quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AMANHÃ os pássaros cantarão!





Luzes da Cidade



HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas e nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, com sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas de cinema.

Charlie (um hipocorístico de Charles, que ele costumava usar e pelo qual era mais conhecido) fez de quase tudo no cinema. Foi escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs música, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica “Luzes da Cidade“, de 1931, mais uma obra imortal do genial Chaplin. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que há quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entrava na era do cinema falado. Não obstante, o filme foi um campeão de bilheterias.

Sim. Porque há obras de arte que precisam e merecem ser vistas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam; por tais motivos merecem ser apreciadas pela vida inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, a poesia e o sonho, como que em mágica, se reapresentam, revelando-se cada vez de uma faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil .

São clássicos e os clássicos não morrem jamais.

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, por não ter onde morar, vagueia pela cidade, dormindo em qualquer lugar e comendo do que conseguir. Numa tarde uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela, e, por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, acaba se passando por um homem de classe social abastada. À noite, ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, um magnata, que lhe oferece eterna amizade. “Amigos para sempre”, diz o agradecido, ébrio, infeliz e desmemoriado ricaço. O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa, leva o Vagabundo para casa, e de lá, após condignamente trajados, para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes ricos, acaba por protagonizar várias trapalhadas, além de transgredir as regras.


Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o poderoso não o reconhece, mandando que seu mordomo expulse Carlitos da casa: “Quem é esse aí, que eu não conheço?”

Há muitas pessoas volúveis. O ser humano se comporta em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as variações de humor. No caso, a ingestão do álcool provoca sensíveis mudanças de comportamento nas pessoas.

Sabe-se que há indivíduos que, uma vez em estado de embriaguez, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, em vez de seguros e econômicos; se são mesquinhos, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos quando sóbrios. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Aí, sim, desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, some o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros, relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, que foram convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, além de fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, podendo passar a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que as diferenças não existem. A partir daí, deixam de representar obstáculos as muralhas da etnia, da religião, da convicção política, da classe social.

No caso apresentado por Chaplin em “Luzes da Cidade” existe uma enorme disparidade sócio-econômica entre o magnata e o vagabundo. Este nada tem, enquanto àquele de material nada falta: possui casa de luxo, tem empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social, títulos, além de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que o vil metal não pode comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar. Ainda assim — também por influência da bebida –, um tenta tirar sua própria vida, ao passo que o outro o salva, e salva sem exigir nenhuma condição ou pagamento, malgrado seja um necessitado.

O homem, possuindo tudo de material, é incapaz de ter aquilo que o dinheiro não pode comprar, qual seja, um amor sincero, a amizade verdadeira, a paz de espírito e o conforto espiritual. Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin criou um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o vagabundo, ele, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, praticando o verdadeiro amor cristão, embora não se saiba ser religioso. E, para ele, a vida é importante, reconhecendo no outro alguém um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. “Amanhã os pássaros cantarão!”, isto é, não se mate, meu irmão, porque vale a pena viver.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, doa o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. Enquanto isso, ele é preso e passa muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais manda que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado…

Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre, embora constituída de homens poderosos.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

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