quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AMANHÃ os pássaros cantarão!





Luzes da Cidade



HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas e nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, com sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas de cinema.

Charlie (um hipocorístico de Charles, que ele costumava usar e pelo qual era mais conhecido) fez de quase tudo no cinema. Foi escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs música, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica “Luzes da Cidade“, de 1931, mais uma obra imortal do genial Chaplin. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que há quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entrava na era do cinema falado. Não obstante, o filme foi um campeão de bilheterias.

Sim. Porque há obras de arte que precisam e merecem ser vistas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam; por tais motivos merecem ser apreciadas pela vida inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, a poesia e o sonho, como que em mágica, se reapresentam, revelando-se cada vez de uma faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil .

São clássicos e os clássicos não morrem jamais.

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, por não ter onde morar, vagueia pela cidade, dormindo em qualquer lugar e comendo do que conseguir. Numa tarde uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela, e, por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, acaba se passando por um homem de classe social abastada. À noite, ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, um magnata, que lhe oferece eterna amizade. “Amigos para sempre”, diz o agradecido, ébrio, infeliz e desmemoriado ricaço. O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa, leva o Vagabundo para casa, e de lá, após condignamente trajados, para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes ricos, acaba por protagonizar várias trapalhadas, além de transgredir as regras.


Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o poderoso não o reconhece, mandando que seu mordomo expulse Carlitos da casa: “Quem é esse aí, que eu não conheço?”

Há muitas pessoas volúveis. O ser humano se comporta em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as variações de humor. No caso, a ingestão do álcool provoca sensíveis mudanças de comportamento nas pessoas.

Sabe-se que há indivíduos que, uma vez em estado de embriaguez, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, em vez de seguros e econômicos; se são mesquinhos, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos quando sóbrios. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Aí, sim, desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, some o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros, relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, que foram convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, além de fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, podendo passar a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que as diferenças não existem. A partir daí, deixam de representar obstáculos as muralhas da etnia, da religião, da convicção política, da classe social.

No caso apresentado por Chaplin em “Luzes da Cidade” existe uma enorme disparidade sócio-econômica entre o magnata e o vagabundo. Este nada tem, enquanto àquele de material nada falta: possui casa de luxo, tem empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social, títulos, além de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que o vil metal não pode comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar. Ainda assim — também por influência da bebida –, um tenta tirar sua própria vida, ao passo que o outro o salva, e salva sem exigir nenhuma condição ou pagamento, malgrado seja um necessitado.

O homem, possuindo tudo de material, é incapaz de ter aquilo que o dinheiro não pode comprar, qual seja, um amor sincero, a amizade verdadeira, a paz de espírito e o conforto espiritual. Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin criou um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o vagabundo, ele, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, praticando o verdadeiro amor cristão, embora não se saiba ser religioso. E, para ele, a vida é importante, reconhecendo no outro alguém um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. “Amanhã os pássaros cantarão!”, isto é, não se mate, meu irmão, porque vale a pena viver.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, doa o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. Enquanto isso, ele é preso e passa muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais manda que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado…

Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre, embora constituída de homens poderosos.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

POSSO não concordar com você...

A Falsa citação de Voltaire


INVESTIGAÇÃO afirma que a mais famosa das frases atribuídas ao filósofo francês jamais foi escrita ou proferida pelo autor de Cândido, ou o Otimismo.

O pensamento filosófico - rico que é - já cunhou uma série de expressões que, bem empregadas ou não, tornaram-se largamente conhecidas. É o caso, para ficar em um só exemplo, da famosa máxima de Maquiavel: "os fins justificam os meios" (a qual figura no capítulo XVIII de sua magnum opus O príncipe). Nesta linha, no entanto, aparecem frases que, ainda tomadas como emblemáticas, não podem ser verdadeiramente creditadas aos supostos autores. É possível que existam diversas situações não esclarecidas em que isso ocorre - o que, diga-se de passagem, macula o estudo de Filosofia mais do que os próprios supostos autores. Mas há um caso ícone, o de François-Marie Arouet, mais conhecido pelo cognome Voltaire (1694-1778).

