terça-feira, 31 de outubro de 2017

CARTA de um ex-deputado para o neto!

Meu neto querido,



EU FUI um dos deputados que votaram a favor do impeachment em 2016. Votei com minha consciência limpa, votei contra a corrupção, votei contra a desordem econômica, votei pelo Brasil.

No comando do processo estava Eduardo Cunha, réu no STF, réu no conselho de ética e um dos maiores corruptos do país. Mas eu achava que os fins justificavam os meios. Achava que Cunha era um mal necessário. Então, quando ele abriu o impeachment para tirar o foco de suas falcatruas, eu não me importei.

O vice-presidente era Michel Temer, acusado de receber 5 milhões do presidente da OAS, que foi um dos condenados na operação lava-jato. Se o impeachment fosse aprovado, ele assumiria a presidência ao lado de Cunha, que passaria a ser o vice. Mas eu achei que eles não ficariam no poder por muito tempo. Então, eu não me importei.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

OITO razões pelas quais a classe média brasileira detestaria morar nos Estados Unidos!


OS ESTADOS Unidos são o destino favorito dos brasileiros que viajam para o exterior. E são também o país mais apontado por certa classe média como o “paraíso na Terra”. Mas será que essas pessoas, mal-acostumadas do jeito que são, conseguiriam mesmo morar lá? Duvido. Passar férias é uma coisa, viver num lugar sabendo que não se terá os mesmos privilégios que se tem aqui é outra.

Listei algumas das razões pelas quais não acredito que a classe média que adora Miami conseguiria viver nos EUA.

1. Ir ao trabalho de transporte público. Mais da metade dos moradores de Nova York, por exemplo, nem sequer possui carro; entre os moradores de Manhattan, este número chega a 75%. Já em São Paulo, o percentual dos que usam carro todos os dias é de 45%. Sem contar os que possuem mais de um carro para fugir do rodízio, em vez de pensar coletivamente e ir de ônibus ou de metrô.

2. Passar roupa. Usar a lavanderia é caríssimo (para roupa lavada e passada; só para lavar é barato) e não tem passadeiras disponíveis como aqui. Quem consegue imaginar esse povo que sempre teve a roupinha impecável todos os dias tendo que, eles mesmos, pegar o ferro de passar para fazer o serviço? Duvidê-ó-dó.

3. Cuidar do jardim de casa. Já viu como é nos filmes? São os próprios moradores e seus filhos que cuidam dos seus jardins. Jardineiro é coisa para gente muito rica! No Brasil, a maioria das pessoas de classe média alta que possui um jardim não sabe nem ligar o aparador de grama.

domingo, 29 de outubro de 2017

MUITA gente não sabe que...

... pode comprar carro com isenção de impostos


PESSOAS com deficiência possuem direito garantido por lei de receberem a isenção de ICMS (Convênio 38), IPI (Instrução Normativa 988 da Receita Federal) e IOF, além de terem também isenção do recolhimento de IPVA. A Lei nº 8.989, de 24 de fevereiro de 1995, ainda é pouco conhecida pela população e muita gente que tem direito a aproveitar esses benefícios e comprar com isenção de impostos acaba não aproveitando por não saber que tem direito. Os benefícios se estendem a pessoas com deficiência condutoras ou não e aos familiares e responsáveis legais.

Isso não é tudo. Além de pessoas com deficiência e familiares, pessoas portadoras doenças (câncer, hepatite C, Parkinson, problemas graves de coluna, diabetes, LER/DORT, HIV positivo e hemofílicos) e até os idosos também têm direito em muitos casos. No total, são mais de 100 milhões de brasileiros que podem ter direito a comprar carros 0 KM com isenções de impostos.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

AS APARÊNCIAS enganam!

ERA hora do almoço. Nessa época o rancho de oficiais ficava apartado das demais instalações da Unidade, funcionando em anexo ao hotel de trânsito, também conhecido como T1.

As mesas estavam devidamente arrumadas, como era rotina, com toalhas, talheres, lenços e jarras de suco. As refeições ficavam nas devidas bandejas, onde cada um dos comensais retirava as poções que lhe convinham e as colocavam no prato. Os taifeiros -garçons serenamente aguardavam o início dos serviços. Essa era a rotina para aspirantes, tenentes e capitães. Frequentavam esse refeitório também alguns servidores civis assemelhados a oficiais, que recebiam o mesmo tratamento dados a estes. Ao fundo do refeitório, que era uma espécie de quadrilongo, e de frente para a porta de entrada, ficava uma grande mesa, que informalmente era chamada por todos de “santa ceia”, que era destinada ao comandante, a seus convidados e aos demais oficiais superiores da Unidade: tenentes-coronéis e majores. Se estes recebiam tratamento digno de reis e altas autoridades, os outros, mais modernos, não seria exagero dizer que eram tratados como príncipes, guardadas as proporções.

Por enquanto nenhum deles se servia nem se alimentava enquanto o comandante não chegava ao local.

Havia vários grupos de oficiais, cada um com dois, três ou quatro, a conversarem entre si.

Num deles, Capitão Pacobahyba confabulava com o tenente Paolo, a combinar os detalhes e dados que comporiam o discurso de homenagem à autoridade visitante — “Deixaremos o rascunho para o nosso furioso João Pereira, meu sargento e exímio datilógrafo, bater à máquina”. Eis que se aproxima de ambos o tenente Sobrinho. Era para esse oficial subalterno, um primeiro-tenente, recém-transferido, a primeira oportunidade que tinha de frequentar o rancho. Não conhecia ainda ninguém, muito menos a sequência hierárquica dos oficiais superiores do efetivo, como era obrigado o oficial, e, vez por outra, observado em reuniões pelo próprio comandante. Vendo o capitão Pacobahyba, que se posicionava em pé quase na entrada do refeitório, de forma cortês Sobrinho indaga deste:

“Por gentileza, meu bom capitão, qual daqueles dois tenentes-coronéis, que estão lá no fundo, em pé, conversando, é o mais antigo? É que devo ir até o mais antigo para saudá-los, conforme manda o regulamento”.

Responde-lhe o oficial intermediário:

“Na verdade, não tenho certeza. Quando cheguei aqui o mais antigo era um major, a quem saudei”.

Perguntou a mais outro, que estava próximo, mas também este não deu certeza da antiguidade dos dois oficiais superiores. Sem saber a quem saudar por mais antigo presente no recinto, o tenente ia caminhando devagar na direção dos dois que conversavam ao fundo. Devia estar pensando a qual dos dois saudar primeiro sem perigo de ser repreendido pela omissão ou engano. Estavam lá certamente no aguardo do comandante, para, assim que ele se assentasse, estes também tomassem assento para a refeição, conforme manda o regulamento. Um deles, tenente-coronel Perdeneiras, era do tipo baixinho, franzino e mulato; já o outro, tenente-coronel Pardomo, tinha aparência bem diferente: alto, tipo atlético, olhos claros e cabelo aloirado.

Capitão Pacobahyba então, de volta a atenção ao tenente, lhe faz esta observação: “Sabe, meu jovem tenente, não é por falta de bondade da minha parte, mas é claro que na verdade sei quem é o mais antigo pois conheço de cor e salteado a relação hierárquica dos oficiais da unidade, e não poderia ser diferente porque esta é uma das obrigações do oficial — eu estou há dez anos aqui e acompanho atentamente as apresentações dos oficiais em boletim e também as que são feitas em público de forma oficial, nas nossas reuniões periódicas. Mas é perdoável ao seu colega de posto que agora me indagou pois ele é recém-chegado aqui.” E, diante da interrogação que espelhava no semblante do seu interlocutor, o velho oficial continua:

“Eu aproveitei o momento para uma fazer experiência. E eu sei qual dos dois coronéis o nosso amigo recém-transferido vai saudar. Olhe e veja”.

