sábado, 13 de janeiro de 2018

ELIAS Ribeiro Pinto!

Sim, eu tenho fixo!





PARA o Kil Abreu, que acaba de se queixar do inferno das ligações para o fixo, reproduzo crônica que escrevi em maio do ano passado.


Houve um tempo em que tê-lo era sinal de status. E de nome e papel passado, como proprietário, mais raro ainda.

Em geral, você o alugava de quem possuía duas ou mais linhas. O custo do aluguel costumava superar o da conta mensal. Afinal, para evitar que a soma dessas despesas gerasse um valor astronômico, era preciso usá-lo a conta-gotas, quase apenas em caso de urgência.

Claro, estou falando do telefone. Mais conhecido, atualmente, como “telefone fixo”. E hoje voltou a ser tão incomum tê-lo quanto o era naquele passado nem tão distante.

Só lembramos de sua existência quando ele toca num canto perdido da sala, sua localização indicada pela poeira que dele se eleva, sacudida pelo chamado. E quando o atendemos, é o passado – e agora, bem distante – que nos responde, na voz jovial e vibrante de Moacyr Franco. Moacyr Franco?! E com uma voz que nos reconecta aos anos 1960? Vejamos. O Jerry? Já foi. O Belchior? Já foi. O Almir Guineto? Já foi. O Cauby! Ora, o Cauby. Já foi. A Vanusa? Bem, a Vanusa é imortal.

Mas o Moacyr vive! Afinal, ele é contemporâneo do telefone (fixo). Fiquei tão emocionado em ouvi-lo que não atinei sobre o que ele me dizia. Algo a ver com um remédio, uma vitamina. Ômega 3? Agradeci sua preocupação com a minha saúde, mas recusei a oferta. Só depois de ter desligado pensei que podia ter pedido uma palinha da música dedicada ao Garrincha: “Sua ilusão entra em campo no estádio vazio...”. Mas valeu. Moacyr Franco, afinal, não morreu (deve ter parentesco com o Elvis).

A bem da verdade, depois de um silêncio sepulcral, o telefone fixo, nos últimos tempos, voltou a chamar freneticamente. Não respeita nem o horário sagrado dos beatlemaníacos. Digo, da sesta. Da aurora à conversa do Bial, ele agora segue num ritmo alucinante, quase histérico, esquizofrênico. E até no final de semana.

Mas quando se atende, com a esperança de que aquele antigo amor resolveu testar os números de sua matusalêmica agenda, ou é a resposta à solicitação de emprego encaminhada ainda no tempo do Plano Cruzado, o que se ouve é o... silêncio. Ninguém lhe responde do outro lado. Será o fantasma de Platão? Ou da d. Marisa?

Quando não, é uma voz monocórdia, entediada, a perguntar se fulano de tal “mora na residência”. Aliás, fora o telemarketing, ninguém mais liga para o fixo. Só o além, o vazio, é que tenta se comunicar. Ou aquele parente distante, aquela pessoa, que recorre a você em vez de procurar o CVV. Mas com o bina já é possível escapar dos chatos de plantão.

Nos últimos dias, porém, é um número estranhíssimo que tem aparecido no visor do aparelho. Juro que visualizei este: “1111111111”. Começo a t(r)emer que o próximo seja o “666”, que vocês sabem a quem pertence.

No início da semana, parte do mistério foi solucionada. As ligações que não se completam são do suspeito de sempre, o telemarketing, que programa discagens automáticas definidas por um mailing. No entanto, para seu azar (ou sorte), nem sempre há operadoras disponíveis para lhe atender (ou atormentar) quando o seu número é acionado. E a ligação cai. Abuso é pouco.

Ainda assim, acho que tem alguém do lado de lá tentando se comunicar. E não é só o Moacyr Franco. Que tal criar uma associação “Eu tenho fixo”? (Elias Ribeiro Pinto, via Facebook)

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