Apesar de ser frequentemente citada, inclusive em livros didáticos, como síntese de uma fi- losofia, a frase "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" (que pode aparecer escrita com algumas pequenas variações) não é fruto da sagaz pena de Voltaire. Todo um retrato do pensamento voltairiano foi construído em torno a essa citação, tomando o filósofo, a partir daí, como um iluminista plena e irresolutamente comprometido com a liberdade de expressão, cuja bandeira de luta seria a tal frase, assimilada como um lema. Uma busca pelos escritos de Voltaire, entretanto, planta a dúvida: onde está a afamada afirmação? A investigação por esse caminho é, contudo, vã, pois não há, em nenhum texto do filósofo, a preciosa frase. Algo tomado quase pacificamente como o resumo do pensamento voltairiano revelando-se apócrifo é mesmo o germe de uma pesquisa, e a investigação revela-se frutífera.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor.

Condorcet


Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, o marquês de Condorcet (1743-1794), foi um filósofo e matemático ligado à Revolução Francesa. É autor da obra Ensaio sobre o cálculo integral e fez parte da Academia de Ciências de Paris a partir de 1769.

Na verdade, como pode-se verificar, a tão citada frase foi elaborada por uma biógrafa de Voltaire, em uma obra do início do século 20 - portanto, bem distante do período de vida e produção do filósofo francês. Em um livro de 1906 chamado The friends of Voltaire ("Os amigos de Voltaire" - tradução livre), publicado em Londres pela Smith, Elder & Co., a escritora Evelyn Beatrice Hall (1868-c. 1939) - que durante um tempo usou o pseudônimo S. G. Tallentyre - trata de dez figuras notáveis com quem seu biografado, de alguma forma, se relacionou. São eles: D'Alembert, Diderot, Galiani, Vauvenargues, D'Holbach, Grimm, Turgot, Beaumarchais, Condorcet e Helvétius. É na parte dedicada a este último que a biógrafa apresenta a frase "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" ("Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo", em tradução livre).

Talvez por uma questão de estilo, Evelyn Hall colocou a frase entre aspas e a construiu em primeira pessoa, o que acabou gerando a confusão e a falsa atribuição. Mas, de fato, a intenção da escritora era resumir o posicionamento que Voltaire teria adotado com relação ao banimento de um livro de Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), outro filósofo francês com quem ele teve certo desacordo. Em 1758, Helvétius publicou o livro De l'espirit, o qual foi condenado pela Sorbonne, pelo Parlamento de Paris e até pelo Papa, chegando a ser queimado. Apesar do desacordo explícito com relação ao pensamento de Helvétius, Voltaire não acreditava que o banimento daquele livro fosse um ato correto. Foi a atitude de Voltaire frente a esta situação que Evelyn Hall tentou resumir com sua frase, inadvertidamente escrita entre aspas e em primeira pessoa.

Em outro livro da mesma autora, chamado Voltaire in his letters ("Cartas de Voltaire" - tradução livre aproximada), publicado em 1919, aparece a mesma ideia, ora apresentado como um "princípio voltairiano" (embora ainda grafado entre aspas e em primeira pessoa), com uma mínima alteração de redação que não resulta em conteúdo diferente. Ainda ali, Hall encerra o "princípio" em um posicionamento de Voltaire para com Helvétius.

Uma construção tardia


Nota-se, portanto, é que a famosa afirmação nem é de Voltaire nem configura um resumo de sua filosofia como um todo. Ela é, precisamente, uma construção tardia de uma biógrafa, e não faz mais do que retratar uma determinada posição adotada por Voltaire em uma situação muito específica com outro filósofo - e faz com que seu poder de frase-lema da liberdade de expressão seja consideravelmente reduzido.

