domingo, 27 de maio de 2018

CLASSE desunida!

O autor

MAIS uma vez voltei os olhos para o papel que estava ali deitado na mesa de trabalho. Ele olhava para mim como que dissesse: "Me assina logo! Quero virar um documento". Havia datilografado aquelas palavras 24 horas antes. Eram letras bem elaboradas em português castiço. Sem coragem de assinar e dar termo à redação, lia e relia o expediente como a ganhar coragem. A cada vez que o fazia resolvia mudar uma palavra, acrescentava uma vírgula, invertia uma expressão ou uma oração inteira.

Era uma forma de protelar sua expedição. Dirigia-se ao comandante da unidade e seu teor era sobre a criação de dois descontos internos de cinco por cento do soldo, cada um deles.

Eu disse criação? Imposição.

Pela situação aflitiva em que vivíamos, vinha remoendo aquela situação.

Eram tempos duros naquela década de 1980. Governava o país o senhor Ribamar Sarney, ele e o doutor Maílson, que ditavam o rumo da economia, que, na verdade, vinha desgovernada e sem rumo desde não sei quando. Era o país da inflação fora de controle e dos escândalos financeiros, que impunha arrocho salarial à faixa mais sofrida da população brasileira. Cada ano que se findava era festejado de forma entusiástica pelo povo na vã esperança de que o próximo viesse a trazer melhores dias, pois na cabeça de todos o janeiro seguinte não tinha como trazer um ano pior que o seu predecessor. Qual nada! A situação do povo ia a cada ano novo bem mais apertada que no outro. 

Tal era a conjuntura político-econômica nacional. Tais eram os problemas, que também se estendiam sobre as costas dos militares de baixa patente. 

Se, por necessidade, alguém decidisse comprar a crediário uma geladeira, um aparelho de tevê ou um fogão, além de ver comprometida parte de seu minguado salário por meses e semestres, seria sumariamente humilhado ao preencher e responder uma série de perguntas  embaraçosas por parte do analista de crédito: salário, quantos filhos, se tem ou não bens imóveis, avalistas...

E agora essa decisão, que representava um golpe nas nossas já combalidas finanças. 

O boletim interno dizia sobre a determinação de sua excelência em descontar do soldo de cada um de nós, suboficiais e sargentos da localidade de Manaus, a importância financeira correspondente a dez porcento do soldo. Cinco destinavam-se à Prefeitura de Aeronáutica, a título de taxa de recolhimento de lixo da vila dos suboficiais e sargentos. Os outros cinco eram para ajudar as finanças do clube, o CASSAM, que frequentávamos. Os caixas de ambas as subunidades seriam, portanto, socorridos por nós, suboficiais e sargentos da área de Manaus.

Dez porcento! E em tempos de vagas magérrimas.


E por que sua excelência não pedia repasse ao comando superior em Brasília? Não, para que incomodar seus superiores com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos internamente? Vai que aí prejudiquem a sua carreira. Não. Mais fácil onerar mais ainda a tropa, fazendo carga no soldo. A tropa não reclama, a tropa aceita, a tropa tem amor à Pátria, a tropa parece não ter família para sustentar... Ora pois!

Não tínhamos anuênios nessa época, tampouco adicional natalino. Tínhamos de esperar sete anos para, se as fichas de avaliação estivessem conforme e o alto comando permitisse, obtermos uma promoção que, ao final, rendia poucos cruzeiros ou cruzados de aumento no salário. A cada cinco anos o quinquênio, e tendo dez anos (era o meu caso), dois quinquênios, ou seja, 10% sobre o soldo. 

E o CASSAM?

O CASSAM era o clube que congregava os suboficiais e sargentos da área. O clube dispunha do maior espaço físico na cidade de Manaus na época. Além disso, possuía uma privilegiada área de estacionamento. Os bailes que promovia eram bastante concorridos, uma vez que geralmente abertos à comunidade manauara. 

Concorridos e rendosos.

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais.  Nessas ocasiões, corria dinheiro à farta com ingressos, venda de bebidas e tudo o mais. Era o carnaval mais animado da capital amazonense. O estacionamento lotado e automóveis em fila indiana quilométrica do lado externo.

Havia -- falavam à boca miúda -- uma forte concorrência à sua diretoria na época de eleições. Muita gente boa querendo ser presidente ou diretor. As eleições eram raras na verdade; havia mesmo era indicação da autoridade, o brigadeiro de três estrelas; eleição era uma palavra considerada perigosa, mais ainda no meio militar. O fato é que havia muita vontade de se pertencer à diretoria do cassino. 

Por que?

Não sei. Havia colegas que, mesmo de férias ou até de licença especial, não abriam mão do cargo de diretor do clube. Eu sei de um suboficial da diretoria, que fora transferido para Anápolis, sendo desligado de sua unidade para seguir destino em janeiro, mas estranhamente só se desligou da diretoria do CASSAM um dia depois do baile de carnaval, já meados de fevereiro. Muito trabalhador certamente e a comunidade de suboficiais e sargentos, na época, lhe foi mui grata por tamanha abnegação.

Portanto, muita gente boa "brigava" para ser diretor do clube. 

E agora, sua excelência mandava fazer carga na tropa para tapar rombo do CASSAM?

Diante de todas as dificuldades e suspeitas,  após muito meditar e remoer tal decisão administrativa, e mediante detalhada pesquisa na lei de remuneração, decidi fazer um documento à autoridade, pedindo que revisse a determinação, pois não havia respaldo legal.