O tenente Sobrinho, ao cumprimentar com uma posição de sentido e um gesto de cabeça, o tenente-coronel Pardomo, este oficial superior indica com o olhar o colega ao lado, tenente-coronel Perdeneiras, por esse bem mais antigo, três turmas exatamente. Um ligeiro rubor surgiu na face de Sobrinho pela gafe cometida. Um major, que presenciava, o incidente fez um muxoxo de reprovação.

“Eu sabia que, em dúvida, ele erraria a antiguidade e saudaria o coronel Pardomo. As características físicas do oficial enganaram o amigo recém-chegado, pois, no entender da maioria, esses dotes de aparência, de que são dotados o dito coronel, atestam superioridade. E, e então, para Sobrinho, esse oficial superior certamente seria mais antigo que o outro, que é baixinho e mulato, e, além de tudo, franzino”.

Fez esse comentário e assim e então se lembrou de um episódio ocorrido cinco anos antes, que envolveu um ex-comandante, coronel Juscelino Braziliense, o austero.

O caso foi quando ele ainda era major.

Braziliense, de raça negra, havia chegado nesses dias à localidade, transferido que fora da base aérea de Salvador. À tarde desse sábado, estava de macacão, botina e chapéu de palha, a capinar as áreas verdes, cujo mato estava por tomar conta do imóvel, dando um aspecto de abandono à casa. Fazia essa tarefa braçal há meia hora, mais ou menos, quando uma jovem senhora que andava pela calçada parou em frente à sua casa.

“Senhor, senhor!” Era para ele que a senhora se dirigia. Major Braziliense volta a atenção para ela: “Pois não, minha senhora”.

“Sabe, meu senhor, a frente da minha casa também está cheia de mato. Quanto o senhor cobra para fazer a limpeza?”

O oficial, mirando bem o rosto e as feições da senhora, ficou como a matutar por alguns segundos, como que a pensar bem no que dizer. E antes que a mulher aparentasse impaciência, finalmente responde: “Quarenta cruzeiros, dependendo da quantidade mato”.

“Então, apareça lá em casa, é na casa 22 da vila”.

“Aguarde só mais meia hora, que eu vou até lá. Já estou terminando aqui.”

Não deu vinte minutos, como o número 22 era perto, e o major lá estava, devidamente fardado e munido de uma enxada. Entrou e começou a capinar.

Não demoram alguns minutos e chega o esposo da mulher, o tenente Benício. Difícil descrever como ficou o jovem oficial ao ver aquela cena: Um oficial superior, que era o seu chefe de Operações, em atividade braçal. Não sabia onde pôr a cabeça de tanta vergonha.

O major Braziliense, com naturalidade, lhe diz o preço: “São quarenta cruzeiros, meu bom tenente. Pague-me agora ou vai se ver comigo”.

Braziliense era de boa índole e nunca foi de guardar rancor. Mas a Benício dava a impressão de que o evitava no dia a dia da caserna, mau o encarando por quase dois anos, tempo em que Braziliense durou no cargo, tendo então sido promovido.

Chega ao recinto o comandante, coronel Horácio. Que comece o banquete! 
(ANTONIO Valentim em 19jul2017)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

DONA Sizenanda!

“ALÔ!…
Dona Sizenanda!? Desculpe a demora em atender…
Em que tenho a honra de servi-la?…
Brigadeiro quem?!…
Não, nunca ouvi falar…
Sei… Não entendi, dona Sizenanda, onde entro…
Ainda não entendi…
Se puder ajudar…
No rancho…
Compreendo. Vou procurar o tenente. Fico honrado com a lembrança do meu nome, dona Sizenanda. Mas veja que não sou nenhum Machado de Assis…
De nada.”

Sizenanda Tabosa de Oliveira, a secretária do comandante da base aérea, com seu metro e setenta de altura, embora já passada dos quarenta, ainda era o que se chama de “mulher bonita”. Aquele corpo esbelto, pernas torneadas, silhueta insinuante, cabelos soltos até à altura dos ombros ou mesmo presos davam-lhe uma condição peculiar própria de mulheres cuja idade é coisa muito difícil de ser definida. Completando seus encantos, os óculos de grau sobre os olhos esverdeados lhe dão um ar de mulher intelectual, quando em outras constituem desvantagem. Também, mas não só, por esses atributos era cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

DECÁLOGO do eleitor consciente!


1º Não deixar de votar


A sua ausência enfraquece a democracia e favorece a eleição dos maus candidatos. Extraviou seu título, então vá votar de posse de um documento com fotografia; não sabe seu local de votar, procure o cartório eleitoral, pois lá eles indicarão onde você deve votar.

2º Não vote contrariando a sua opinião


Não se deixe influenciar pela mídia ou por armadilhas publicitárias das campanhas eleitorais. Simpatia é diferente de competência.

domingo, 22 de outubro de 2017

A INVENÇÃO do camelo!

(Continuação da postagem de 20out2017)

NO MOMENTO em que o comandante entra na sala de reunião, e, a oficialidade ali representada fica em pé, posição de sentido, o subcomandante faz a apresentação regulamentar.

Geralmente mais sisudo, nessa ocasião em particular era visível a figura do coronel um tanto mais bem-humorada, risonho até. Ao iniciar, porém, deixou claro a todos que a presença deles no recinto se estenderia um pouco além. “Já pedi ao chefe do Rancho que mande um taifeiro servir cafezinho e água. Deve trazer também bolachas”, disse, bonachão. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Era como quem diz: “não tenham pressa.”.

Começando os trabalhos, fazia um relato de tudo o quanto havia ocorrido de importante nos últimos dois ou três dias. Logo em seguida, o oficial mais moderno lia a ata da última reunião.


Como é natural, sua confortável poltrona fica à cabeceira da longa mesa. Na poltrona imediata à sua direita, se posiciona o subcomandante, tenente-coronel Dacildo, enquanto a da esquerda, vaga, era reservada ao próximo oficial a ser sabatinado e, que, eventualmente, também tenha assuntos imediatos a tratar com o comandante, desde que não fosse sigiloso.


Nesse dia, o próprio comandante, quebrando a rotina que ele mesmo havia definido, principiou-se a elogiar a postura do tenente Barreto. Esse oficial subalterno, quando de serviço de oficial-de-dia, comandou meia-volta volver na guarnição de serviço, que normalmente ficava formada no pátio da bandeira em frente ao prédio do comando. Com isso, os sargentos, cabos e soldados ali escalados ficaram de frente para a sombra, e não contra o sol, como usualmente se perfilavam. Nesse instante, coronel Horácio estava em seu gabinete, a observar a postura do oficial e da tropa pela janela principal. “O verdadeiro comandante é aquele que cuida do bem-estar da tropa. E essa qualidade eu constatei na atitude do tenente Barreto. Que o comandante dele, aqui presente, retransmita ao seu subordinado as minhas palavras”.


Todos aprovaram tanto a atitude do tenente quanto as palavras elogiosas, raras, por sinal, do comandante, o coronel Horácio. Louvado seja!


De fato, o comandante, excepcionalmente, estava de bom-humor. Haveria alguma explicação para isso? Alguma boa notícia, talvez?


Logo em seguida o primeiro oficial, o mais antigo após o subcomandante, tomou assento à cadeira à esquerda, junto ao comandante.

