sábado, 30 de setembro de 2017

DEIXE seu filho experimentar o tédio!

Daniel Becker


CRIANÇAS permanentemente distraídas com o celular ou o tablet. Agenda cheia de tarefas e aulas depois da escola. Pais que não conseguem impor limites e falar “não”. Os momentos de lazer que ficaram restrito ao shopping Center, em vez de descobertas ao ar livre. Quais as implicações desse conjunto de hábitos e comportamentos para os nossos filhos? Para o pediatra Daniel Becker, esses têm sido verdadeiros pecados cometidos à infância, que prejudicarão as crianças até a vida adulta. Pioneiro da Pediatria Integral, prática que amplia o olhar e o cuidado para promover o desenvolvimento pleno e o bem-estar da criança e da família, Becker defende que devemos estar mais próximos dos pequenos – esse, sim, é o melhor presente a ser oferecido. E que desenvolver intimidade com as crianças, além de um tempo reservado ao lazer com elas, faz a diferença. Para o bem-estar delas e para toda a família. 

A tecnologia é uma dimensão da nossa vida. Hoje o celular é televisão, loja, livro, cinema, brinquedo, meteorologista, até médico. O problema é a forma como utilizamos essa tecnologia. O excesso do uso do smartphone nos tira do convívio com o outro. Faz-nos mergulhar em uma distração sem fim, que nos remove do momento presente, dos relacionamentos, do afeto. Confunde o tempo de trabalho com o tempo de lazer e família, não preservando momentos fundamentais, justamente o período que deveríamos passar com os nossos filhos. Tira a comunicação, o olhar. As referências anteriores eram os pais e a família. E agora essas referências se diluem e se tornam apenas a mídia do smartphone, que está sempre ao nosso lado. Esse excesso de uso, que nos remove das relações mais importantes, é bastante perigoso.



A consequência quando os pais permanecem muito tempo online



A gente tem se queixado que as crianças ficam no smartphone, mas os pais que oferecem o aparelho aos filhos fazem isso para ter sossego e para eles próprios ficarem no smartphone, para que tenham um pouco de tempo para si. O problema, repito, é o exagero. Há pais que, enquanto examino o filho durante a consulta médica, ficam no celular. Estamos tomados por esses acessórios. Então é preciso analisar o contexto da família. O que está levando a esse excesso de imersão da criança no smartphone? Não adianta colocar toda a culpa na família; precisamos entender o contexto social e, a partir disso, propor mudanças e atitudes transformadoras. Qual comportamento estamos mostrando para os pequenos? Existe relação sem telefone? Onde a gente não leva o telefone? Vamos para o parque sem os aparelhos? Nas viagens de carro, há momentos de conversa? E durante as refeições?

Qual a importância de os pais acompanharem o que as crianças assistem, por exemplo? Repare em todos os desenhos onde existe pai e mãe. Veja como esse pai e essa mãe são representados. É impressionante. Sem teorias conspiratórias, mas muitos desenhos são bancados por publicidade. E a quem interessa dizer à criança que o pai é bobinho? A ridicularizá-lo? Se o papai diz que não é bom, ele é bobo, não sabe de nada. É dessa forma que os pais são retratados em inúmeras animações. Essa desautorização da família vem de um processo midiático e publicitário muito inteligente. Você acha que isso é à toa? Eu acho que a criança pode assistir TV, se os pais estiverem por perto e fazendo uma mediação; se interagir com a criança enquanto ela assiste ao desenho e desenvolver essa visão crítica nela sobre como os pais estão sendo retratados, há salvação. Mas, se a criança está imersa, sem os pais por perto, é muito difícil que não absorva esses valores distorcidos.

O tédio é necessário para desenvolver a mente


A vida urbana não permite que a criança extravase sua energia. Tem criança que fica de oito a dez horas conectada a aparelhos, seja o smartphone, o tablet ou mesmo a TV. Elas não têm mais direito a um momento de consciência. Elas ficam o tempo todo distraídas, ocupadas, ‘ligadas’. E o tédio é a fonte da criatividade. A mente vazia é aquela voltada para si mesma, com pensamentos mais autorreflexivos. É aí que vai surgir a criatividade, e não em uma mente preocupada em consumir conteúdo que só a distrai, como nos celulares. Aula de inglês, vôlei, natação são bacanas, pois a aquisição de habilidades é ótima. Mas desde que venha contrabalanceada com horas livres. A criança precisa de tempo desestruturado para brincar. E não fazer só um roteiro estipulado pelos outros, só absorver as mensagens externas. Ela precisa da possibilidade de chegar em casa e brincar com o que quiser, ou ir para o parque e se divertir como preferir. Brincar sozinho também é uma atividade geradora de inteligência, de criatividade, de lidar consigo mesmo. O brincar é uma arte que simula a vida. A criança que sabe brincar é um adulto que sabe viver. Os pais precisam inserir seu filho em um mundo onde há brinquedos, em que ele pode assumir o papel ativo, criar um roteiro, dizer quem é aquele personagem que inventou. Se você oferece um boneco do Homem Aranha, por exemplo, o roteiro já está dado. Não há imaginação. O tédio não é deixar o filho sem fazer nada. É permitir, por exemplo, que ele possa ficar no balanço de uma pracinha. Sobe e desce. É um momento dela com ela mesma, uma meditação.


