quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A PRECARIZAÇÃO das relações de trabalho e outras mazelas que tentam nos empurrar goela abaixo!

QUANDO residia em Manaus, travei conhecimento da existência de um empresário conhecido por Baiano, proprietário de uma frota de táxi, não sei dizer se trinta, quarenta ou mais. Quem me contava sobre ele  era o sr. Melo, um servidor público do então Ministério da Aeronáutica, colega de sala,  já ido nos seus cinquenta e tantos anos. 

Paulo Freire (fonte: Internet)


Baiano teria iniciado a vida profissional como motorista de táxi, daí, com o tempo, comprado mais um veículo, mais tarde outro, para, ao longo de trinta ou mais anos, tornar-se dono de tantos carros. Isso foi lá pela década de 1980, em plena recessão econômica. Sua fama e popularidade, no entanto, não era boa entre os taxistas da cidade. 

Não é tão simples viver da profissão. Não basta ter um automóvel e sair dirigindo por aí apanhando passageiros. O número de permissões exaradas pela prefeitura é limitado, daí o candidato a taxista, não tendo dinheiro suficiente para comprar de terceiros uma licença de táxi, deve sujeitar-se a dirigir em forma de aluguel, pagando a diária estabelecida pelo dono do veículo. Estes dirigiam os carros de propriedade do Baiano, que lhes exigia os olhos da cara como diária. Tinham de virar bicho, rodando pela cidade de dia e de noite, inclusive aos sábados, domingos e feriados, quando o preço da corrida fica mais elevado, a chamada bandeira dois.

A grita era alta, de forma que o Serviço de Proteção ao Consumidor teve que agir em defesa dos humildes taxistas manauaras que vinham sendo explorados pelo empresário.

Relembrando esse episódio de trinta e tantos anos atrás para introduzir um outro.

O blogueiro estava na ante-sala do dentista e, como nada tinha a fazer, deteve-se assistindo a um programa de televisão. Costumo selecionar o que vejo, mas aí não havia outra coisa senão, passivamente, aceitar o que o aparelho me oferecia.

A matéria falava sobre empreendedores individuais, desses que perdem emprego e, sem opção, acabam por decidir montar um negócio pequeno. No caso, o negócio, que era vender hambúrgueres artesanais, funcionava na própria casa. Mostravam o sucesso, o êxito de pessoas ousadas, de iniciativa, dessas que não se conformam com a passividade e a crise. Vão à luta.

Até aí, tudo bem.

De fato, há pessoas que, sem opção de emprego formal, acabam por descobrir um nicho de mercado vindo a prosperar,  ganhar dinheiro, ascender socialmente, ter muitos empregados e tudo o mais. Resumindo: ficam ricos!

O que está errado aí?

Essa rede de televisão querer convencer o povo brasileiro de que o caminho tem que ser esse aí. Ora, nem precisa sacar muito de Matemática para saber que não há lugar para todos no ramo dos negócios, das vendas, do empreendedorismo. Não há consumidor para todos.

Lembrando do caso Baiano, pego os táxis como exemplo.

Alguém, por opção ou por falta de emprego mesmo, com algum esforço talvez consegue um táxi para dirigir. Legal! Sem patrão, sem ordens de cima, sem horário rígido para cumprir. Basta conhecer bem a cidade e pegar passageiro aqui e deixar ali, e assim vai. No início dirige de aluguel, mais tarde -- sempre com algum ou muito esforço e bastante economia -- passa a conduzir seu próprio táxi, aproveitando taxas menos ferozes, embora a especulação que existe no ramo quanto às permissões. 

Todavia, por mais que lute e economize horrores, tendo esposa e filhos para sustentar, vestir e educar, não conseguirá muita coisa e, é provável, que ao final de trinta ou quarenta anos, ainda seja taxista, quando muito com dois táxis. Seus filhos, vendo a profissão do pai, se não estimulados a estudarem, tenderão a também se ocuparem como taxista. As exceções são poucas.

Nada contra a profissão, pois cito o caso apenas como exemplo. Mas, ainda no exemplo exposto, o taxista ignora (ou finge não ver) os riscos de uma profissão das ruas, exposto à violência urbana. Se adoecer, nenhuma renda nesse período. É torcer e cuidar para a saúde não falhar. 

De um grupo de cem ou, em hipótese melhor, cinquenta taxistas, é possível que um ou dois venham a prosperar e, ao final de dez, vinte anos, venha a ser proprietário de uma frota de táxis, alocando-os a outros condutores. Isso será uma exceção, não a regra. A regra é iniciar-se numa profissão e continuar nela ao resto de sua vida.

No caso dos vendedores de hambúrgueres, outros tentarão seguir o mesmo empreendimento mas não terão a mesma sorte.