O primeiro a tratar foi o major Hipólito, do grupo de comando. Após os cumprimentos iniciais deste oficial, entrega a coronel Horácio um ofício para sua apreciação e chancela. O comandante, sem ao menos referir-se ao mérito, devolve-o, enfatizando sobre o uso correto da pontuação. “Não faça como aquele item de material, que me trouxeram para inclusão na carga da Unidade, que saiu assim: ‘Cadeira para datilógrafo sem braços’. Ora, como o datilógrafo iria exercer seu ofício? Com os dedos dos pés? Cadê a vírgula, meu filho”.


Todos se olham discretamente. Ora, se era assim com o major Hipólito, um major antigo quase tenente-coronel, e – pior! – na presença de gente mais moderna, imagina com os demais, reles mortais! Esse era o Horácio de sempre.


De doze oficiais chefes de grupos e esquadrões, o capitão Arnaldo Pacobahyba seria o antepenúltimo a despachar, vez que a ordem de despachos seguia a sequência hierárquica. Havia apenas dois mais modernos que Arnaldo. O bloco de rascunho, que a secretária, a competente dona Sizenanda, havia posto em sua frente, assim como nos demais lugares destinados a todos os demais oficiais, teria boa utilidade.


Este oficial, o capitão Pacobahyba, quando obrigado a ouvir, se o assunto não lhe dizia muito, se pegava a rabiscar, desenhar alguma coisa, já que era dotado de dons artísticos, mas uma parte de seu cérebro continuava atenta ao que se passava. Assim, em caso de emergência, ou seja, uma pergunta ou questionamento, Pacobahyba imediatamente respondia ou comentava, mostrando que não estava desatento às palavras de seu comandante ou de seus colegas ali presentes. Os colegas de sua esquerda e da direita se acumpliciavam tacitamente do pequeno delito do colega.


Seguia a reunião. 

Geralmente, era permitido a cada um deles opinar sobre que se estava tratando no momento. Embora sabendo que o comandante previamente já tinha opinião formada sobre quase tudo, e que, dificilmente, acataria a quem pensasse diferente, sempre, ao menos um, pedindo permissão, dizia algo, que fosse complementando ou mesmo questionando o sabatinado da vez.


“Perda de tempo”, pensava de si para si o capitão Arnaldo Pacobahyba. “Isso só prolonga mais o sofrimento”.


O que se discutia agora? Ah sim. Transferência interna do funcionário Calixto Wilson, depois de vinte anos lotado na seção de cópias. Abrira uma vaga na tesouraria, vez que um antigo sacador fora descoberto em uso de fraude, sendo, após inquérito administrativo, excluído a bem do serviço público. Na opinião do capitão Pacobahyba, esse assunto não era para ser discutido em reunião, bastando um simples despacho do chefe de Pessoal com o próprio comandante. Ocorre que, querendo parecer democrático, Horácio leva o assunto para discussão, pedindo o parecer a cada um dos participantes. Havia ali um propósito oculto, próprio dele, e era exatamente estudar a fala e o que pensa cada um de seus oficiais. Falavam até que, logo após a saída deles, o comandante pegava um caderninho da gaveta e fazia as suas anotações, em geral, registrando observações negativas.


Por unanimidade, a movimentação interna de Calixto Wilson foi aprovada. Ainda que houvesse opinião contrária, era preferível aprovar de pronto um assunto banal como esse somente para não prolongar o suplício de todos. Ele próprio, contrariando o seu pensamento de que time que está ganhando não se mexe, acabou por concordar. Seria o único voto vencido e ficaria exposto às anotações desfavoráveis do comandante, por essa razão o melhor mesmo era não contrariar o que – sabia – já estava decidido pela autoridade máxima ali presente.


O animal, que Arnaldo Pacobahyba rascunhava no caderno, ia tomando forma. Pensaria no que desenhar na folha seguinte do bloco depois de concluído o rascunho de que se ocupava.


Chegando a sua vez, apresentou um relatório com o movimento de saída e entrada de itens que haviam sido enviados a outras unidades, por transferência, ou recebidos dos órgãos técnicos centrais. Nenhum comentário adicional era necessário, julgava. Perguntado se tinha outro assunto a discutir, respondia simplesmente: “Nada mais, senhor”. Devia ter as suas razões para pouca conversa e nenhum sorriso.


Finalmente encerrada a tal reunião de máxima importância, mal aberta a porta e alguns se encaminham, quase correndo, à toalete. Alguns nem conseguiam chegar lá, eis que vinham se prendendo na sala. Outros, mais jovens, acendiam um cigarro. Lafaiete, um capitão bem humorado, aludiu a uma boa e gelada cerveja para alegrar o ambiente, depois daquela bela dose de tortura psicológica.


O capitão Pacobahyba, de volta, agora sobe a passos largos a escada que dá para a chefia da Seção de Suprimento Técnico.


O comandante, coronel Horácio, costumava reunir com seus principais oficiais duas vezes por semana. Para que tanta reunião, meu Deus? Deixou em cima de sua mesa o bloco, o tal bloco da reunião. Não obstante o conteúdo do bloco, era um oficial cônscio de suas obrigações. No entanto, o tal bloco continha apenas rabiscos sem sentido e desenhos toscos, e no caso desse dia era justamente o camelo. Pacobahyba, para matar o tempo, fazia quando o desenrolar da reunião não lhe queria dizer coisa alguma. Fazer o quê? Não concordava com muita coisa do que era discutido e decidido, mas já estava na Força há tempo para saber que de nada adiantava suas ponderações quando, de fato, as decisões já estavam tomadas na cabeça do comandante. Conhecia o vaidoso comandante, e qualquer palavra a mais que não fosse um “sim, senhor” poderia ser considerada como indisciplina ou, pior, insubordinação. Ele, o comandante, trazia, desde que era tenente, o espírito envenenado pela carreira, que seguia de forma obstinada; primeiro queria ser capitão; uma vez nesse posto, almejava a promoção a major; quando acostumado ao tratamento diferenciado que a tropa dispensava a oficial superior, todos os seus movimentos foram em direção à patente de tenente-coronel; e uma vez coronel, ambicionava voltar à base aérea para comandá-la, sabendo ser esse cargo essencial para o prosseguimento da carreira. Assumindo como titular da base aérea, todas as suas ações, desde o primeiro dia no comando, voltam-se para o primeiro posto de oficial-general, as cobiçadas estrelas. As duas — e por vezes três reuniões semanais, incluindo até o sábado — faziam parte dessa estratégia, ainda que (todos sabiam disso) tinham também por fim mostrar toda a sua autoridade, ainda que tiranizando os oficiais, ao mesmo tempo em que afagava a tropa. Como acréscimo, determinou formatura geral diária, e não só uma por semana como antes. Essa solenidade iniciaria o expediente; depois, formaturas internas em cada grupo e esquadrão no início da parte vespertina e outra ao final do expediente, às cinco da tarde. “Sabem o camelo”, costuma dizer o velho capitão como anedota, “o camelo, todo feio, é fruto de uma reunião, ao passo que o cavalo, todo certinho, todo bonito, foi feito por conta da espontaneidade”. Pacobahyba contava essa anedota toda as vezes que a paciência já estava por um fio. E nesse dia, a anedota vinha acompanhada da respectiva ilustração material, que desenhara no bloco.


