terça-feira, 1 de maio de 2018

INSEGURANÇA pública!

Antonio Valentim

Paz aos pretos, pobres e da periferia


ANO de eleições gerais e dentro de pouco tempo haverá inundações de propagandas de candidatos pedindo voto. Quase a totalidade deles (senão todos) empunharão as bandeiras da educação, da saúde e da segurança, além de outras promessas demagógicas. 

Ano passado, depois de algum tempo, estive de volta à minha Belém morena. Estava eu, minha esposa e minha filha em visita turística ao Ver-o-Peso. Depois de saborearmos o açaí com peixe frito, nos embrenhamos entre as barracas dos feirantes. Numa delas paramos por conta da feirante que oferecia ervas. Algumas fotos com figuras famosas nos chamaram a atenção. Era a dona Bete Cheirosinha. "Pena que deixei a câmara no carro", disse eu. "Ficou no carro prata", responde a simpática dona Bete com uma ponta de sorriso. Carro prata?

Por estar longe dos noticiários de rádio e tevê da minha terra, não conhecia o famoso carro prata, que ultimamente se tornou o terror da periferia. Surgem, de repente, alguns homens armados e atiram em direção a alguns que estão de bobeira em local público, uma calçada ou num botequim. Corre que lá vem o carro prata!

Os alvos dos homens a bordo do carro prata, esses justiceiros, esses promotores da higiene social, são em geral a população masculina e jovem dos três pês: pretos, pobres e da periferia. O tal carro prata não circula pelos bairros chiques nem incomoda com os homens e mulheres brancos e de classe média. O alvo é o bandido, e o bandido necessariamente detém essas características, estigmas sociais indeléveis que passam de pai para filho, de geração para geração. 
Cabo Fátima, mais uma vítima do descaso governamental com a segurança pública. Aqui em postagem de político conservador. (Fonte: Facebook)


Navegando pela internet, chamou-me a atenção um blogueiro de Belém que dava, indignado, como título a uma de suas postagens o seguinte: "Ladrões atacam lotérica em pleno Umarizal". Em pleno Umarizal, onde já se viu? Se fosse na Terra Firme, talvez o mais pobre dos bairros da capital paraense, o fato nem objeto de postagem seria. Rotina. Onde tem pobre só pode ter bandido, é coisa normal e essa gente está acostumada. Se houver vítimas, mortes, é coisa normal, tudo bem, até melhor. Mas no Umarizal?

Voltando ao assunto das eleições vindouras (ou não), essa gente boa e elegante e sua campanha milionária virá com o mesmo discurso de sempre. Um deles a segurança pública. Ora, qual a proposta de quase todos para a segurança pública? Aumentar contingente policial, formando e colocando nas ruas mais soldados. Outra, construir penitenciárias e delegacias e adquirir viaturas policiais. Isso vem ocorrendo há décadas, e o que de verdade acontece? Alguém vê melhorias na segurança do povo? Ao contrário, o povo -- principalmente a população dos bairros periféricos de Belém e todas as grandes cidades -- sente-se cada vez mais inseguro. 

Belém, a segunda capital brasileira mais violenta (fonte: Internet)


Eles -- os políticos profissionais -- sabem desse problema, esse clamor social pela sua integridade, pelo direito de ir e vir, pela vida. Um problema, aliás, que nenhum deles se interessa em resolver de vez, ao menos reduzi-lo. Solucionar ou reduzir o problema da insegurança pública numa comunidade significa perder essa bandeira política. Igualmente o caso da saúde e da educação, principalmente esta. Sabem na verdade que aumentar contingente não adianta muita coisa, construir presídios e delegacias policiais de vantagem somente produzirá superfaturamento e corrupção financeira, adquirir viaturas e equipamentos também. 

Um amigo de rede social, colega de turma, é apoiador de um candidato que tem como bandeira (uma delas) a segurança pública. Para ele e seus seguidores, bandido bom é bandido morto. A solução então será proliferar o país e as grandes cidades com carros pratas a conduzir justiceiros a tirar a vida de pretos e pobres, sempre nas periferias, onde só há bandido e vagabundo. Outra proposta mirabolante do candidato é incentivar o armamento da população de bem, facilitando a aquisição de armas e munições. Ideia de Jerico! Muito provavelmente o tal candidato seja patrocinado pela Tauros e outras indústrias bélicas. 

