sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A HORA do mais fraco!



JAMAIS esqueci certa tarde quando, num estádio de futebol, um grupo de jovens não autorizados adentrou de repente o campo de jogo. Não lembro a que pretexto. Imediatamente, alguns policiais se puseram a correr atrás dos invasores a fim de retirá-los do gramado.

Chovia. Chovia forte.

Um deles me chamou a atenção pois estava a perseguir um dos rapazes, que, mais jovem que seu perseguidor, era veloz e ágil, e, quando estava por ser alcançado, se livrava o guarda com destreza, dando guizas para lá e para cá. Se alcançado, era bem possível que sofresse violência, levando uns pescoções ou pontapés no traseiro, além de ser recolhido ao xadrez do estádio.

Foi quando o milico, em razão da chuva, escorregou e caiu de bunda espetacularmente na grama lisa. Diante da cena inusitada e não se contendo, o estádio inteiro caiu em sonora gargalhada, e em seguida aplicou à vítima uma tremenda vaia.

O polícia não se machucou, mas com certeza a humilhação pública sofrida lhe doeu deveras e deve lembrar até hoje do triste episódio.

Cena semelhante encontrei num clássico de Chaplin. A diferença que, em vez de escorregar e cair no chão, o policial leva de Carlitos um pontapé nos glúteos. A cena, protagonizada pelo genial vagabundo, gera ato um efeito bastante cômico, ocasionando gostosas gargalhadas por parte do público.

Do estádio para as telas; destas para as páginas de um livro.

Machado de Assis tem uma maneira mui peculiar de narrar.

Relendo o conto “Pobre Cardeal“, vejo que Machado é uma espécie de narrador apresentador. Nessa obra ele introduz ao leitor um segundo narrador — Martins Netto, o homem mais alegre do século –, que, por sua vez, conta um caso narrado por um terceiro (o capitão José Leandro).

Pois bem! O caso, narrado a Martins Netto pelo capitão José Leandro, quando este ainda era menino, se passa na época de El-rei. O protagonista é João da Cruz, um pobre-diabo, que, vivia de pequenos golpes. É o que se infere da leitura. Então, alegando luto pelo falecimento de um núncio de quem se dizia muito amigo, consegue de um general português — portanto, um poderoso — que este lhe lhe presenteie roupas novas, sapatos e chapéu, enxoval condigno com a sua presença nas exéquias do importante religioso recém-falecido, em vez de seus trapos velhos e sujos. Elegante, na verdade, o anti-herói aplica uma senhora mentira ao general, porquanto, quando muito tenha falado ao núncio (de forma absolutamente casual) uma ou duas vezes. Jamais fora do religioso um protegido, muito menos amigo íntimo.

João da Cruz em toda a sua vida usa desses expedientes, pelo que se depreende, dando suas caneladas aqui e ali; vai assim sobrevivendo. Não por acaso vê-se agora — já na época de Pedro II — enrolado num processo criminal (letras falsas). Não à toas que (retoma a narrativa Martins Netto) em 1851 encontra-se o malandro na condição de réu em julgamento pelo crime de falsificação. Reunidos os membros do conselho de sentença, cabe ao narrador o voto de minerva. Ora, exatamente em razão dessa fraude, que ocorrera trinta e quatro anos antes (1817), João acaba por ser absolvido com o voto de Martins Netto. A razão? Ter empulhado o general, homem rico e importante, uma autoridade pública.

Foi esse pequeno golpe que rendeu a ele — ainda que não tivesse a mínima noção disso — a absolvição. Ganhou a liberdade, ainda que o júri não tivesse convicção de sua inocência, por ter empulhado um general.

Tivesse ele, no passado, logrado um cidadão comum, certamente nesta segunda ocasião teria sido condenado. Martins Netto, embora fosse considerado o homem mais alegre do século, confessa trazer essa ponta de melancolia; uma pitada de remorso. Tudo indica que o malandro fosse culpado na questão das letras falsas, razão pela qual foi parar nas barras do tribunal. O malandro, ao que tudo indica, evoluiu na carreira. É o que dá a entender o trecho “De quando em quando tomava rapé; reparei logo que a boceta era de ouro.” Mas Martins Netto não fez caso, pois só lembrava da empulhação de 1817, e isso era o que valia.

No final, retomando a narrativa inicial, o narrador-personagem, amigo íntimo de Martins Neto, como que a lhe consolar diz que “tudo são mistérios indecifráveis”, ainda que “os fatos e os tempos ligam-se por fios invisíveis. Suponha que o João da Cruz não tem empulhado o general em 1817, não teria sido absolvido pelo seu voto em 1851, você não teria uma ponta de remorso, nem eu este conto.”

Durante algum tempo me peguei a sorrir ou mesmo dar risadas discretas ao imaginar a cena do pobre-diabo João da Cruz engambelando o general, que, crendo no luto sincero do mentiroso, acabou por lhe franquear alfaiate, sapateiro e chapelaria.

Sobre a partida de futebol, não me perguntem qual foi o resultado. Não lembro e isso não interessa. O que cabe aqui é o fundo moral. O que há em comum nesses três episódios, um real; os outros dois, fictícios? Por que as três situações provocam risos?

Exatamente por terem sido vítimas a parte mais forte, os três personagens — o policial do estádio, o do filme e o general do conto — representam o Estado opressor, a autoridade, contra elementos do povo, representado aí pelo jovem do estádio, o vagabundo do cinema e o pobre-diabo de 1817, que, ainda que momentaneamente vencem o mais forte. E o povo, mesmo que eventual, se vinga do poderoso pelo escárnio, anônimo ou coletivo, contra o qual a autoridade nada pode fazer.

Os episódios representam uma das múltiplas facetas do comportamento humano: simpatizar com o mais fraco, ainda que por um minuto ao menos. Depois é tocar a vida, dura como ela é.

Pobre cardeal!

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