Queixava-se no íntimo também de seus colegas oficiais. São uns bajuladores, em sua maioria, isso é que são. E, em sua mente, passavam a desfilar um a um deles. Mas sua insatisfação era maior para consigo mesmo, porque, afinal de contas, tantas vezes dizia “sim” quando na verdade queria dizer “não”, entrava no gabinete de comando com uma ideia e saia com as ideias e decisões do comandante. Era sempre assim. Por isso, insatisfeito com a vida que levava, até que a bendita promoção chegue. Teria ainda que realizar o curso de aperfeiçoamento, por essa razão pisava em ovos.


Toca o telefone e ele deixou que tocasse até que desistisse. Estava velho e cansado.


Considerava-se antigo, já tendo, na verdade atingido o tempo que lhe permitia pedir transferência para a reserva, a tão sonhada aposentadoria. No entanto, essa decisão pessoal, que lhe daria mais tempo para descansar, divertir-se ao lado da família e usufruir finalmente a vida, estava no momento fora de seus planos vindouros, ao menos nos próximos três, quatro anos. Um de seus erros era ter feito concurso para oficial muito tarde. Agora, tinha de agir com a razão e não com a emoção. Já que esperou até agora, teria que ir levando em banho-maria aquela pesada rotina até ser promovido ao posto de major e, uma vez major, sim, aí poria em prática a decisão de finalmente aposentar-se. E aí, adeus base aérea, adeus seção de suprimento e seus velhos problemas. Adeus, povo escamão e enrolão que mal se incumbia do básico, incluindo aí – e principalmente – seus próprios auxiliares, alguns dos responsáveis pelo seu problema de úlcera. Esse pessoal aí — e olhava para baixo pela vidraça — contribuía também para seus grandes aborrecimentos e frustrações. Mas, para não se aborrecer, o oficial é obrigado a fingir que não vê e ao final dá por tudo feito e satisfatório. Fazer vistas grossas, empurrar com a barriga e pisar em ovos passou a ser a sua rotina, e isso tudo não lhe deixa satisfeito. Oh promoção que não chega!


Ignora, por instantes, o telefone que toca…


Olha novamente pela janela de vidro e vê lá embaixo alguns de seus auxiliares. Gentil, primeiro-sargento, metido a escritor, mas um escritor fracassado; Olegário Mariano, segundo-sargento, bajulador de primeira e malandro por excelência; Juvêncio Longo, suboficial, e seu eterno problema conjugal que finge desconhecer; Zuleiko…, bem Zuleiko até que não compromete, exceto pela sua condição toda especial, o seu jeito afetado… deixa pra lá; e João Pereira, terceiro-sargento já antigo, esse — coitado! — muito trabalhador, é verdade, uma exceção à regra geral do setor, embora o excesso de trabalho tenha por fim esconder um grande drama familiar que o atormenta há alguns anos… Bem! Paciência, pelo menos esse trabalhava por si e pelos outros. Havia ainda mais dois cabos e um soldado. Essa era a sua equipe até um mês atrás.


E eis que lhe chega Florindo há quase trinta dias. Sangue novo, alguém disposto a arregaçar as mangas. Esperanças de melhoras, enfim. E é exatamente ele agora que se aproxima da sala. Esse novinho, recém-formado, somando a João Pereira, é promessa de bom trabalho e mais empenho, garantindo a eficiência do setor, apesar dos outros. Ele nem ao menos suspeita que virá a carregar, juntamente com o colega e os dois cabos e um soldado, nas costas o setor chefiado por Pacobahyba.


O subalterno bateu à porta e, sob uma palavra de autorização, entra no recinto. Perfila-se imediatamente com um bom-dia, posição de sentido e uma continência padronizada.


— Sargento Florindo apresenta-se, senhor capitão!


O telefone toca pela terceira vez. Deve ser importante.


O capitão, fazendo um sinal e apontando a cadeira à frente de sua mesa, pede a Florindo que sente, enquanto ele tira o fone do gancho.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ARNALDO Pacobahyba!

Quase revolucionário



ARNALDO Pacobahyba é um oficial daqueles que começou a carreira militar como sargento. Depois do curso de formação regulamentar no Galeão, mandaram-no permanecer no Rio de Janeiro, lotado nos Afonsos como mecânico de voo de C-47. Nunca foi militar exemplar, um bom soldado; ao contrário, era do tipo contestador e isso lhe custou muitos dissabores. Fazia o básico e o suficiente, mas, resmungão, era considerado indisciplinado por seus superiores, sendo punido várias vezes. Considerava a farda apenas como um mero ganha-pão, com a diferença do uniforme, fazer continência e dizer “sim, senhor” e “não, senhor”. Poderia ser um professor, alfaiate ou motorista de ônibus. Por pouco sua carreira não acabou nos primeiros cinco anos obrigatórios. 

Chegou formalmente a ser excluído, porém, por um cochilo de seus superiores, que deixaram passar um erro administrativo, acabou voltando à Força por meio de uma decisão ministerial. A partir daí, procurou ser mais atento, mais zeloso com a carreira, evitando o confronto direto com os oficiais, comandantes e chefes, aqueles que tinham sobre o praça o dom de vida e de morte, e também a praticar o respeito formal aos suboficiais, seus encarregados. Uma vez reincluído, passou efetivamente a exercer sua especialidade de formação: mecânico de voo. Assim, primeiro voou como mecânico-aluno, depois como mecânico-auxiliar e, finalmente, exercendo a função a bordo de primeiro-mecânico, perfazendo as rotas aéreas costumeiras, primeiro as nacionais e depois as rotas internacionais atribuídas ao seu esquadrão aéreo. Mas, nada de glamour, e por rotas internacionais, em vez de Washington, Londres, Paris, leia-se: Paramaribo, Georgetown e Caiena. Foi num desses voos, já como segundo-sargento antigo, que Arnaldo chegou, involuntariamente, a envolver-se numa espécie de rebelião, uma tentativa de derrubada do governo então instalado, que, caso o episódio tivesse obtido êxito, a historiografia o consideraria hoje como uma revolução. Mas esta só veio oito anos depois.

Era época de carnaval. O novo presidente assumira há duas semana, com um discurso ousado. Em suas promessas de campanha dizia que implantaria a indústria de base no país, e que o Brasil passaria a fabricar automóveis (sim!, mas o Brasil não fabrica hoje nem bicicleta!) e que – olha que absurdo! – mudaria a capital federal para o centro geográfico do país. Um louco!

Para Arnaldo, cuja rotina era indiferente a essas questões políticas, a atividade aérea era um serviço bem prazeroso, mas só nos primeiros dias de missão. Esse trabalho perigoso envolvia transporte de tropa, de carga e missões de apoio ao Exército. Sua aeronave, vez por outra, também transportava civis, quando havia disponibilidade para isso, e não raras vezes religiosos e indígenas pelo interior a dentro. Ele e seus colegas tinham que cuidar de todo o apoio técnico necessário: combustíveis, fonte de força, pesar a carga e passageiros, cuidar da amarração da carga e equipamentos a bordo, fazer relatórios, relacionar passageiros… Enfim, muita responsabilidade, trabalho duro. Por primeiros dias, entenda-se os primeiros quatro dias. No quinto dia em diante, depois de percorrer o Brasil de sul a norte, pousando em aeródromos precários e destacamentos de pouca estrutura de apoio, a vontade que tinha era uma só: voltar pra casa. O procedimento nesses locais ermos era abastecer o avião com o combustível armazenado em barris, sobrando pouquíssimo tempo para ir ao sanitário e visitar o radiotelegrafista para dar posição da aeronave, repassando dados técnicos de horas de pouso e decolagem, origem, destino.