Ora, esse amigo, questionado por mim sobre por que razão votará no candidato, deu lá a sua explicação. "A bandidagem está demais, um primo meu já teve seu mercadinho assaltado por diversas vezes". Concordo que há insegurança e que, como disse o amigo, a bandidagem está demais. No entanto, vi que era impossível convencê-lo de que a tal solução não dará resultado. O bandido, como sabemos, tem como grande trunfo o fator surpresa. Outra, ele não ataca sozinho, pois há sempre um comparsa (ao menos mais um) lhe dando cobertura. Mais outra: o cidadão comum não tem treinamento para lidar com armas. Mais fácil é, por exemplo, envolvendo-se em discussão de trânsito, puxar a arma e matar e depois ir para a cadeia. Também não é difícil a arma servir para um crime passional ou mesmo suicídio.

O tal candidato -- isso ele não diz -- certa vez foi assaltado. O alvo do assalto era exatamente a arma de fogo que possuía consigo. Ora, se ele próprio, um oficial do Exército, acostumado a lidar com armamento, foi vítima de bandidos, imaginemos o cidadão comum! 

Ainda na periferia da região de Belém, a população indigna-se com razão pelo brutal assassinato de uma cabo da Polícia Militar do Pará. A reação natural e costumeira será a tropa, incluindo o tal carro prata, sair em combate à procura dos assassinos. Nessa missão vingativa podem ser mortos alguns pretos e pobres que, por morarem na periferia, poderão nada ter com o caso, sendo inclusive cidadãos trabalhadores e pais de família. Mas tudo bem, afinal, são pobres, pretos, da periferia, e é normal que gente assim morra de forma violenta. 

Soluções simplistas não resolvem. Não solucionam o problema da insegurança da população nem garantem a segurança dos praças -- soldados, cabos e sargentos -- que são a linha de frente no combate ao problema. 
Fonte: Internet


A força pública, segundo Engels, foi criada para garantir a segurança do Estado e de seus mandatários, e este é formado pelas classes mais altas da sociedade. A segurança da população, portanto, fica para segundo plano. O assunto serve também, indiretamente, para garantir no poder essa mesma classe dominante, porquanto garante votos nas eleições. As polícias militares estão aí exatamente para garantir segurança ao governador, ao prefeito, deputados, grandes empresários, juízes, oficiais de alta patente. Além disso, ela está destinada a conter os movimentos sociais, as justas reivindicações.

O próprio sistema em que está inserido as polícias militares, por si só, constitui-se em entrave para as mudanças em relação à falta de segurança dos policiais. Um cabresto que o próprio policial militar não deixa que lhe retirem. Alguém já viu bandido matar e roubar um coronel? Não, o coronel tem soldados da própria corporação para lhe dar guarda e à sua família, circula em carro blindado e os demais oficiais superiores moram em apartamentos seguros com câmeras de vídeo, portaria eletrônica e tudo o mais.

Não, bandidos atacam o cabo, soldado e o sargento, e suas respectivas famílias, pois estes também moram na periferia, a deus-dará, de qualquer jeito. Salários dignos, uma vila residencial para eles? Não, isso nenhum comandante cogita ou propõe. E se propuser, dificilmente o governador vai dar ouvidos. Ora, eles (comandantes, oficiais superiores, juízes, governador, prefeito e deputados) moram bem, ganham um bom salário, estão sim é preocupados com a próxima promoção, cargos, eleições. Cabe aos praças dessas corporações acatar, dizer "sim, senhor", cumprir ordens e ir em caçada aos bandidos. Caso se rebele, será enquadrado na disciplina e no regulamento militar, com direito a prisão, castigo medieval. À caça, pois de bandidos, mas bandidos pobres, pretos e da periferia, porque lá no Umarizal só há cidadãos de bem.

A exemplo da cabo Fátima, quantos policiais já foram assassinados antes? Incontáveis. Quantos ainda serão? Muitos. A vingança violenta evitará futura matança de policiais? Não, apenas produzirá mais ódio e vingança, numa espiral sem fim.

Não se resolve problemas complexos com soluções simplistas. A gente da periferia precisa de escolas e bons professores, praças, parques, quadras de esporte, saneamento básico, moradias dignas, postos de saúde com médicos, dentistas e profissionais de enfermagem, além de, é claro, empregos com salários decentes.

Há que se atacar as causas e não só as consequências. É coisa de longo prazo. A raiz de tudo está na educação, mas esses assuntos são coisa de esquerdista, comunista, subversivo, agitador! Enquanto se pensar assim, vão continuar matando pretos, pobres e da periferia. 

L.s.N.S.J.C.!

Um comentário:

  1. Sobre as razões da criação das forças públicas (polícia militar, no caso), faltou elencar as seguintes: 1) proteger a propriedade (mas só dos grandes proprietários); 2) repelir os movimentos sociais, para que os oprimidos não ameacem a classe opressora.

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