terça-feira, 12 de setembro de 2017

QUINTINO Lira!

Cidapar: história de fraude e sangue (primeira parte)  






O CONFLITO começou há mais de dez anos, quando a Cidapar (Companhia Industrial de Desenvolvimento do Pará) elaborou um projeto agroindustrial para a região de Vizeu, no norte do Pará, fronteira com o Maranhão. Para implantar-se ela adquiriu cinco cartas de sesmarias, datadas de mais de duzentos anos, que nunca haviam sido confirmadas nem demarcadas e, portanto, sem qualquer valor legal. Munida dessas cartas, a empresa ingressou com uma ação demarcatória afirmando ter direitos sobre mais de 380 mil hectares de terra.

E num processo fraudulento, conseguiu a sentença confirmando a fantástica grilagem de uma área habitada na época por 40 mil pessoas, espalhadas por 36 povoados. Com a sentença judicial em mãos, a Cidapar conseguiu uma fábula de dinheiro para financiar o projeto. Mas assim que pôs a mão no financiamento abriu falência, as terras foram levadas à hasta pública e terminaram nas mãos de outras empresas, como a Propará, de Joaquim Oliveira, o Banco Real, a Bangu e outras. Revelado o escândalo o governo estadual tentou anular a sentença judicial. 

O Incra habilitou-se no processo, porque havia terras suas também griladas. A Funai idem, pois o grilo atingia as terras dos índios também. O Tribunal Federal de Recursos já mandou anular três dos cinco processos demarcatórios que o caso inclui. Enquanto isso, a Cidapar-Propará desencadeou a perseguição contra os moradores, muitos deles nascidos na área, que é de colonização antiga. Numa madrugada, três anos atrás foi assassinado dentro de sua própria casa no povoado do Alegre, o principal líder dos lavradores Sebastião Mearim.

Os assassinos eram três pistoleiros a mando da Cidapar. Em março passado o vice-presidente da empresa, sr. Fernando Halfen declarava afrontosamente a repórteres e parlamentares em Visita à área que possuía 50 homens adestrados militarmente para "cortar'‘ todas as terras, independente de ordem judicial. 

E que teria tantos homens armados quantos fossem necessários para completar a grilagem.

A região virou um inferno. Os homens da Propará, vestidos com fardamento de guerra na selva e usando helicópteros, sobrevoavam os povoados dando rajadas de metralhadora,
chefiados por um pistoleiro conhecido como capitão James.

Lavradores foram assassinados, casas invadidas, roças queimadas. Homens e mulheres espancados.

Os camponeses de Vizeu durante anos lutaram pacificamente pelo seu direito à terra. Deslocaram-se dezenas de vezes até Belém, em comitivas de até mil moradores, para pedir providências às autoridades. Até que, diante da violência que corria solta, decidiram acabar eles mesmos com a jagunçagem na região.

Um grande número deles organizou-se por povoados e, usando a mata como defesa, começou a dar combate permanente aos pistoleiros.


Aparecem Quintino e Abel, os líderes surgiram daí duas novas lideranças camponesas - Quintino e Abel. Quintino (Armando de Oliveira da Silva), lavrador de Bragança, um município vizinho, que teve sua roça queimada e a casa destruída, intitula-se "gatilheiro, matador de cabra safado''. Diz-se melhor que Lampião, gosta de posar para fotografias com suas armas na mão e de dar entrevistas. Já Abel, lavrador nascido na própria área grilada, diz que sua verdadeira mãe é a mata e que não abandonará a luta dos trabalhadores, porém evita as entrevistas e nunca foi fotografado.

O certo é que sob a liderança de Quintino e Abel os lavradores dizimaram entre abril e julho os grupos de pistoleiros da Propará. 



Segundo informações, teriam liquidado mais de 50 jagunços contratados pela empresa, numa operação que envolveu dezenas de confrontos armados nos quais, apesar de três mortes por parte dos posseiros, a jagunçagem levou a pior.

Duplamente derrotada, no campo e na cidade, nos tribunais e nas matas, a Propará foi bater às portas do aparelho repressivo do regime militar de 1964. Apelou para a indústria do anticomunismo. Agitou o fantasma da subversão no campo e da sublevação popular, e com isso tratou de acionar as forças policiais contra os camponeses.

O governador do Pará, Jáder Barbalho, eleito pelo PMDB, tentou uma solução para o problema comprometendo-se com a Propará a demarcar uma área segundo os limites prescritos nas cartas de sesmarias (uns 110 mil hectares) e entregando o resto aos lavradores. A empresa recusou.

Jáder então pediu ajuda ao governo federal, único com poderes para "desapropriar" o grilo. Entretanto, segundo noticiou a imprensa local, Brasília avisou através do ministro-general Danilo Venturini que só tomaria qualquer medida depois prisão de Quintino e Abel.

Sucumbindo diante das pressões do regime -- para quem o importante é esmagar a resistência popular -- o governo estadual acionou então a enorme força policial para caçar Quintino e Abel, a qualquer preço. (Paulo Fonteles)

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