Essa confusão involuntária chegou a ser reconhecida pela biógrafa de Voltaire. Na revista Modern Language Notes, publicada pela The Johns Hopkins University Press, em sua edição de novembro de 1943, há um texto de Burdette Kinne sobre o assunto, intitulado Voltaire never said it! ("Voltaire nunca disse isso!", tradução livre), em que consta a reprodução de uma carta de Evelyn Hall, datada de 9 de maio de 1939, em que ela afirma ser de sua própria autoria a tal frase erroneamente atribuída ao filósofo francês do século 18, chegando a apresentar desculpas por seu texto permitir a interpretação de que a fala era de Voltaire, mesmo não sendo esta sua intenção.

Ainda houve quem considerasse que Evelyn Hall teria, seja por acaso ou não, feito uma paráfrase de uma fala - esta sim - de Voltaire, menos conhecida, que se encontraria em uma carta endereçada a um certo Monsieur Le Riche, datada de 6 de fevereiro de 1770. Esse foi o caso de Norbert Guterman, editor do livro A book of french quotations ("Um livro de citações francesas", tradução livre), publicado na década de 1960. Segundo ele e os demais defensores desta linha, haveria na referida carta a frase "Monsieur l'abbé, je déteste ce que vous écrivez, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez continuer à écrire" ("Senhor abade, eu detesto o que escreves, mas eu daria minha vida para que pudesses continuar a escrever", tradução livre), uma espécie de variação daquela mais famosa.

Noam Chomsky


Linguista, filósofo e ativista político, nascido em 1928, na Filadélfia (EUA), Noam Chomsky é um polêmico intelectual, autor, entre outros, de 11 de setembro (Bertrand Brasil, 2003) e O governo no futuro (Record, 2007). Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Outra vez, porém, criou-se uma equivocada atribuição a Voltaire. Em suas obras completas, publicadas em Paris já entre os anos de 1817 e 1819, sob o selo Chez Th. Desoer, há a coleção de correspondências do filósofo, em que figura a tal carta endereçada a Monsieur Le Riche, mas não é possível encontrar nada sequer parecido com a famigerada frase. Até grandes pensadores como Noam Chomsky se deixaram levar por essa "nova" falsa atribuição, como é possível observar em seu artigo do jornal The Nation, intitulado His right to say it, em 28 de fevereiro de 1981.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor. Nesse caso, Voltaire passou a ser tomado como ícone da luta pela liberdade de expressão. Mas e quando a frase acaba por denegrir um pensador? É preciso rigor na investigação. Daqui por diante, fica como sugestão o princípio: "Eu posso não concordar com o que citas, e por isso requisitarei sempre suas fontes para poder checá-las". (Ivan Bilheiro)


Tem fundamento. A gente não pesquisa fundo para saber se frases atribuídas a alguém (sempre celebridades) têm de fato fundamento, ou seja, se de fato a pessoa citada disse ou escreveu o que a ela se atribui. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A HORA do mais fraco!



JAMAIS esqueci certa tarde quando, num estádio de futebol, um grupo de jovens não autorizados adentrou de repente o campo de jogo. Não lembro a que pretexto. Imediatamente, alguns policiais se puseram a correr atrás dos invasores a fim de retirá-los do gramado.

Chovia. Chovia forte.

Um deles me chamou a atenção pois estava a perseguir um dos rapazes, que, mais jovem que seu perseguidor, era veloz e ágil, e, quando estava por ser alcançado, se livrava o guarda com destreza, dando guizas para lá e para cá. Se alcançado, era bem possível que sofresse violência, levando uns pescoções ou pontapés no traseiro, além de ser recolhido ao xadrez do estádio.

Foi quando o milico, em razão da chuva, escorregou e caiu de bunda espetacularmente na grama lisa. Diante da cena inusitada e não se contendo, o estádio inteiro caiu em sonora gargalhada, e em seguida aplicou à vítima uma tremenda vaia.

O polícia não se machucou, mas com certeza a humilhação pública sofrida lhe doeu deveras e deve lembrar até hoje do triste episódio.

