sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CÁSSIO de Andrade!

O livreiro e o poeta entre letras, bancos e baionetas



NO RASTRO do regime militar instalado em 1964, duas expressivas personagens, a despeito de suas diferenças ideológicas, traçaram o caminho da resistência e da mediação frente ao regime discricionário no Pará: o poeta Raimundo Alonso Rocha e o jornalista e livreiro Raimundo Jinkings. O poeta e o livreiro trilharam em experiências e tradições diversas a história comum das letras, dos bancos e das baionetas, sob o signo de um passado de diferenças. 

No âmbito de uma conjuntura econômica e política de modernização forçada, em especial na Amazônia, o retraimento das lutas bancárias e da liberdade sindical se fez visível. Elementos novos se apresentaram no estofo da mediação que as lideranças sindicais bancárias passaram a conduzir com o Capital e o Estado, nas atuações de base e negociais. Durante e após a intervenção militar no movimento sindical bancário paraense, uma específica prática sindical foi assumida por suas lideranças hegemônicas, pelas diversas formas de articulações e confrontos com as políticas nacionais para o setor bancário, nos devidos limites permitidos aos percalços da mediação sindical.

Esta prática sindical refletia a síntese da luta social dos bancários, no contexto histórico peculiar à reinvenção de tradições de lutas, reelaboradas pela mediação. Suas lideranças conduziram junto aos bancos e às baionetas formas específicas de mediação, criando as condições necessárias para a eclosão de táticas e estratégias marcadas por permanências, negociações e conflitos. Nesse espaço de negociações e conflitos, o poeta Alonso Rocha e o jornalista Raimundo Jinkings expressaram os principais grupos hegemônicos no interior do movimento bancário paraense e contribuíram para o devir sindical bancário da resistência e da mediação. 

Raimundo Alonso Pinheiro Rocha, ou Alonso Rocha foi um autêntico representante dos denominados grupos dos “Independentes”. Desde o V Congresso Nacional dos Bancários, em 1954, dedicou-se ao movimento sindical, atuando junto à direção do Sindicato dos Bancários do Pará dirigindo a Federação dos Bancários e Securitários do Norte e Nordeste, representando-a na Confederação Nacional. Fundou a Federação e participou da criação da CONTEC. Foi em Belém um dos organizadores e fundadores do Centro Paraense de Desportos dos Bancários, em 1959, chegando a comandar delegações locais em eventos nacionais do desporto bancário. De 1954 a 1976, foi delegado do Pará em quase todos os Congressos Bancários e Convenções Nacionais de Bancários e Securitários além de intensa participação na organização de encontros sindicais locais durante o regime militar. 

Em todos os eventos, Alonso Rocha foi ocupando posição de destaque, eleito em assembleias ou indicado pelas diretorias do sindicato bancário. Era dotado de profundo conhecimento do movimento sindical, aliando essa habilidade à postura moderada e pragmática, com talento à eloquência, em destaque à verve poética. Defendia a independência dos sindicatos em relação aos partidos políticos, em torno do discurso que procurava relacionar a combatividade corporativa com a tolerância ao espírito democrático em conviver com as diferenças. Junto com outros bancários independentes foi responsável pela sustentação de uma postura ética com as lideranças comunistas da época, mesmo em momentos tão difíceis para a vida sindical local, sem abrir mão de suas convicções independentes, por isso mesmo respeitada entre seus opositores. 

Alonso Rocha recebeu vários prêmios e consagrações como poeta. Após sua aposentadoria do Bank of London, em 1980, dedicou-se exclusivamente à vida literária, abandonando a militância sindical. Foi membro perpétuo e presidente da Academia Paraense de Letras, recebendo o título de Príncipe dos Poetas entre seus pares, em 1987, título este que o acompanhou até seu falecimento em 2011.

Raimundo Jinkings foi a maior expressão dos comunistas no movimento sindical bancário e no movimento sindical como um todo, no Pará. Entrou no BASA em 1951, onde iniciou sua militância política e sindical. Sofreu perseguições políticas dos grupos conservadores locais, sendo obrigado a atuar no Maranhão por conta disso entre 1955 e 1961. Ao retornar ao Pará, participou de intensa atividade sindical, em torno das posições assumidas nacionalmente pelo PCB, principalmente a defesa da luta pela unidade das forças democráticas e do pacto sindical-camponês, atraindo para si a oposição das elites conservadoras e rurais da época. 

Junto a Cléo Bernardo, Rui Barata e Eidorfe Moreira, Jinkings contribuiu para a fundação do Partido Socialista Brasileiro– PSB no Pará. Participou do Comando Geral dos Trabalhadores – CGT em 1961, como representante do Sindicato dos Bancários do Pará. Foi também militante político no movimento dos jornalistas e a partir de 1963, atuou com Benedito Monteiro na tentativa de organizar os sindicatos de trabalhadores rurais na luta pela Reforma Agrária, sofrendo por isso intensa perseguição política e policial após 1964, junto com outros militantes do PCB. Após a Abertura democrática, anistiado, manteve sua atuação entre os comunistas, desenvolvendo também intensa atividade de livreiro até seu falecimento 1995.

A descrição de traços de tão distintas biografias evidencia a importância que comunistas e independentes assumiam no devir sindical bancário. Indica também elementos para se compreender as razões que possibilitaram à hegemonia destes últimos no Sindicato dos Bancários do Pará até a consolidação do Estado discricionário no país. No uso de suas diferentes estratégias construíram processos sociais diversos nas relações com o capital e o Estado, reveladoras de conflitos e tensões. No que pontuavam negociar, construíram relações negociadas, mas nas tensões com as bases, atuavam nas tênues fronteiras do conflito.

Entre o ativismo clandestino de base de Jinkings e as negociações acordadas de Alonso construíram o livreiro e o poeta um enredo de representações nas quais se constituíram como atores sociais e sujeitos de sua própria história. Em histórias entrecortadas e cruzadas por caminhos diversos, entre a institucionalidade e a recorrência a direitos, teceram os fios de sua condição militante e bancária sob lógicas próprias, mas por interesses comuns em suas experiências. O tornar-se bancário os articulou e nesse construto mediaram identidades nas lembranças rememoradas das letras e nas ações partilhadas que as experiências e tradições amalgamaram em seu fazer-se. Trouxeram ao mundo das letras, nos livros e na poesia, os riscos e as aventuras das incertezas entre bancos, espadas, letras e baionetas.

(O Texto, aqui editado, foi publicado no Diário do Pará em agosto de 2014 na semana de comemoração de aniversário de 32 anos do jornal)

Cássio de Andrade, via Facebook

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