexistente, por exemplo, o sujeito das orações que expressam fenômenos atmosféricos. Chove, quem chove? Ninguém chove. Venta. Quem venta? O vento? Errado. Ninguém venta. O vento se venta sozinho.

Que dizer do tal "sujeito oculto"? Claro que o sujeito oculto é sempre o principal suspeito do crime de haver frases no mundo. A não ser assim, por que se ocultaria? Sujeito oculto. "O assassino se escondeu atrás da parede de tijolos", "O espião da GB usa óculos escuros', "Jack, o estripador, era filho da rainha Vitória", "Mengele está vivo e bem no Paraguai", esses são casos verdadeiros de sujeito ocultos. Mas as crianças levam anos para encontrá-los. E, quando os encontram, já estão com cabelos brancos, como Sherlock Holmes.

A invenção da escola, como vocês estão vendo, torna obsoletos todos os antigos métodos de torturar crianças.

Com mais escolas, as crianças sofrerão muito mais, os adultos se divertirão mais e todos teremos, enfim, aquele Brasil com que todos sonhamos. (Nelson Piletti. Sociologia da Educação, editora Ática, p. 149-150). 



De fato, o ensino da Língua Portuguesa (e não só essa disciplina escolar) constitui-se num fardo para a criança . Uma das razões é que a língua falada em casa, nas ruas, no clube, na televisão, é uma, bem diferente da língua ensinada nos livros didáticos. A língua que a professora fala no seu dia a dia não é a mesma que fala ao ler um texto para seus alunos. 

Como ensinar, então? Como fazer a criança aprender tantas regras gramaticais? A didática e os cursos de licenciatura ensinam que, para se aprender, é necessário que aquilo que se ensina tenha utilidade na vida prática. O aluno aprende aquilo que vê no seu cotidiano, no concreto. 

Por que aprender análise sintática, morfologia, ortografia, pontuação?

Cabe ao docente esclarecer. Quanto ao uso da língua, no caso a língua escrita, é preciso conscientizar o aprendiz que a Língua Portuguesa tem vários usos, conforme o ambiente em que se está, o ambiente a que é dirigida, à finalidade, ao meio social. O aluno precisa saber que um comentário de internet não deve ser igual à redação do Enem; o bilhete da mamãe não é o mesmo que um requerimento dirigido a uma autoridade pública; que um concurso público não vai tolerar erros de ortografia, exigindo sempre a norma cultura da língua. O discente precisa saber que a análise sintática o ajudará a interpretar corretamente uma crônica, um conto, um capítulo. 

Essas coisas precisam ser esclarecidas.

Por que preciso aprender essa matéria? Qual é a finalidade disso? Por que devo aprender essa regra? Que utilidade terá?

O blogueiro, nos seus primeiros anos de escola, aprendeu as separações em sílaba. Um dia, em prova de redação, que naquele tempo era muito comum, chegando ao final da linha fez uma separação errada (por exemplo: pa-ssado). A professora fez um xis em vermelho assinalando erro. Só aí é que fui aprender que o ensino da separação das palavras em sílaba servia para isso. Outro caso: a explicação que as professoras davam sobre o substantivo concreto e o substantivo abstrato. "Concreto é tudo aquilo que existe", diziam de forma simplista; "já substantivo abstrato é aquilo que não existe". Foi como eu aprendi. Eis que mais tarde, vejo que saci-pererê, um ser mitológico, é classificado como substantivo concreto. Fico a imaginar que na verdade elas também não sabiam e passavam para o aluno da forma que ele mais fácil entendesse, embora de maneira errada. Era a Pedagogia Tradicional.

Explicando e deixando claro para que serve, tornará mais fácil o aprendizado. O aluno entenderá, levando esse aprendizado para a sua vida. Apenas memorizando para tirar nota boa na prova, isso, sim, se tornará uma verdadeira tortura. A escola será vista como um castigo e não um instrumento de libertação.

Mas, a propósito, até hoje não entendi para que serve a fórmula de Báskara. Alguém se habilita a dizer? 

L.s.N.S.J.C.!

(BLOGUE do Valentim em 06maio2018)

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