Cena semelhante encontrei num clássico de Chaplin. A diferença que, em vez de escorregar e cair no chão, o policial leva de Carlitos um pontapé nos glúteos. A cena, protagonizada pelo genial vagabundo, gera ato um efeito bastante cômico, ocasionando gostosas gargalhadas por parte do público.

Do estádio para as telas; destas para as páginas de um livro.

Machado de Assis tem uma maneira mui peculiar de narrar.

Relendo o conto “Pobre Cardeal“, vejo que Machado é uma espécie de narrador apresentador. Nessa obra ele introduz ao leitor um segundo narrador — Martins Netto, o homem mais alegre do século –, que, por sua vez, conta um caso narrado por um terceiro (o capitão José Leandro).

Pois bem! O caso, narrado a Martins Netto pelo capitão José Leandro, quando este ainda era menino, se passa na época de El-rei. O protagonista é João da Cruz, um pobre-diabo, que, vivia de pequenos golpes. É o que se infere da leitura. Então, alegando luto pelo falecimento de um núncio de quem se dizia muito amigo, consegue de um general português — portanto, um poderoso — que este lhe lhe presenteie roupas novas, sapatos e chapéu, enxoval condigno com a sua presença nas exéquias do importante religioso recém-falecido, em vez de seus trapos velhos e sujos. Elegante, na verdade, o anti-herói aplica uma senhora mentira ao general, porquanto, quando muito tenha falado ao núncio (de forma absolutamente casual) uma ou duas vezes. Jamais fora do religioso um protegido, muito menos amigo íntimo.

João da Cruz em toda a sua vida usa desses expedientes, pelo que se depreende, dando suas caneladas aqui e ali; vai assim sobrevivendo. Não por acaso vê-se agora — já na época de Pedro II — enrolado num processo criminal (letras falsas). Não à toas que (retoma a narrativa Martins Netto) em 1851 encontra-se o malandro na condição de réu em julgamento pelo crime de falsificação. Reunidos os membros do conselho de sentença, cabe ao narrador o voto de minerva. Ora, exatamente em razão dessa fraude, que ocorrera trinta e quatro anos antes (1817), João acaba por ser absolvido com o voto de Martins Netto. A razão? Ter empulhado o general, homem rico e importante, uma autoridade pública.

Foi esse pequeno golpe que rendeu a ele — ainda que não tivesse a mínima noção disso — a absolvição. Ganhou a liberdade, ainda que o júri não tivesse convicção de sua inocência, por ter empulhado um general.

Tivesse ele, no passado, logrado um cidadão comum, certamente nesta segunda ocasião teria sido condenado. Martins Netto, embora fosse considerado o homem mais alegre do século, confessa trazer essa ponta de melancolia; uma pitada de remorso. Tudo indica que o malandro fosse culpado na questão das letras falsas, razão pela qual foi parar nas barras do tribunal. O malandro, ao que tudo indica, evoluiu na carreira. É o que dá a entender o trecho “De quando em quando tomava rapé; reparei logo que a boceta era de ouro.” Mas Martins Netto não fez caso, pois só lembrava da empulhação de 1817, e isso era o que valia.

No final, retomando a narrativa inicial, o narrador-personagem, amigo íntimo de Martins Neto, como que a lhe consolar diz que “tudo são mistérios indecifráveis”, ainda que “os fatos e os tempos ligam-se por fios invisíveis. Suponha que o João da Cruz não tem empulhado o general em 1817, não teria sido absolvido pelo seu voto em 1851, você não teria uma ponta de remorso, nem eu este conto.”

Durante algum tempo me peguei a sorrir ou mesmo dar risadas discretas ao imaginar a cena do pobre-diabo João da Cruz engambelando o general, que, crendo no luto sincero do mentiroso, acabou por lhe franquear alfaiate, sapateiro e chapelaria.

Sobre a partida de futebol, não me perguntem qual foi o resultado. Não lembro e isso não interessa. O que cabe aqui é o fundo moral. O que há em comum nesses três episódios, um real; os outros dois, fictícios? Por que as três situações provocam risos?

