sexta-feira, 13 de abril de 2018

MILTON Nascimento conta como o racismo despertou sua consciência política!

EM 2010, Milton Nascimento recebeu honraria que poucos conseguem. Junto a 37 líderes espirituais da Nação Guarani-Kaiowá, foi batizado como Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi [Semente da Terra]. Ele celebra o significado do nome em seu novo espetáculo, que vem rodando o Brasil desde o ano passado. De volta a São Paulo, o artista se apresenta neste sábado (7), no Espaço das Américas.




O nome de batismo Guarani – concedido para pouquíssimas pessoas nascidas fora da tribo – surgiu a partir da percepção que os índios tiveram ao olhar uma foto de Milton. Nenhuma das lideranças o conhecia ou sabia de sua importância. Na ocasião, ele se apresentava em Campo Grande para comunidades indígenas e sul-mato-grossenses.

Depois de uma discussão fechada de quase duas horas, caciques e pajés – que estavam num dos camarins – entraram no palco durante o show de Bituca – apelido que recebeu ainda criança por fazer um bico quando contrariado, numa referência aos índios botocudos – e fizeram o batizado ali mesmo, no palco. “Semente da Terra”, nome de batismo concedido pelos índios, foi, então, também o nome escolhido para sacramentar o retorno de Milton aos palcos.

O espetáculo revê a carreira de Bituca por uma perspectiva política. O repertório inclui canções como “Credo”, “Nada Será Como Antes”, “Clube da Esquina 2” e “Coração de Estudante”. As duas primeiras são referência à ditadura militar. Já a segunda foi adotada pelo movimento Diretas Já, e os versos “Coração de estudante/ Há que se cuidar da vida/ Há que se cuidar do mundo” foram cantados à exaustão pelos manifestantes.


“Acredito que minha consciência política tenha aflorado durante minha primeira infância em Três Pontas, Minas Gerais. Eu era proibido de entrar no clube da cidade por ser negro. Isso era tão comum que quando tinha um show, ficava do lado de fora do clube ouvindo o som. Wagner Tiso, um dos meus melhores amigos, entrava e depois ia na praça nos contar sobre o que vira. Na época, eu tinha 14 anos, e Wagner, 12”, explica ao Destak, por e-mail, sobre como começou a se conectar com a política e temas sociais. “Teve também uma vez que meu pai adotivo, Seu Zino, precisou pegar um revólver pra me defender de outro caso de racismo. Sempre enfrentei muita coisa nesse sentido, então esse sentimento apareceu muito cedo pra mim”, completa.

“Esse mesmo clube que rejeitava minha entrada quando criança, quis me homenagear quando voltei do festival [2 Festival Internacional da Canção, quando ganhou fama nacional depois de cantar “Travessia”], em 1967. Acabei indo, mas por causa de um pedido de minha mãe, dona Lília”, conta.

Além do nome de batismo que recebeu dos Guarani-Kaiowá, a cultura indígena esteve presente na trajetória de Bituca desde muito cedo. “Tudo começou ainda nos anos 1970, quando conheci alguns indígenas num show de Jards Macalé. Ali já tive uma identificação muito forte”, explica. “Depois surgiu o projeto TXAI, que virou disco em 1991, quando me encontrei no Acre com os índios da Tribo Ashaninka”.

Txai é o nome dado para uma pessoa especial, quase uma alma gêmea. Este foi o primeiro trabalho de Milton que foi completamente sobre indígenas. O projeto reúne várias gravações feitas ao vivo no Acre, Rondônia e outros pontos da Amazônia. “Depois disso, a causa indígena sempre esteve presente na minha vida. Até que fui batizado em 2010, pelos índios Guarani Kaiowá do Mato Grosso Sul. Eles, inclusive, foram a principal inspiração para este show, ‘Semente da Terra’.”

“Tivemos vontade de falar sobre os índios Guarani-Kaiowá neste projeto, e estamos falando”, comenta, sobre a importância de se fazer um show voltado para a política nos dias de hoje. Questionado sobre o que pensa sobre a falta de posicionamento dos músicos da atualidade, Milton não vê como um problema.”Acho que cada artista deve fazer aquilo que lhe faz sentir melhor”. (Geledes, acesso em 12abr2018)

L.s.N.S.J.C.!


Nenhum comentário:

Postar um comentário

MANDA ver um comentário aí!