De volta ao Brasil, depois daquela missão em Georgetown, estavam para pousar no primeiro local minimamente estruturado, por sinal, até sede de Zona Aérea: a provinciana Belém. Essas instalações ainda eram as mesmas deixadas pelos norte-americanos ao término da Guerra. E por estrutura, entendia-se também a existência de rancho organizado, onde podiam os aeronavegantes de então alimentar-se decentemente, além de ser dotada de todo o apoio técnico com sargentos especialistas, e hospedagem. Um feijãozinho com arroz, um frango guisado, tudo bem quentinho, era um luxo nessas missões fora-de-sede longas. O que lhe valia muito eram as diárias que recebia depois de três meses. De trinta dias, permanecia em média em sede apenas seis. Esse dinheiro complementava o magro soldo e com essa diferença aos poucos Arnaldo fazia um pé-de-meia que lhe permitiria, mais tarde, quem sabe dentro de cinco anos, finalmente comprar uma casinha simples, talvez em Marechal ou Campo Grande. 

Ia pensando dessa forma, números e cifras na mente. Primeiro Belém, depois escala em três destacamentos de interior, sertão a dentro, até, finalmente, chegar no dia seguinte à civilização: Rio de Janeiro. Faltava apenas uma jornada com um pernoite. A missão completaria seu décimo dia. Doía-lhe a saudade da esposa, Celina, e dos filhos, o travesso João e a adorável Aninha, cinco e dois anos. Era só suportar mais dois dias.

A reunião de comando prosseguia com o chefe da Intendência a discorrer sobre o último balancete mensal.

Que tenho a ver com esses números? Arnado prossegue em suas reminiscências…

Esses praças especializados, pés em Belém, tomadas as providências técnicas e operacionais necessárias à operação do velho C-47, sobra da guerra, só então puderam seguir destino ao refeitório, onde lhes esperava suculento almoço. O comandante, major P. Vitor, e o segundo piloto, tenente Ezequias, cumprindo o protocolo regulamentar, seguiram direção ao prédio do comando, para apresentar-se ao comandante da Base Aérea. Já haviam almoçado antes no refeitório especial, da época dos norte-americanos construtores da Unidade.

Enquanto caminhavam direção ao local onde o avião estava estacionado, seu colega o jovem Duran cantarolava a marchinha do carnaval desse ano.

“Quem sabe, sabe / Conhece bem / Como é gostoso / Gostar de alguém”


“Saudades do Rio, hein Duran!”, dizia Arnaldo a seu colega mais novo, “Eu também”.

Seus comandantes, fazia mais de hora, que não davam as caras. Teria ocorrido algo?

A ausência prolongada dos dois aviadores somente depois foi explicada. Nesse ínterim, Arnaldo, Duran e Ferreira notavam um movimento excepcional. Sabiam que a Base Aérea de Belém, com seus velhos e guerreiros CA-10 Catalina, que equipavam o 2º Esquadrão de Aviação, exigia um efetivo monstruoso, tanto de militares como de funcionários civis, e estes se incumbiam de funcionar a garagem, a hidráulica, a olaria, a carpintaria, a horta, a pocilga… Um mundo à parte. Ocorre que, além desse movimento intenso de rotina, havia algo de diferente, um mistério que logo se explicaria.

No rancho, em conversa com colegas sargentos de Belém, ficaria sabendo que um major maluco e um capitão tinham roubado um avião. “Roubaram um avião!?”, perguntou escandalizado com tamanha ousadia. “Sim, você não leu os jornais?. Ah, claro, vocês estavam em voo. Saíram dos Afonsos e rumaram Brasil a dentro em direção ao Norte, fazendo três escalas, obrigando o sargento-chefe a lhes abastecer a aeronave, além de danificarem as estações-rádio, até que se aquartelaram num lugarejo chamado Jacareacanga, um fim-de-mundo que fica entre o Pará e o Amazonas.”

O líder era um tal major Veloso, aviador e engenheiro, de cuja figura Arnaldo guardava vaga lembrança dos tempos em que perambulava pelo prédio do Ministério da Aeronáutica, nas salas do Gabinete do Ministro, em busca de convencer as autoridades sobre o erro administrativo de que fora vítima cinco anos antes, que culminara na sua expulsão. 

Dois caminhões aproximaram-se do C-47. Soldados despejavam de seu interior muitos fuzis, caixas de munições e outros apetrechos de campanha. Um tenente de infantaria dirigiu-se a eles com ordem de carregar o avião com o conteúdo tirado dos jipes. Desavisados, ficaram um a olhar o outro, até que o tenente lhes mostra uma mensagem-rádio. Era uma mensagem vinda do Gabinete do Ministro. 

Uma sensação de angústia pairou sobre o espírito de Arnaldo, pois algo lhe dizia antes – e agora tinha certeza – que o seu Rio de Janeiro teria de esperar. Antes disso, tinham notado o movimento de um automóvel de representação, que estacionou em frente ao prédio do comando. Souberam que o carro conduzia o brigadeiro comandante da Zona.

Sim, o brigadeiro Cabral estava lá. Essa era a razão da demora dos dois oficiais, comandante e segundo piloto do C-47.

“Rapazes, mudou tudo! Nossa proa não é mais o Sul e sim o Oeste. Não vamos mais ao Rio, mas pra Santarém e outros destacamentos próximos”, confirmou o major P. Vitor o que sua tripulação, resignada, já sabia. 

A aeronave reabastecida, equipada e carregada, decola com a missão de dar combate a Veloso e seus companheiros de ideais. Tropa armada a bordo preparada para ocupar os aeródromos da área, antecipando-se às ações de Veloso.

Algo falava a Arnaldo que isso tudo não acabaria bem. Bem que dizia Celina: “Não tenho bom pressentimento, bem”. “Bobagem, não vai acontecer nada. Esse avião, apesar de velho, é muito bom.” Os acidentes aéreos eram mais frequentes nessa época.


O que ninguém sabia é que o comandante da aeronave, grande amigo de Veloso, não possui a mínima intenção de cumprir o que lhe foi ordenado. Mas não deixou isso claro de imediato. Em cada destacamento secundário, foi deixando os homens e seus equipamentos, conforme fora ordenado. Mal a aeronave pousa em Santarém, ao abrirem a porta, esta é cercada por Veloso, o capitão Lameirão, e o grande combatente Cazuza, todos fortemente armados. A essa altura os ocupantes do C-47 se resumiam apenas à própria tripulação, pois a tropa de infantaria fora distribuída nos destacamentos secundários.

Arnaldo e seus amigos são surpreendidos pela decisão de P. Vitor, que aderiu de imediato aos ideais da revolta, aliando-se aos homens a quem, por dever de ofício, devia combater.

E agora? Como ficava o restante da tripulação?

O co-piloto, tenente Ezequias, negou-se a participar. Arnaldo pensava o que fazer. Teve ímpetos de aderir imediatamente aos ideais da rebelião, sendo ele próprio um rebelde por natureza. O presidente era necessariamente um louco. Onde já se viu algo semelhante: transferir a capital para o meio do nada!

No entanto, a cautela já lhe era amiga e, pensando na esposa, nos pequeninos, nas consequências… E se esse movimento malograr? Responderia a IPM, seria certamente expulso da Força, talvez seria… (talvez não, certamente seria torturado). “Não”, foi a sua resposta seca. Duran seguiria o colega mais antigo, qualquer que tivesse sido a sua decisão. Veloso, que estava próximo, lhe diz então: “Pense melhor, sargento, porque primeiro a gente toma esses aeródromos daqui desta região, mas depois, com certeza, toda a aviação nacional vai aderir, depois o próprio Exército e também a Marinha, forçando esse presidente que está aí a renunciar. Nós é que vamos dar as cartas neste país.” P. Vítor olhava fixamente para o sargento como forma de intimidá-lo, gesto que resultou inócuo. 