Exatamente por terem sido vítimas a parte mais forte, os três personagens — o policial do estádio, o do filme e o general do conto — representam o Estado opressor, a autoridade, contra elementos do povo, representado aí pelo jovem do estádio, o vagabundo do cinema e o pobre-diabo de 1817, que, ainda que momentaneamente vencem o mais forte. E o povo, mesmo que eventual, se vinga do poderoso pelo escárnio, anônimo ou coletivo, contra o qual a autoridade nada pode fazer.

Os episódios representam uma das múltiplas facetas do comportamento humano: simpatizar com o mais fraco, ainda que por um minuto ao menos. Depois é tocar a vida, dura como ela é.

Pobre cardeal!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CONSCIÊNCIA negra!



Milton Campos, geógrafo

Juliano Moreira, médico

João Carlos de Oliveira, atleta



O DIA Nacional da Consciência Negra é celebrado, no Brasil, em 20 de novembro. Foi criado em 2003 como efeméride incluída no calendário escolar — até ser oficialmente instituído em âmbito nacional mediante a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, sendo feriado em cerca de mil cidades em todo o país e nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro através de decretos estaduais. Em estados que não aderiram à lei a responsabilidade é de cada câmara de vereadores, que decide se haverá o feriado no município.

A ocasião é dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida por coincidir com o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. (Wikipédia)
Adhemar Ferreira da Silva, atleta

Edson Arantes do Nascimento, futebolista
´
Gilberto Gil, músico



terça-feira, 14 de novembro de 2017

TODO camburão tem um pouco de navio negreiro!



ESTÁ em curso, num Congresso dominado por uma elite de mentalidade escravocrata, a tentativa de aprovar a redução da maioridade penal. Da mesma forma, a grande mídia aplaude a redução da maioridade penal. Quem assiste ou lê os meios de comunicação da classe dominante tende a crer que os principais responsáveis por crimes hediondos no país são os adolescentes quando, na verdade, esses jovens são as principais vítimas da violência.

Os dados do Atlas da Violência, divulgado em junho deste ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelam que no período entre 2012 e 2015 mais de 30 mil jovens de 15 a 29 anos foram assassinados por ano no Brasil.

Enquanto a taxa de homicídio da população em geral é de 29,9 mortos a cada 100 mil habitantes, no caso dos jovens, a proporção sobe para 60,9 mortos. Quando se trata dos jovens negros os dados são ainda mais graves: o estudo revela que os jovens negros têm 23,5% mais chances de serem vítimas de homicídio.

Os dados provam que a violência é um grave problema que aflige a população brasileira. O poder público, ao invés de propor medidas eficazes para o problema, apresenta falsas soluções que atuam sobre a consequência e não sobre a causa da questão. Essas falsas soluções ganham adesão na sociedade por conta dos mitos criados sem nenhum embasamento e disseminados diariamente pelos grandes meios de comunicação que querem criminalizar a pobreza.

A redução da maioridade penal e o encarceramento da juventude resolvem a questão da violência no Brasil?


O ministério da justiça divulgou em 2015 que jovens de 16 a 18 anos são responsáveis por 0,9% dos crimes no Brasil. Se considerarmos apenas os crimes de homicídio e tentativa de homicídio esse número cai para 0,5%. Isso demonstra que a grande maioria dos crimes são cometidos por maiores de 18 anos, que, por sua vez, são encarcerados e, mesmo assim, a violência no país não diminui. Ou seja, reduzir a maioridade penal não resolve da violência no país, assim como o encarceramento no geral não tem surtido o efeito que a sociedade espera.

domingo, 12 de novembro de 2017

PERDA de privilégios!


E FINALMENTE hoje o trabalhador perde seus históricos privilégios. Conseguidos lá na primeira metade do século passado. Mesmo passados quase cem anos, os privilégios não deixaram de ser prejudiciais à economia. A causa do Brasil estar onde está.