Quem inicia dirigindo um táxi, sonha ser proprietário de uma grande frota para, a exemplo de Baiano, então explorar outros que se iniciam nessa vida. Quem começa vendendo hambúrguer, deseja prosperar e tornar-se dono de uma rede de lanchonetes, e aí sim ter sob sua direção dezenas de empregados, ainda que mal remunerados. Idem em relação às lojas de confecções, mercearias ou mercadinhos, botecos,  e assim por diante. "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor", conforme sentenciava Paulo Freire.


Fonte: Internet


Mas de tantos, somente uns poucos conseguirão. É a lei do mercado, e nem se precisa entender de Economia para saber disso.

Por trás de uma inocente matéria televisa, a emissora procura passar uma mensagem: crises e desempregos podem ser vencidos com iniciativas, negócios próprios, vendas, serviços, coisas assim.


Aí você é demitido do emprego. Depois de procurar outra ocupação, ou não encontra ou o salário é muito aquém daquele que recebia anteriormente, então decide instalar uma mercearia (outro exemplo, pode ser outro negócio qualquer), aplicando a indenização trabalhista recebida, investe em equipamentos, locação de imóvel, alvarás e licenças, estoque e tudo o mais, você gasta a grana que tem e, sendo insuficiente, a que não tem, pedindo dinheiro emprestado a bancos e parentes. No final, corre sério risco de ver que o que entra não supera o dinheiro investido. Se der certo, tudo bem, mas isso é uma exceção, não a regra.

A emissora tem lado político, que é os partidos políticos que defendem seus interesses, ou seja, o interesse político e econômico dos ricos, da elite deste país. Globo, Band, Estadão, Folha e outros sempre vão atrás dos vencedores, daqueles que se deram bem. É uma forma de dizer: "Olha, você não venceu na vida porque não teve iniciativa, acomodou-se". A grande mídia não se interessa mostrar a maioria, os que perderam, endividaram-se, ficaram em situação pior do que antes, porque isso seria dar um tiro no próprio pé e do governo atual que ela apoia. 


Leia também:

https://renatorabelo.blog.br/2018/02/24/trabalhador-sem-carteira-ganha-44-a-menos-que-empregado-formal/


Por trás disso, está a precarização trabalhista, proposta pelo Governo Federal e aprovada pelo Congresso recentemente. Outras "reformas" estão aí para serem impostas ao povo brasileiro. 

A questão do Ensino Médio é uma delas. O povo vem sendo doutrinado diariamente pelas grandes redes de comunicação -- tevê, rádio, mídia impressa e internet -- a aceitar que a tal reforma de ensino será uma boa para a nossa gente. Dos filhos de pobre o sistema formará  técnicos para, uma vez técnicos e operários, se acomodarem nesse estágio, deixando as vagas nos cursos universitários para os filhos de pessoas mais abastadas. 

Sabe-se que, uma vez acomodado a uma determinada situação, o cidadão, já por ser chefe de família, filhos para criar, sair cedo de casa e chegar tarde, vicissitudes tais não permitem que volte aos bancos escolares a fim de deslumbrar ascensão social. Nasceu tatu, morreu cavando, como dizia Eloy Santos, um radialista paraense.

Essa forma elitista e discriminatória de pensar difere do que vem sendo praticado a partir do ano de 2003, quando foram promovidas políticas de ensino inclusivas, que permitiram ao filho do porteiro, da empregada doméstica, do taxista, do operário, estudar ao lado da filha do médico, do juiz, do professor universitário, do engenheiro, do gerente de banco. Outras políticas inclusivas também foram promovidas, gerando qualidade de vida e, sobretudo, esperanças a uma camada da população brasileira que sempre foi lembrada somente na hora do voto. Mas essa esperança, ao que parece, está com os dias contados.

No mesmo diapasão vieram novas leis trabalhistas, que mutilaram os direitos dos trabalhadores brasileiros duramente conquistados no decorrer de décadas com muito sangue, suor e lágrimas. Igualmente tentam nos impor a tal "deforma" previdenciária, que imporá ao trabalhador brasileiro mais tempo de trabalho e menor provento, isso se sobreviver até lá. 

É necessário que o povo brasileiro acorde, deixe de lado as fantasias das telenovelas; saibam que o dono da rede de televisão (e outros) não está nem aí para o povo, a não ser interessado em sua audiência porque isso rende mais dinheiro, muito dinheiro, e também a influenciar o seu voto. 

Acorda, minha gente!  



Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

3 comentários:

  1. Concordo, sou trabalhador do setor da construção naval, vejo no ambiente de trabalho tanta injustiça,descaso que faz com que eu faça uma reflexão se realmente é necessário passar por tudo isso de forma tão humilhante.

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  2. Seu blog estar fazendo colaborando com certas mudanças em minhas opiniões esta substituindo pensamentos que não tinha coerência com a realidade.

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    1. Obrigado, meu amigo, por seus comentários.
      Tomara um dia a sociedade brasileira tome finalmente consciência de todas essas coisas que o sistema (mega empresariado, mídias poderosas...) vem fazendo em relação ao trabalhador brasileiro.

      Parabéns pela mudança de pensamento.

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