Diante da negativa irrevogável, ele e seus colegas ficaram presos em Santarém. Dois dias depois, conseguiram fugir de barco com destino à Belém.

O destino da rebelião, que, depois de duas semanas, foi sufocada por uma tropa de mais de seiscentos homens, tendo à frente o próprio comandante da Primeira Zona, acabou dando razão à decisão de Arnaldo e seus colegas. O líder da rebelião foi preso e transportado para Belém, onde permaneceu preso respondendo a inquérito policial-militar. P. Vitor e os outros voaram no C-47 para a Colômbia.

Mais tarde, Arnaldo, pedindo licença do voo, dedicou-se a preparar-se a concurso para oficial, vindo a formar-se dois anos depois. Foi classificado em Belém, exatamente no cenário onde, anos atrás, esteve involuntariamente envolvido naquela célebre rebelião.

Ia pensando o capitão Pacobahyba nesses fatos marcantes, que testemunhara e participara há quase vinte anos, mas que ainda lhe estavam frescos na memória, enquanto a bendita reunião prosseguia. Escrevia, rabiscava, desenhava no caderno à sua frente. Olha discretamente o relógio de pulso. A torturante reunião caminhava para duas horas… duas horas. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

DEZ fatos chocantes sobre os Estados Unidos!


Por Antonio Santos, no sítio Diário Liberdade:

1- Os Estados Unidos têm a maior população prisional do mundo, compondo menos de 5% da humanidade e mais de 25% da humanidade presa. Em cada 100 americanos 1 está preso.

A subir em flecha desde os os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controlo social. À medida que o negócio das prisões privadas alastra como gangrena, uma nova categoria de milionários consolida o seu poder político. Os donos destes cárceres são também na prática donos de escravos, que trabalham nas fábricas no interior prisão por salários inferiores a 50 cêntimos por hora.

Este trabalho escravo é tão competitivo, que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente graças às suas próprias prisões camarárias, aprovando simultaneamente leis que vulgarizam sentenças de até 15 anos de prisão por crimes menores como roubar pastilha elástica. O alvo destas leis draconianas são os mais pobres mas sobretudo os negros, que representando apenas 13% da população americana, compõem 40% da população prisional do país.


2- 22% das crianças americanas vive abaixo do limiar da pobreza.

Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças americanas vivam sem “segurança alimentar”, ou seja, em famílias sem capacidade económica de satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não vão à universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.

3- Entre 1890 e 2012 os EUA invadiram ou bombardearam 149 países.

São mais os países do mundo em que os EUA intervieram militarmente do que aqueles em que ainda não o fizeram. Números conservadores apontam para mais de 8 milhões de mortes causadas pelos EUA só no século XX. E por detrás desta lista escondem-se centenas de outras operações secretas, golpes de Estado e patrocínio de ditadores e grupos terroristas. Segundo Obama, recipiente do Nobel da Paz, os EUA têm neste momento a decorrer mais de 70 operações militares secretas em vários países do mundo. O mesmo presidente, criou o maior orçamento militar norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial, batendo de longe George W. Bush.

4- Os EUA são o único país que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.

Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos pela empresa, é prática corrente que as mulheres americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes nem depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo oferecem entre 12 e 50 semanas pagas em licença de maternidade. Neste aspecto, os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia com 0 semanas.

5- 125 americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de acesso à saúde.

Se não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de americanos não têm), então, tem boas razões para recear mais a ambulância e os cuidados de saúde que lhe vão prestar, que esse inocente ataquezinho cardíaco. Com as viagens de ambulância a custarem em média 500€, a estadia num hospital público mais de 200€ por noite, e a maioria das operações cirúrgicas situadas nas dezenas de milhar, é bom que possa pagar um seguro de saúde privado. Caso contrário, a América é a terra das oportunidades e como o nome indicam, terá a oportunidade de se endividar até às orelhas e também a oportunidade de ficar em casa, fazer figas e esperar não morrer desta.

6- Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo americano.

Esqueçam a história do Dia de Ação de Graças com índios e colonos a partilhar placidamente o mesmo peru à volta da mesma mesa. A história dos Estados Unidos começa no programa de erradicação dos índios. Tendo em conta as restrições atuais à imigração ilegal, ninguém diria que os fundadores deste país foram eles mesmos imigrantes ilegais, que vieram sem o consentimento dos que já viviam na América. Durante dois séculos, os índios foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados.

Em pleno século XX, os EUA puseram em marcha um plano de esterilização forçada de mulheres índias, pedindo-lhes para colocar uma cruz num formulário escrito num língua que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios caso não consentissem ou, simplesmente, recusando-lhes acesso a maternidades e hospitais. Mas que ninguém se espante, os EUA foram o primeiro país do mundo a levar a cabo esterilizações forçadas ao abrigo de um programa de eugenia, inicialmente contra pessoas portadoras de deficiência e mais tarde contra negros e índios.

7- Todos os imigrantes são obrigados a jurar não ser comunistas para poder viver nos EUA.

Para além de ter que jurar que não é um agente secreto nem um criminoso de guerra nazi, vão-lhe perguntar se é, ou alguma vez foi membro do “Partido Comunista”, se tem simpatias anarquista ou se defende intelectualmente alguma organização considerada “terrorista”. Se responder que sim a qualquer destas perguntas, ser-lhe-á automaticamente negado o direito de viver e trabalhar nos EUA por “prova de fraco carácter moral”.

8- O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80.000 dólares.

O ensino superior é uma autêntica mina de ouro para os banqueiros. Virtualmente todos os estudantes têm dívidas astronômicas, que acrescidas de juros, levarão em média 15 anos a pagar. Durante esse período os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dívidas, sendo  muitas vezes forçados a contrair novos empréstimos para pagar os antigos e ainda assim sobreviver.

O sistema de servidão completa-se com a liberdade dos bancos de vender e comprar as dívidas dos alunos a seu bel-prazer, sem o consentimento ou sequer a informação do devedor. Num dia deve-se dinheiro a um banco com uma taxa de juro e no dia seguinte, pode-se dever dinheiro a um banco diferente com nova e mais elevada taxa de juro. Entre 1999 e 2012, a dívida total dos estudantes americanos ascendeu a 1.5 triliões de dólares, subindo uns assustadores 500%.

9- Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 americanos, há 9 armas de fogo.

Não é de espantar que os EUA levem o primeiro lugar na lista dos países com a maior colecção de armas. O que surpreende é a comparação com o resto do mundo: No resto do planeta, há 1 arma para cada 10 pessoas. Nos Estados Unidos, 9 para cada 10. Nos EUA podemos encontrar 5% de todas as pessoas do mundo e 30% de todas as armas, qualquer coisa como 275 milhões. E esta estatística tende a se extremar, já que os americanos compram mais de metade de todas as armas fabricadas no mundo.

10- São mais os americanos que acreditam no Diabo que os que acreditam em Darwin.

A maioria dos americanos são cépticos; pelo menos no que toca à teoria da evolução, em que apenas 40% dos norte-americanos acredita. Já a existência de Satanás e do inferno soa perfeitamente plausível a mais de 60% dos americanos. Esta radicalidade religiosa explica as “conversas diárias” do ex-presidente Bush com Deus e mesmo os comentários do ex-candidato Rick Santorum, que acusou os acadêmicos americanos de serem controlados por Satã.