Hoje o trabalhador perde o privilégio de ter três refeições. Recentes estudos mostram não somente que as três refeições não são aconselháveis, como também que o "jejum intermitente" melhora muito as capacidades de renovação do organismo. Sem comer tanto, o trabalhador viverá mais além de caberem mais trabalhadores no mesmo ônibus.

Também na magna data de hoje o trabalhador perde o privilégio de viver em sociedade. Afinal, pagava-se mais quando o trabalho era necessário em feriados, domingos ou mesmo noturno. Um privilégio desnecessário. Trabalhador não precisar ter família nem estar socialmente inserido. Antes imaginava-se que se pagava mais para que ele tivesse um retorno financeiro pelo tempo que perde com a família ou inserido socialmente em momentos em que TODOS estão de folga. Mas a legislação corrigiu isto e trabalhador tem que trabalhar. Família e sociedade são claramente privilégios.

sábado, 11 de novembro de 2017

MARIDO não é previdência social!




O DESEMBARGADOR José Ricardo Porto disse, em julgamento de Agravo de Instrumento, nos autos de Ação de Divórcio Litigioso, entender que “o marido não é órgão previdenciário, por isso a concessão de alimentos, após a ruptura do matrimônio, deve ser fixada com parcimônia, de modo a impedir que o casamento se torne uma profissão”.


A Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça acompanhou, à unanimidade, o voto do relator, que fixou pensão alimentícia no valor de R$ 1.700,00, mais plano de saúde, para o filho menor e alimentos provisórios à agravante, equivalente ao salário mínimo, durante seis meses.

Consta nos autos da Ação de Divórcio que a agravante CCHP interpôs Agravo de Instrumento, com pedido de Antecipação de Tutela, proclamando ser merecedora de auxílio por parte do ex-marido, bem como requerendo a majoração da pensão fixada para a criança. Fundamenta que o valor arbitrado não supre todos os gastos da suplicante e do infante. Alega ainda que o recorrido ostenta de condição financeira privilegiada, pois possui diversos empreendimentos, em especial uma corretora de seguros e participação em empresa de promoção de eventos.

Justifica também que estar fora do mercado de trabalho e não ter concluído seus estudos em razão de se dedicar exclusivamente à família e aos negócios do antigo cônjuge, sempre dependendo financeiramente do recorrido.

Após analisar as contra-razões do agravado e os documentos constantes no caderno processual, o relator observou que não há comprovação da considerável renda declinada pela agravante. Mesmo assim percebo condição financeira, porém não tão privilegiada que enseje a dilatação do valor da pensão no âmbito do presente recurso – que inadmite dilação probatória minuciosa, disse relator, ao reiterar que a suplicante deixou de comprovar estar a pensão menor arbitrada em parcela ínfima dos ganhos do suplicado.

Percebe-se que a demandante é jovem, saudável e apta a exercer atividade remunerada com a finalidade de assegurar sua própria subsistência, reforçou o magistrado, ao acrescentar que é justo conferir à antiga consorte um prazo razoável para obter ocupação laboral, fixando-lhe alimentos de forma temporária. (Mais PB)


Concordo. Há que se acabar com a indústria da pensão-alimento. Antigamente a mulher não trabalhava fora de casa, dependendo financeiramente primeiramente do pai, enquanto solteira, e, depois, do marido. Em caso de separação, ficava ao desamparo.

Antigamente! Hoje, com a independência feminina, a mulher tem condições de prover seu próprio sustento, podendo estudar e trabalhar. Nalguns casos, supera a muitos homens em termos de renda, porquanto fez por onde, preparando-se para o mundo competitivo. 

Hoje os tempos são outros.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

ÓDIO contagia e mata!

FOI identificado como Devin Kelley, um ex-integrante da Força Aérea, “excluído sem honras”, o assassino de pelo menos 25 pessoas na igreja batista de uma pequena vila no interior do Texas.

