domingo, 29 de abril de 2018

IDE à luta!

O bodegueiro (arquivo pessoal)
DE VEZ em quando me lembro do Leal, o Leal Careca, figura ímpar que conheci quando era sargento novinho lá em Anápolis. Leal era um sargento já antigo de tempo, certamente mais de vinte anos de serviço. O colega, porém, não se enquadrava muito nos padrões rígidos de hierarquia e disciplina preconizados pelas Forças Armadas. Por essa razão não era bem visto pelos oficiais, chefes e comandantes de então, e sua ficha individual era repleta de punições disciplinares. Um mal exemplo, um exemplo de profissional que não devia ser seguido pela tropa.

Não obstante era um bom sujeito. Digo às vezes que é bem possível esperar mais solidariedade nos botecos e nas casas de prostituição que nas igrejas. 

Certa feita,  convidado por um religioso evangélico, Leal resolveu ir a um culto. Chegando lá, a certa hora, o pastor passou a pedir oração em favor de um irmão que estaria desempregado, sua família a passar necessidades. Então, a assembleia, sob liderança do pastor, pôs imediatamente em fervorosa oração, suplicando ao bom Deus que intercedesse em favor do irmão carente. Transgressor e irreverente como era, Leal, pedindo a palavra, alegou que as orações poderiam ficar para depois e que, agora, de imediato, o que todos tinham a fazer era uma coleta, uma vaquinha, e logo em seguida, arrecadado o montante financeiro, uma comissão iria ao supermercado e compraria alimentos, mantimentos básicos, que seriam doados ao irmão e sua família necessitada. Depois disso, sim, todos orariam para que o irmão conseguisse recuperar e dar assistência digna à família.

Leal enxergava bem além do que aqueles todos que lá estavam sob a liderança de outro. A fé sem obras é fé morta, já alertava São Tiago.

Ora, digo assim porque vejo muita gente religiosa apenas rezar e não agir. Ou pior, rezar, pregar uma coisa e, saindo da igreja, fazer outras. Tem cristão que deseja inclusive o mal aos outros, esquecendo-se do que disse seu líder, Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Deus me livre dessa gente! De pessoas assim o inferno deve estar cheio.

A coisa fica mais evidente hoje, em época de redes sociais. 

Ora, Jesus foi um transgressor. Ele não agia como um monge recolhido a quem todos acorriam em busca de palavras e conselhos sábios. Foi pessoalmente aonde estavam todos que precisavam.

Jesus, saindo de sua carpintaria em Nazaré, desinstalando-se,  foi ao encontro do povo oprimido em luta contra as injustiças. Itinerante, ensinou, curou, aconselhou, desafiou autoridades, contrariou preceitos sociais e legais, revolucionou. Seu ministério nos ensina que não devemos ficar só orando, rezando, nas igrejas, a fazer de conta que lá fora está tudo bem. É preciso ver, ouvir, sentir, agir. 

Há muitos líderes religiosos, católicos e evangélicos, sobretudo, que passam uma ideia incompleta do Evangelho e das palavras sagradas. Tais são ideias de alienação, conformismo, bem diferente do que praticou e ensinou o Senhor Jesus. Ensinou o Divino Mestre: "Os governantes da terra dominam e tiranizam, mas com vocês não deve ser assim". Também transgrediu a Lei, que na verdade servia apenas para oprimir e explorar os pobres, falando, entre tantas outras palavras, que "o sábado existia para servir para o homem e não o contrário". Com efeito, Deus não precisa descansar, e, conforme as Escrituras, descansou no sétimo dia, esse preceito é para que não haja exploração do homem pelo homem, deixando um dia da semana para o descanso.

Mais ainda: pacifista por excelência, não ficou inerte quando viu mercadores profanar o templo. Ao contrário, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os dali. Devemos lutar com todos os meios pelo que acreditamos.

As coisas estão assim não é porque Deus quer assim, como dizem tantos. Está assim porque há um sistema de dominação implantado e assimilado pela sociedade como sendo normal. Deus não quer os excluídos eternamente explorados. Quem quer assim é o homem. Ainda, Jesus também disse: "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância". Portanto, ainda agora neste mundo é preciso ter vida plena, vida com dignidade, respeito, oportunidades para todos.

Ser bom e manso, conforme mandou Jesus, não é aceitar tudo como está. Se eu aceito, estou sendo conivente com a injustiça, e não amando o meu irmão. Uma das formas de se fazer justiça é exercer de forma consciente a nossa cidadania, elegendo representantes realmente comprometidos com o povo.

Há muitos lobos por aí em pele de cordeiro. Cuidado! Cuidado com os falsos pastores, como avisou Nosso Senhor.

Vamos à luta, meus irmãos e companheiros! 

L.s.N.S.J.C.!

Alguns poderão dizer que política e religião não se misturam. Engano. O maior líder político e religioso foi um homem chamado Jesus de Nazaré. Tanto é verdade que foi condenado à morte por incomodar o sistema da época. 

Onde já se viu ajudar pobre, querer que um ame a outro, perdoar pecador, partilhar o pão?  Coisa de comunista!

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