Postagem antiga porém oportuna!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DAS FLANELAS à Universidade!


Ana Paula Lisboa

AOS 52 ANOS, José Mário Silva dos Santos teve a emoção de ver seu nome na lista dos 3.961 aprovados no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) na última segunda-feira (14jul.). Ele poderia ser apenas mais um estudante, não fosse a história de superação e persistência.

Natural de São Luís (MA), morador de Planaltina, José Mário foi pedreiro, lavador de carros e flanelinha, função que ocupa atualmente. Depois de concluir o ensino médio no Maranhão, ele passou mais de 28 anos longe dos estudos. Mesmo assim conquistou uma vaga para o bacharelado em Gestão Ambiental no câmpus Planaltina.

“Passar não é um bicho de sete cabeças como as pessoas dizem. Não é tudo isso: basta ter dedicação, insistir, ter perseverança. É chegar em casa e estudar mesmo”, indica. Um dos seus lemas vêm da Canção do Tamoio, de Antônio Gonçalves Dias, que diz que viver é lutar: “A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravo só pode exaltar.”

O que ajudou na aprovação também foi o hábito de buscar conhecimento. “Se eu via livros e cadernos jogados por aí, eu pegava e lia. Tentava resolver os exercícios. Nunca me deixei enferrujar e também já trazia um embasamento do meu passado”, analisa. Desde os tempos de escola, José Mario, ou Maranhão, como é conhecido na rua, tem facilidade e gosto por geografia, história, química, física e matemática.

“Eu gosto muito dessa área que o curso envolve. Também tem a ver com a natureza”, esclarece. A maior dificuldade foi na redação, em que obteve nota 5 no vestibular. “Em São Luís, aprendi o sistema de redação narrativo, mas, nas provas, é cobrado o texto dissertativo. Tive que aprender a dissertar e a ter coerência e coesão”, lembra.Uma bolsa concedida pelo cursinho pré-vestibular MFE, de Planaltina, foi importante para superar esse obstáculo. “Eu cheguei lá e pedi para estudar porque queria passar na UnB. Eles não me levaram a sério, mas, depois de insistir, toparam me dar um mês e meio de bolsa”, lembra. O diretor do cursinho, Fernando Gonçalves, foi vencido pelo cansaço. “Ele ia ao cursinho incessantemente pedindo para estudar. Nós tínhamos medo pelo preconceito que outros alunos poderiam ter pelo fato de o José ser flanelinha, mesmo assim, decidimos dar uma oportunidade a ele em agosto do ano passado”, conta Fernando.

A chance oferecida logo deu resultados e, em dezembro de 2013, José Mario apareceu entre os aprovados para o curso de geografia no vestibular da Universidade Estadual de Goiás (UEG). “Fui aprovado, mas não classificado, mas foi por pouco. Meu déficit em português fez com que meu desempenho em redação não fosse bom”, lembra. “Quando os professores do cursinho viram que eu estava levando a sério, resolveram me dar bolsa por mais tempo. Estudei, então, até o vestibular”, disse.

A professora de geografia Aracelly Castro foi uma das grandes incentivadoras de José Mário. “No início, ele estava mais inseguro, achava que não ia passar e pensou em desistir. Muita gente o estimulou a ficar. Ele é um aluno muito participativo e não volta para casa com dúvidas”, afirma a professora.

Para as colegas de cursinho Flávia Magalhães, 24 anos, e Marilda Rodrigues, 20, o vigia de carros é uma inspiração. “Ele é um guerreiro e uma motivação para os outros alunos”, afirma Flávia. “Ele é um exemplo e mostra que é possível conciliar trabalho e estudos. Ele não tem vergonha de errar e vai atrás do que quer”, finaliza Marilda.

Para Maranhão, a aprovação no vestibular significa um novo começo. “Eu queria me reintegrar à sociedade ou por meio do vestibular ou por meio de um concurso público. Não estou cheio de glamour, mas estou satisfeito. Tenho a sensação de dever cumprido”, comemora. “Fui a uma igreja evangélica uma vez, e o pastor disse que Deus estava preparando uma universidade para mim. Eu acreditei naquilo piamente. Acreditei, estudei e passei”, conta.

Segundo Maranhão, chegar ao ensino superior é algo que ele deveria ter feito há mais tempo. “Minha irmã, tias, todo mundo da minha família tem nível superior. O meu problema foi que, muito cedo, eu arrumei mulher e filha e fui trabalhar para sustentar a família. Assim, deixei os estudos para trás”.

Pai de quatro filhas com quem não têm contato há anos, veio tentar a vida em Brasília, há nove anos, depois de terminar um casamento que durou 13 anos. “Minha irmã mora no DF, mas não me queria na casa dela. Fui para a rua. Depois, fui trabalhando e melhorando, até conseguir morar de aluguel. Agora, estou morando na casa de uma tia. Isso me deu tranquilidade - e menos despesas - para estudar para o vestibular”, disse.

Segundo José Mário, o faturamento como flanelinha era maior antes de ter de conciliar estudo e trabalho. “Depois que passei a estudar no cursinho, passei a tirar de R$ 800 a R$ mil por mês. Até as pessoas reclamavam que não me achavam mais porque eu estava estudando.” Como aluno da UnB, José Mario pretende deixar de vigiar carros. “Conversei com o diretor do câmpus da UnB Planaltina para saber dos benefícios que eu poderia ter. Posso ter auxílio-alimentação, auxílio-moradia… Vou ir atrás de tudo isso para não ter que vigiar nem lavar carro. UnB é casamento: tenho que me dedicar a ela por inteiro”, brinca.

Entre os planos do calouro para o período de curso está abrir uma roda de capoeira na UnB. “Sempre gostei muito e sou mestre de capoeira. No câmpus Darcy Ribeiro já tem um grupo, mas em Planaltina não. Quero passar a dar aulas lá e tirar algum dinheiro para viver”, planeja. Outra meta é continuar estudando, agora, para outro vestibular. “Vou fazer o curso de gestão ambiental e ficar estudando para passar, pelo Enem, para comunicação social ou direito”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

REGINA Duarte!


A atriz perdeu o medo?



NA CAMPANHA de 2002, a consagrada atriz da Rede Globo, Regina Duarte, protagonizou a histeria obscurantista que na eleição de 1989 havia sido protagonizada por Mário Amato, o então presidente da FIESP.

O objetivo com este método terrorista era impedir, a qualquer custo, a eleição do Lula à Presidência do Brasil.

Em vídeos da propaganda de TV do tucano José Serra, Regina Duarte fazia terror diante da “ameaça” iminente da vitória do Lula: “Eu estou com medo. Faz tempo que eu não tinha este sentimento. ... Isso [a eleição do Lula] dá medo na gente”, dizia ela.

Em 1989, Mario Amato ameaçou que 300 mil empresários abandonariam o Brasil caso Lula vencesse a eleição contra Collor de Mello.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A SUBMISSÃO ao Império!

“Quem tirou os sapatos, de forma subalterna, não foi apenas o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, mas, sobretudo, o governo entreguista e neoliberal de FHC”. Davis Sena Filho


A NOTÍCIA vergonhosa correu pelo Brasil em 31 de janeiro de 2002: “Ministro das Relações Exteriores Celso Lafer tira os sapatos no aeroporto de Miami”. 

