quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

ANTÓNIO Nóvoa!

Uma escola que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo


MUITO discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil.


Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores.

Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo”, resume.

Carta Educação: O senhor cobra uma maior participação da sociedade na educação tendo, inclusive, formulado o conceito de espaço público da educação. Como vê esse cenário de sinergia no Brasil?


António Nóvoa: Nós temos um discurso muito gongórico, excessivo sobre a importância da educação, quando as condições básicas não estão sequer asseguradas. Portanto, a primeira coisa que a sociedade brasileira precisa fazer coletivamente, independentemente de partidos e políticos, é garantir essas condições básicas de funcionamento para as escolas, que incluem as condições para o exercício do trabalho dos professores. Se não fizer isso, todo o resto é conversa, coisas para ilustrar a mídia, mas que não têm nenhum impacto. Não conseguimos mudar a educação se isso não for um desígnio coletivo da sociedade. Não pode ser um problema dos professores ou dos pais ou dos pedagogos ou do partido A ou do partido B. No Brasil, vejo que há muita conversa, muito discurso, mas pouco compromisso concreto com a educação pública brasileira. Há pouca indignação e, se eu fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação pública.

CE: Essa falta de indignação não está relacionada ao fato das classes mais abastadas no Brasil matricularem seus filhos na escola privada, isto é, da educação pública ser um “problema” das classes mais pobres?

AN: Com certeza. Para quem vem de fora e olha para o Brasil, esse continua a ser o problema maior, o da desigualdade. É um raciocínio de vistas estreitas, de quem não percebe que não resolvemos nossos problemas se não resolvermos o problema dos outros. E as elites brasileiras são muito separadas do compromisso social. Fazem umas coisinhas filantrópicas para se justificarem, para fazerem de conta, mas não têm compromisso social nenhum. Enquanto não houver uma consciência coletiva de que o problema é de todos, o Brasil não avançará do ponto de vista da educação pública. Em Portugal, desde a revolução de 74, houve uma espécie de compromisso do país com a escola pública. Demorou 40 anos para isso acontecer, mas hoje estamos nos indicadores educacionais acima de países que investiram em educação quando éramos o último da Europa. Vejamos o Pisa, por exemplo, que é um indicador que eu não gosto muito, mas que serve para ilustrar. O Pisa tem dois indicadores: um do qual se fala muito que é classificação dos países, o ranking de qualidade, e outro do qual não se fala quase nada, que é o indicador de equidade, isto é, os países que possuem menos desigualdades educacionais. Portugal vai bem no ranking da classificação, mas, sobretudo, vai melhor no ranking da equidade. E é isso que torna um país melhor. Enquanto continuar cada um tratando de si, da escola dos seus filhos, dos seus problemas, o Brasil estará caminhando para um precipício.

CE: O senhor diz que o papel do professor é ajudar o aluno a transformar informação em conhecimento e que o bom profissional é aquele capaz de conseguir com que, no fim, o aluno goste daquilo que não gostava. Como formar o docente para esses papéis?

AN: Há um escritor português, Gonçalo M. Tavares, um dos mais brilhantes da nova geração, que utiliza uma metáfora muito interessante: “nós somos as imagens que temos”. O que isso quer dizer? Tudo aquilo que vemos na vida compõe o que somos. Vou explicar de outra maneira. Ontem, estava aqui em São Paulo e liguei a televisão. Mudando de canais, vi aquelas imagens, músicas, telejornais horríveis e pensei que ninguém pode se educar se sua vida é aquilo, aquele imaginário paupérrimo. Os professores precisam alargar o seu repertório cultural, terem contato com mais realidades para serem capazes de passar isso para os seus alunos. Ninguém pode gostar daquilo que não conhece. Se eu não fizer um esforço para conhecer as regras do xadrez, eu não posso gostar de xadrez. Uma pessoa que não lê muito, que para ler um texto fica quase a juntar as letras, dificilmente gostará de leitura. Enquanto as crianças tiverem as imagens diárias que têm será muito difícil subir o nível da educação. E isso é verdade para professores e para crianças. Só se pode gostar depois de se conhecer muito. As crianças fazem isso com os jogos de informática: treinam muito até ganharem proficiência e, a partir desse momento, começam a ter prazer. É preciso fazer a mesma coisa com leitura, matemática, história e biologia. E esse é o trabalho do professor. Agora, para que o professor faça esse trabalho, ele próprio precisa alargar o seu repertório de imagens.

CE: Esse parece ser um caminho individual de aperfeiçoamento. Mas no campo da qualificação formal, o que as universidades poderiam fazer? O senhor já propôs um esquema semelhante à residência médica para que os docentes aprendessem a ensinar com outros mais experientes.

AN: Primeiramente, é preciso ter um lugar para formar os professores nas universidades de forma unificada. Estou a dar apoio ao reitor da UFRJ, no Rio de Janeiro, para tentar construir uma coisa que ele designa de “complexo de formação de professores”, um lugar onde o professor terá sua formação completa. Sobre o esquema de residência, na formação médica na Universidade de Harvard, por exemplo, nos primeiros dias do curso, há uma cerimônia na qual os médicos dos hospitais trazem jalecos e vestem os jovens estudantes de medicina. Quando fazem isso estão a dizer “a tua formação agora é de nossa responsabilidade, nós agora vamos te conduzir pelos caminhos da profissão”. E isso vai ajudando a criar uma rotina, um saber profissional que não é apenas da prática, é um conhecimento que vai sendo construído na relação entre profissionais mais experientes e jovens estudantes. É isso que é preciso na formação do professor, que os jovens das licenciaturas tenham contato com os professores mais antigos, mais experientes, com professores das faculdades, das universidades. O ideal seria que quando acabassem a licenciatura fossem para as escolas acompanhados, em uma espécie de residência docente para que, progressivamente, fossem adquirindo a autonomia profissional.

CE: Qual sua opinião sobre a reforma curricular que foi feita no Ensino Médio no Brasil que inclui o agrupamento por áreas do conhecimento, maior foco no ensino técnico, permissão para que pessoas com “notório saber” possam dar aulas, entre outros pontos?

AN: O mundo inteiro é um cemitério de reformas; reformas curriculares então nem se fala. É muito fácil fazê-las, o mais difícil é aquilo que falamos no princípio: dar as coisas básicas e simples, as condições de funcionamento para escolas, professores. Isso dito, o Ensino Médio foi um problema no mundo todo 20 anos atrás, período em que os países passaram a educação obrigatória para o final da etapa. Nesse sentido, o Brasil está bastante defasado. No que diz respeito à diminuição do currículo, sou sensível ao argumento. Acho que as escolas têm muitas coisas para ensinar. Desde o século XIX, ninguém tirou nada da escola, só meteu mais conteúdo. Sou também sensível a um segundo ponto que está na retórica da reforma que é a ideia dos percursos formativos. São argumentos importantes no sentido de tornar mais coerente o currículo e, por outro lado, permitir uma certa diferenciação da trajetória de cada. O problema dessas duas retóricas é que elas conduzem para três coisas que não estou de acordo e que, para mim, são as coisas que estão a acontecer no Brasil.

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