Ao chegar na mesa do chefe, ele me chamou: "Valentim, você tem certeza que quer despachar esse documento?". (Não, Pedro Bó! É só pra gastar meu latim!) É claro que não disse essas palavras, mas deu vontade. É que o chefe, o chefe do chefe, o comandante, todos eles possuíam a seu favor um argumento fortíssimo: o regulamento disciplinar. Diante de minha negativa, o chefe mandou o documento em frente.

O documento circulava fisicamente de um setor para outro e, como não era sigiloso, veio a cair no conhecimento de todo o quartel. O soldado para o cabo, este para o sargento e o sargento para a todo o mundo. Correu o bizu inclusive para as outras unidades de Manaus que eu estava a encabeçar um movimento contra sua excelência, o brigadeiro de três estrelas, pela extinção da cobrança mensal daqueles famigerados dez porcento.

Eu ficara famoso na área.

Naquela noite quase não dormi. Quando finalmente adormeci já lá pela madruga, sonhei que me punham uma venda nos olhos e o oficial dizia ao pelotão de fuzilamento: "Preparar! Apontar! ...". Num sobressalto e com o corpo suado, acordei um pouquinho antes do "fogo".  Ufa!

Mas no dia seguinte o documento já, depois de tramitado por mais duas ou três mesas, estava nas mãos de sua excelência, que, sem se dar o trabalho de examinar seu mérito, o repassa para a resolução do chefe do estado-maior, que era um coronel no cargo remunerado de brigadeiro.

De todo o efetivo indignado, surgiram somente dois companheiros a me fazer companhia nessa reivindicação justa. Era o Soares, primeiro-sargento, e o Brandão, terceiro. Foi marcada uma data e hora para falarmos com o chefe do estado-maior, quando, gentilmente e com toda aquela boa-vontade, sua senhoria dedicaria uma parcela de seu precioso tempo para nos ouvir.

Chegou o dia. Na hora marcada, estavam lá o Brandão e o Soares na minha seção de trabalho a convidar-me para subirmos a escada e falarmos com a autoridade. Fomos lá seguindo a ordem hierárquica, com o Soares à minha frente e o Brandão, logo atrás de mim. 

Nesse caminho interminável, entre a base da escadaria e seu topo, mil pensamentos se passariam na minha cabeça. 

Claro, era uma decisão política e a autoridade não mudaria o que havia decidido. Eu era um renitente, um indisciplinado, um rebelde, um fora-da-lei. A autoridade era um coronel e nós, humildes sargentos, o que poderíamos fazer? Tinha contra nós e a favor dele um argumento fortíssimo, que era o tal regulamento disciplinar. Quantos dias de cadeia, caberia a mim, o cabeça do movimento? E se a punição que certamente me seria imposta me levasse a ser expulso da Força? No meio da escada me deu ímpeto de descer, sair correndo. Seja homem, eu dizia para mim mesmo. Éramos três e eu estava entre os dois companheiros. Do nada pensei: "Caramba! Caí numa cilada. Esses dois aí não estão do meu lado coisa nenhuma. É tudo uma conspiração para me levar ao verdugo. Eles são, na verdade, a minha escolta. Certamente sairei algemado da sala do homem".  

Pensando assim e me imaginando um prisioneiro levado ao cadafalso, mirava a furto ao dois colegas, avaliando-os. Soares e Brandão eram bem fortes e altos. Não. Eu não teria chance de fugir. Sairia do gabinete direto para uma cela.

Chegamos à sala do coronel, que, após as continências regulamentares, nos mandou sentar nas poltronas que estavam ali para visitantes. Foi o Soares, sendo ele o mais antigo, que argumentou junto à autoridade, ficando eu e o Brandão todo o tempo em silêncio. Até então, tudo bem. Eu respirava aliviado, embora o meu semblante denunciasse a minha contrariedade com relação ao abuso de autoridade que o desconto ilegal revelava. A autoridade, embora falando baixo e calmamente, dava a entender nas entrelinhas uma ameaça velada, dizendo-nos diplomaticamente que teríamos, a partir de então, toda a má vontade do comando e coisas do gênero. 

Soltei um suspiro bem grande de alívio, quando saí da sala. Desci a escada com celeridade e voltei para a minha seção de trabalho. Foi quando o Barros, olhando para mim com curiosidade mórbida, fez uma indagação: "E aí, quantos dias de cadeia?". Ora, minha cabeça a prêmio em nome de um prejuízo financeiro que se sobrepunha a toda uma coletividade. E o cara querendo saber se eu seria punido.

Isso para mim doeu forte. Que classe desunida, meu Deus! Hoje bem tenho consciência de que os comandos agem assim, contando com a desunião da classe em que cada um tenta levar vantagem em relação ao outro. É uma boca rica aqui, uma promessa de missão relevante ali, uma condecoração que pode abrir portas para uma missão futura no exterior, e assim vai. 

Nem me dei o trabalho de lhe responder. Dois meses depois fui transferido e só fiquei sabendo que o tal desconto foi reduzido à metade, cinco porcento. 

Sem perceber, envolvi-me numa ação política que, ao final, beneficiou (ao menos reduziu o prejuízo original) toda uma comunidade. 

Isso foi no segundo semestre de 1989. Não permaneci na unidade para sofrer da parte do comando a ameaçadora má vontade. 

L.s.N.S.J.C.! 

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