O ódio foi cuidadosamente semeado nos últimos anos, ódio de todas as espécies: ódios raciais, nacionais, religiosos, ideológicos.

Nos Estados Unidos, isso se juntou ao insano culto norte-americano às armas, que alguns lunáticos estão criando também aqui.

O alucinado Kelley jamais poderia ter causado mal e dor na escala em que causou se não pudesse ter o fuzil que exibia no Facebook, como o contador aposentado Stephen Paddock não poderia ter matado 59 pessoas num show de música em Las Vegas se não tivesse, legalmente, várias armas automáticas.

O que mais é preciso para que se entenda que a aceitação do ódio potencializa os loucos e a permissão do uso de armas dá a eles os meios de realizar seus delírios? (Tijolaço)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

JUIZ não é deus!

Notícia antiga; problema atual: Justiça condena agente só por cumprir a lei


A NOTÍCIA dada em primeira mão por Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News, na terça-feira, relata o caso de Luciana Silva Tamburini, a bela agente de trânsito da Operação Lei Seca, no Rio, que estava trabalhando na blitz em que foi parado o carro do juiz João Carlos de Souza Corrêa, 18º JEC (Juizado Especial Criminal), em fevereiro de 2011. O ilustre magistrado estava sem documentos do carro, nem habilitação para dirigir, recusou-se a fazer o teste do bafômetro _ deveria ter seus bons motivos _ e deu voz de prisão à agente, que estava só cumprindo a lei.

O absurdo: esta semana, foi mantida pelo desembargador José Carlos Paes, da 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a sentença de primeira instância, em que Luciana foi condenada a pagar multa de R$ 5 mil ao juiz Souza Corrêa, por "abuso de poder".

domingo, 5 de novembro de 2017

O CRIME compensa!


GUARNECIDO por foro privilegiado, Michel Temer conseguiu escapar imediatamente do julgamento no Supremo Tribunal Federal e, após comprar votos de forma vergonhosa à luz do dia ou na calada da noite, safou-se na Câmara dos Deputados, temporariamente, de dois processos que coleciona por organização criminosa, obstrução da Justiça e corrupção passiva, segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Quem, diante disso, consegue afirmar que o crime não compensa?

Talvez o ditado tenha sido criado para servir de advertência aos criminosos pobretões de colarinho-sujo. Lula é um deles e paga o pato por ter circulado e, talvez, volte a circular nas franjas do poder. Ele não está incluído entre os ricaços e poderosos permanentes capazes de se livrar bem cedo, ou um pouquinho mais tarde, com o apoio dos melhores advogados, intérpretes das leis inalcançáveis para os carentes. Não há foro privilegiado nem cadeia especial para pobres.

Assim tem sido secularmente. Não se pode acreditar em ilusão mirando os arroubos momentâneos e autoritários da Lava Jato.

Temer, nas últimas semanas, transformou os palácios do Planalto e do Jaburu em balcões de negócios. Descaradamente, ele mesmo trocava benesses do poder por votos capazes de salvar a pele. Repetiu o mesmo para escapar da primeira denúncia. Fizeram agora cálculos variados, de 12 bilhões a 30 bilhões de reais, para o custo total desse negócio caviloso.

Eis um exemplo da troca. Uma das mais execráveis. Talvez a maior delas.

Dias antes da votação na Câmara, Temer fechou um negócio com os ruralistas. A eles, o indigitado presidente ofereceu a Portaria nº 1.129/17, que modifica as regras de fiscalização do trabalho escravo no Brasil, um país ainda marcado pela escravidão e envergonhado pela escravidão atualmente ampliada. Os brancos somam-se aos negros. Todos eles muito pobres.

Os ruralistas na Câmara são poderosíssimos


Compõem uma bancada acima de 200 parlamentares. Eles, somente às vezes, são alcançados pelas leis, apesar do esforço da fiscalização. Há proteção política.

Para a ONU, as formas contemporâneas de escravidão incluem, essencialmente, o trabalho forçado, a servidão doméstica, formas servis de casamento e escravidão sexual.

