terça-feira, 12 de setembro de 2017

PARA Vigo me voy!

Floresta amazônica! Nunca ouviu falar?


CONSIDERO o filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, o clássico do cinema brasileiro, e seu protagonista um dos grandes atores do país. O ator José Wilker foi possuidor de vasta filmografia, tendo o artista participado de mais de 70 filmes, na maioria das vezes como principal protagonista. 


Nessa produção Wilker encarna o impagável Lorde Cigano, um artista mambembe, que lidera a Caravana Rolidei, uma trupe de artistas circenses, que circula pelo país em um velho caminhão em luta pela sobrevivência. Além de Wilker, Bety Faria (Salomé) e Príncipe Nabor (Andorinha) compõem a trupe. Mais tarde, os sertanejos Fábio Júnior (Ciço) e Zaira Zambelli (Dasdô), sua mulher juntam-se ao grupo
Na película, de 1979, a história é inicialmente ambientada no Nordeste do Brasil. Logo em seguida, na ilusão da busca de melhores condições de vida , a Caravana Rolidei migra para a Amazônia, chegando a Altamira, Pará, a Princesinha do Xingu. 
Não classifico a obra uma mera comédia, e sim um filme que diz muito da política social brasileira, bem como o complexo de inferioridade de seu povo, que dá excessivo valor às coisas estrangeiras, em desfavor das brasileiras. Ademais, Bye Bye Brasil aborda, não só a miséria material de um Brasil mais pobre, mas também a temática da ecologia numa época em que as problemáticas ambientais nem sequer eram mencionadas no país como hoje. Além, é claro, da denúncia social em si mesma e, o filme apresenta muito mais de um Brasil caboclo, simples e ingênuo, que vai, aos poucos, ficando para trás, perdendo a sua identidade para assumir - ou tentar - uma outra mais sofisticada.
Floresta amazônica! Nunca ouviu falar?
Além dessa expressão, mencionada duas vezes, Lorde Cigano chama a atenção de Ciço, o sanfoneiro vivido por Fábio Júnior, para as condições impróprias do mar da cidade, que tem fezes humanas. Destaca-se a cena em que, ao entrarem na cidade de Maceió, mostra o inferno que são as dificuldades do trânsito de uma capital, em contraste com com ar bucólico das cidades do interior. Paga-se um preço alto pela chegada do tal progresso.
Paralelo às difíceis condições de vida do sertanejo, vão chegando ao seu cotidiano itens da vida moderna como a televisão, razão pela qual a trupe tem dificuldades cada vez mais crescentes em vender sua arte. Artistas como da Caravana Rolidei deixam de ser atração, perdendo cada vez mais espaço para as "espinhas de peixe". 
Ano passado deu mais gente!
Entende-se por "arte" também a prostituição, pois Salomé -- Bety Faria --, além do trabalho como dançarina, também faz um extra vendendo seu corpo:
Venham ver a internacional Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos. Anuncia Lorde Cigano,  diante do prefeito local (um potencial cliente) interessado no corpo de Salomé.

Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado?, pergunta o alcaide da cidade com evidente tom de ironia.
À noite, no espetáculo, Lorde Cigano se propõe em seu show a realizar o maior sonho de um povo sofrido de um país tropical e desigual, que deseja ser igual aos sofisticados países do hemisfério Norte. 
Eu, Lorde Cigano, posso por exemplo tornar real o sonho de todos o brasileiros: eu posso fazer nevar no Brasil. 
Tá nevando no Sertão, tá nevando na minha administração.  É o prefeito da cidade que diz, procurando também tirar proveito da ilusão, frisando que é na sua administração que tal fenômeno ocorre.
Ciente do desinteresse cada vez mais crescente, A Caravana Rolidei então decide migrar para a Amazônia: Altamira, a Princesinha do Xingu, e depois Belém. 
Bastante emblemática é a cena em que um índio, cuja tribo foi dizimada pelos brancos, pergunta a Dasdô sobre o presidente do Brasil e ela dá de ombros, numa frase que podia naquela época ser considerada uma heresia, uma ofensa à autoridade: 

Sei lá! 
E índio também quer ser chique e usa óculos Ray Ban, veste calça Lee e ouve rádio de pilha. Índio quer viajar de avião e, também por questão de sobrevivência, já que é forçado a abandonar sua cultura milenar, acaba se adaptando precariamente às condições impostas pelos brancos. É o caso do cacique, que, em Altamira, aceita um emprego em uma indústria de celulose do magnata americano Daniel Ludwig, o famoso projeto Jari. 
São as mudanças sócio-culturais que o país vai sofrendo, uma mudança que não tem volta, com o povo migrando de vez para a americanização dos costumes, perdendo sua identidade. Bye, bye, Brasil!
Perdendo tudo em Altamira, a sobrevivência do grupo está nas mãos de Salomé, que, para a sobrevivência do grupo, assume de maneira aberta a sua condição de prostituta. Eles assim reúnem recursos para sair da cidade, indo de barco por Belém, onde, por um tempo, continuam a "se virar".
Y para Vigo me voy! 

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