Sempre quando tenho oportunidade cito este fato, este humilhante acontecimento para o Brasil e para o seu povo. O episódio é simbólico e retratou o Brasil colonizado, subserviente, dominado e sem esperança, porque autoridades descompromissadas com a grande Nação brasileira se submeteram aos ditames e aos interesses dos países considerados desenvolvidos, notadamente os EUA. Foi vergonhosa a conduta do senhor chanceler Celso Lafer, bem como demonstrou que quem tem complexo de vira-lata é uma parcela de nossa elite colonizada e atrasada, pois acostumada que é em receber ordens e migalhas de quem ela considera ser a Corte. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

AGATHA Chistie!


Agatha Christie

NASCIDA Agatha May Clarissa Millerela se casou em 1914 com o Coronel Archibald Christie, um aviador da Força Aérea britânica. Com ele, teve sua única filha, Rosalind. Durante a Primeira Guerra, Agatha trabalhou como farmacêutica, o que lhe proporcionou, segundo consta, grandes conhecimentos sobre poções e veneno, que seriam mais tarde empregados em suas obras.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

BURROS e humanos!

Georges Bourdoukan, em seu blog:

DOIS burros conversavam quando um perguntou ao outro:

- Imagina você que quando um humano quer ofender a outro humano o acusa de burro. Por que será?

- Não tenho a mínima idéia.
- Quando será que isso começou?
- E quem sabe?
- Realmente é estranho isso...Humano chamar o outro de burro como ofensa.
- Talvez porque chamá-lo de humano fosse ofensa maior.
- Você acha?
- Claro! Você já viu algum burro explorar outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro oprimindo outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro abandonar a cria?
- Não.
- Você já viu algum burro sem teto?
- Não.
- Você já viu algum burro sem terra?
- Não.
- Você já viu algum burro torturando outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro declarando guerra a outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro invadindo o país de outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro matando ou morrendo em nome de Deus?
- Não.

- Então, qual ofensa é maior, chamar de burro ou de humano?

domingo, 8 de outubro de 2017

BACANAL brasileiro!

NOS ESTADOS Unidos, onde o dinheiro e a aparência parecem estar acima de tudo, uma menina de 11 anos morreu anteontem após ser atingida por um soco de uma coleguinha na escola. O motivo? As duas disputavam o mesmo namorado.

Nossa!, pensei, a coisa está cada vez mais preta por lá...

Mas aí eu passei em frente a uma escola pública estadual aqui de Copacabana às sete e dez da manhã e vi que a lavagem cerebral sexista sofrida pelas nossas crianças não é menor do que nos EUA, talvez seja até maior. Boa parte das garotas reunidas na porta do colégio estava com os cabelos impecavelmente feitos e aquelas unhas compridas e vermelhas de rainha de bateria. As pirralhas magricelas faziam caras e bocas para os garotos, também uniformizados e já prontos para aumentar a população brasileira a qualquer momento.

Nada contra a vaidade, mas a precocidade e a obstinação com que nossas crianças entram no mundo adulto é espantosa. Garotinhas de nove anos se portam como mulheres e parecem não ver a hora da primeira transa.

O que leva uma menina de 11 anos pintar os olhos e se emperequetar tanto às seis da manhã para ir a escola? Respondo: o fato de ela só pensar em sexo. Vai à escola apenas para aprender a ser mulher-objeto.

Certa vez, numa entrevista, depois de ouvir por três horas o blá-blá-blá acadêmico da secretária municipal de educação do Rio, perguntei-lhe como ela poderia atuar junto às crianças menores para evitar a gravidez adolescente. A resposta dela foi tão vaga que abortou-me todas as esperanças.

Sem dúvida, é o apelo sexual reinante na mídia, principalmente na TV, onde qualquer hora é hora para exibir cenas tórridas. Aliás, na TV brasileira, a meta é exibir qualquer coisa que impeça o telespectador de acinonar o controle remoto. Pode ser porrada, maledicência, intriga política, sensacionalismo policial, briga de família, humilhação travestida de pegadinha... e isso vai formando o inconsciente coletivo da massa. E a maioria dos pais, educados na mesma cartilha, acha tudo muito natural.

Eu não posso fazer sexo na rua com a minha namorada, é atentado ao pudor. Mas sexo na TV a qualquer hora do dia pode. Agredir alguém caído e sem direito de defesa, além de moralmente condenável, também é crime. Entretanto, se for num ringue de vale-tudo, pode ser atração nacional. Caluniar uma pessoa, famosa ou não, também é contra a lei. Num programa de fofocas vespertino ou num site de celebridades, porém, é entretenimento. Na nova propaganda do automóvel Peugeot, o tenista Guga dirige perigosamente em alta velocidade na cidade, quase atropela dois operários, e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária não fala nada.


Laissez faire laissez passer le monde va de lui même (deixa fazer, deixa passar que o mundo vai por si mesmo, dizem os liberais há séculos). Vai pra onde?, pergunta-se.

Qualquer iniciativa do governo (democraticamente eleito pela sociedade) de colocar um limite nesse festival de deseducação eletrônica é combatida ferrenhamente pelos autointitulados defensores da liberdade de expressão. Outro dia, vi o presidente de uma empresa de TV por assinatura criticando a iniciativa da Ancine de controlar os horários e o conteúdo exibido pelas emissoras. Os cães de guarda desse empresariado apátrida tratam todos que se revoltam com essa lavagem cerebral odiosa como se fossem pastores retrógrados querendo tolher os direitos individuais.

Adequar a grade de cada canal a cabo estrangeiro ao fuso horário local vai sair caro para as operadoras de TV por assinatura. Então, que crianças de quatro anos continuem assistindo a agressões e sacanagem já nas primeiras horas da manhã.

Muitos argumentam que a arma do telespectador para se defender é o controle remoto. Concordo, mas não se deixa uma arma na mão de uma criança, não é mesmo?

Aqui, como nos EUA, querem liberdade total. Dane-se a cabeça das gerações que estão formando. Quanto mais imbecilizadas melhor, quanto mais cedo meninos e meninas começarem a gerar novos futuros imbecis melhor. O número de estupros e de pedófilos cresce geometricamente, mas quem se importa? E, como provou a terceira lei de Newton, a reação a toda essa ação é a onda fundamentalista evangélica que se espalha pelo país. Fizeram tanta confusão na cabeça do Hommer Simpson que o cérebro dele virou Mandiopã.

O que manda é o lucro, o balanço das contas no fim do mês tem que ser positivo. É isso que chamam de livre iniciativa. Caíram de pau no presidente do Equador porque ele deu a jornalistas mentirosos o que eles mereciam: uma condenação judicial. Fazem do venezuelano Hugo Chávez um demônio nos noticiários, mas ele está disputando, nas urnas, sua terceira reeleição.

Acho engraçado esses democratas de almanaque. Querem fazer a população crer que, na nossa bela democracia, o povo manda, porque escolhe o presidente em eleição direta. Só que a partir do momento em que um presidente vai contra os interesses econômicos, ele já não representa mais os que o elegeram e passa a ser um déspota a ser deposto. Muito, muito coerente...

Não somos uma Nação, somos um mercado consumidor, como nosso modelo maior, os Estados Unidos, onde, por sinal, esta semana, mais um garoto entrou no colégio e matou a tiros três coleguinhas...





(do blog Rio Acima)

E eu incluo outro tipo de mídia: a música, não importando o tipo de mídia onde é veiculada. Muita apelação! 


Se alguém me ofender, procurarei elevar tão alto a minha alma para que a ofensa não me chegue. Charles Dickens

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!