Há coisa pior do que a portaria de Temer na alma do brasileiro?

Apenas dez anos após ser protocolado oficialmente o fim da escravidão, Joaquim Nabuco atacou o problema com autoridade.

“Entre o passado e o futuro desdobra-se, acreditai-me, um longo e penoso deserto moral (...) em que a nossa alma tem de educar-se a si própria (...) a maior de todas as reformas sociais – a reforma de nós mesmos – terá de ser efetuada (...).”

Nabuco referia-se ao fato de que “a massa da população brasileira, composta de descrentes ou senhores de escravo”, não rejeitou a herança recebida. Acomodou-se a ela.

Este é o sentimento de Temer. Para ele, pouco importa. Não educou a alma.  (Altamiro Borges)

sábado, 4 de novembro de 2017

LUISLINDA reforça preconceitos!

MESMO num governo que é uma permanente fonte de indignação por parte dos brasileiros, a começar pela origem ilegítima, o desempenho da ministra dos Direitos Humanos Luislinda Valois chama a atenção por uma razão particular.

Num país onde a condição da mulher negra é uma tragédia social reconhecida pelas estatísticas e pelas cenas da vida cotidiana, na qual enfrenta a dupla opressão como mulher e como negra, em vez de ajudar no combate necessário ao preconceito e à discriminação, o comportamento da ministra apenas contribui para reforçar o que deveria ser eliminado e enfraquecer o que deveria ser fortalecido. Este é o aspecto lamentável do caso recente em que Luislinda Valois se envolveu.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

SÍLVIO Santos demite. SBT em crise!



O EMPRESÁRIO Silvio Santos, que já admitiu que construiu o seu império midiático graças ao apoio da ditadura militar, enfrenta um novo período de turbulências em seus negócios. Isto ajuda a entender porque o SBT virou um palanque do golpista Michel Temer, sempre em busca de algumas “propinas”. Na semana passada, a emissora anunciou que pretende demitir cerca de 100 funcionários para economizar R$ 12 milhões e compensar sua violenta queda da receita em publicidade. Segundo o jornalista Daniel Castro, do site especializado “Notícias da TV”, a empresa vive “um dos piores anos de sua história recente”.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

RACISMO na tevê!

Carrossel e o racismo do horário nobre


Por Michel Yakini, no jornal Brasil de Fato:

QUEM tem um curumim em casa, na faixa dos três aos oito anos, sabe bem qual é a intensidade que nossos miúdos sofrem por conta da telenovela Carrossel do SBT, que atinge picos de audiência e boas doses de racismo.

Carrossel é a versão brasileira de uma novela mexicana exibida no Brasil nos anos 90, e apresenta o cotidiano da Escola Mundial, em que contracenam 16 crianças e alguns adultos. E mesmo sendo fraca de roteiro, trama, atores, de servir como propaganda dos produtos da emissora, confirmar preconceitos e pouco contribuir pra reflexão, a produção brilha aos olhos pequeninos.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

MARCELO Migliaccio!

CaetanoVeloso


VAMOS parar de cobrar perfeição do Caetano Veloso! Vamos parar de trará-lo como guru, como timoneiro da nau dos insensatos, como a única cabeça lúcida do Brasil!

Se ele diz algo com que concordamos, é um gênio. Se discordamos, é um escroto. Nem um nem outro, claro.

Caetano é só um cantor e compositor. Pra mim, junto com Chico Buarque, Gilberto Gil e Raul Seixas, forma o quarteto fantástico da MPB. Mas é só isso. Ele não é sociólogo, historiador nem especialista em tudo. Muito menos dono da verdade. 

Vamos ouvir as músicas do Caetano, transcender com sua poesia maravilhosa e brasileiríssima. Só isso.

Uma coisa é o artista, outra é o cidadão, com seu CPF e suas opiniões políticas.

Deixa o Caetano falar as coisas legais e as besteiras dele. 
Falemos nós as nossas. (Rio Acima)