sábado, 17 de março de 2018

ROTINA policial ou apenas racismo?



Arquivo pessoal
NAQUELA manhã resolvi sair para conhecer a cidade. Havia pouco tempo, dias, que tinha chegado. Por gostar e ter necessidade de fazer atividade física, deixei o carro na garagem, e me dispus a percorrer a cidade a pé. A atividade física é a melhor terapêutica para combater a diabetes, além disso, era preciso conhecer a cidade em que decidi morar e iniciar nova vida.

Uniria então o útil ao agradável.

Para forçar mais um pouco, atraquei nas pernas um par de caneleiras, daquelas que tem peso. Eram dois quilos adicionais, um em cada perna, que encobri com uma calça comprida. Óculos escuros para proteger do sol de verão escaldante da manhã, além de chapéu para fazer sombra na caixola. 

Para aumentar mais a carga, uma mochila às costas que também continha uma garrafinha com água para hidratar e aliviar a sede do caminho.

Pus-me a caminho.

Fui no sentido sul - norte da cidade. Passei pelo centro e depois caminhei no sentido noroeste, sem roteiro pré-definido. Ia pensando na vida, política, esporte, casa, rádio. Ouvi no noticiário matinal que na véspera ocorrera um assalto a uma agência lotérica. 

A caneleira, me parecia, não estava bem fixada. Por duas vezes, me abaixei para ajeitá-la. Foi na segunda vez que ouvi, de repente, uma voz: 

"Mãos pra cima!". 

Não tive tempo de pensar muito. Logo vi que era um policial militar, um tenente. Talvez nem estivesse de serviço, embora fardado. Digo isso porque o jovem oficial estava dirigindo um Monza, provavelmente seu automóvel particular. 

Com uma pistola na mão, a outra pôs a verificar o interior da minha mochila. Antes disso, foi direto nas caneleiras e, talvez surpreso, viu que realmente eram caneleiras de atividade física.

"A minha identidade está aí na mochila, tenente."

Mas o policial não se importou com isso e nem fez caso de identidade. A essa altura, além da água, não encontrando mais nada -- nem arma, nem dinheiro, nem droga --, estava já, embora a contra gosto, convencido de que o indivíduo negro e de barba ali era "apenas" um cidadão. Ainda bem, pensei depois, pois era ele ver a identidade azul que sempre carregava comigo e, talvez com raiva, jogá-la fora e, aí, a minha sorte poderia ser outra. Já vi muita história igual a essa, de polícia abordar militar das Forças Armadas e, a fim de cometer abuso de autoridade, livrá-lo do cartão de identidade. 

Terminou seu trabalho.

"Bom trabalho, policial!"

O tenente Marcos não me deu resposta e pegou novamente a direção do Monza, seguindo seu destino. Pensei sobre a possibilidade de racismo, embora todas as minhas características contribuíssem para o engano.


L.s.N.S.J.C.! 

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