As formas de lazer que as crianças têm


Percebo que cada vez mais pessoas preferem o shopping center ao parque. E o shopping nada mais é do que a extensão desse sistema de consumo, de publicidade. O lazer virou consumo, o consumo virou lazer. Nesse centro de compras, a criança vai ter a continuidade das mensagens que recebeu na TV, no celular, no tablet. Ela viu o anúncio do brinquedo e vai chegar no shopping e ir correndo para a loja. Muitas famílias desperdiçam recursos preciosos comprando brinquedos caros que já vêm com o script pronto, não oferecendo um bom mecanismo de desenvolvimento à criança. É uma pena que o lazer esteja se tornando o shopping. A natureza é ótima para a família como um todo. Tenho trabalhado para que esse tema vire uma bandeira de toda a sociedade. O lazer externo traz inúmeros benefícios. Ele afasta um pouco a gente da tela. Não dá para andar de bicicleta, correr ou subir na árvore com um tablet na mão. Também é uma forma de melhorar o convívio direto e interativo entre pais e filhos. Além disso, essas crianças vão ver crianças diferentes, branco vai ver negro, criança pobre vendo criança rica. O convívio com as diversidades gera empatia e compreensão das diferenças. Além, é claro, dos benefícios da própria vivência ao ar livre, o sol, o vento, as árvores. Eles reduzem agressividade, alergias, distúrbios do sono, melhoram a socialização e aumentam a inteligência, além de outros inúmeros benefícios comprovados cientificamente.

Trecho da entrevista de Daniel Becker à Débora Zanelato, do site Vida Simples Digital

DANIEL BECKER é pediatra formado pela UFRJ e mestre em Saúde Pública pela FIOCRUZ. Foi pediatra do Médicos sem Fronteiras na Tailândia e um dos criadores do Programa de Saúde da Família. Fundou e trabalhou no Centro de Promoção da Saúde (Cedaps), ONG que é referência em saúde de comunidades populares. É pioneiro da Pediatria Integral e também atua como palestrante, escritor e consultor de fundações e empresas.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

NÃO EXISTE meritocracia neste país!

Texto de Juíza que desnuda os mitos da 'meritocracia' viraliza nas redes sociais





A "MERITOCRACIA” é o processo de alavancamento profissional e social como consequência dos méritos individuais de cada pessoa, ou seja, dos seus esforços e dedicações.

Quem defende a teoria da meritocracia, acredita que qualquer pessoa possa chegar onde quiser apenas através do seu esforço.

De outro lado, muitas pessoas criticam essa ideia, principalmente em um país cuja sociedade é desigual, racista, machista, homofóbica.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

JUVENAL Flores!

(Continuação da postagem de 27set2017)

A ESSA altura o expediente já se encerrara havia meia-hora e os soldados de serviço no dia já se encaminhavam para a formatura de arriação do pavilhão nacional. Alguns, ao ouvirem a conversa, vieram se achegando e ali permaneceram, quietos, vivamente interessados no caso. Era um grupo bem maior que no dia anterior, quando Juvenal Flores iniciou a contar sua história. Ele, porém, parecia não se importar com a audiência, vez que o caso se tornara público e, pelo tempo decorrido, já havia prescrito. Com o objetivo de dar a versão real dos fatos, continua a narrar o caso.

“No dia marcado para início da punição, uma sexta-feira, nós, cerca de vinte e tantos sargentos, nos apresentamos ao hotel de trânsito para os dias de hospedagem forçada. O oficial-de-dia fez questão da nossa presença na revista de pernoite, o que nos deixava mais embaraçados ainda. Era um vexame maior estarmos ali junto com a equipe de serviço, cabos e soldados, todos sabendo da nossa situação humilhante. Tivemos que entrar em forma e o mais antigo nos apresentou ao oficial de serviço. Dia seguinte, eu estava de serviço ao prédio. O sargento-de-dia tinha acesso a quase todas as dependências, exceção feita ao gabinete do comandante e à seção de informações, cujo acesso era restrito. Fiquei sabendo – procurei saber – antes que o chefe da seção de investigação, um major-aviador, tinha viajado a serviço em missão operacional, como era frequente, deixando sempre a seção aos cuidados de seu encarregado. Abri a seção, entrei e vi que os documentos relativos à punição ainda estavam sobre a mesa do chefe, para serem despachados com o comandante, portanto, sem assinaturas. O major deveria despachá-los com o coronel comandante tão logo voltasse, talvez na terça ou quarta. A via da grade de presos que foi para o oficial-de-dia controlar a nossa presença, esta sim, já estava assinada por ele, o major, pois não precisava submetê-la previamente à apreciação do comandante. Dei uma lida: meu nome e os dos outros estavam lá. Mas o item, a proposta que ia para o boletim, sem assinatura da autoridade, estava lá, passível de ser modificada. Era um risco calculado…”

Relembrando os fatos e os procedimentos, Calixto, por dedução lógica, já tinha certeza do que realmente ocorreu. Mas era deixar que Juvenal, por sua própria boca, desse a versão real do que houve.

“… Voltei à porta da seção, temendo que algum curioso estivesse por aí. Era sábado, não havia ninguém num raio de duzentos metros, dez e meia da manhã, e nem um movimento dos soldados que se revezavam nos quartos de hora; a próxima rendição de soldados só seria ao meio-dia. Trêmulo, com o coração alterado por saber que se me pegassem, seria o meu fim, e o que me restaria era voltar à região missioneira e empregar-me como peão de estância.”

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

JUVENAL Flores!


É FINAL de tarde e o expediente daquele dia se aproxima do seu término. É o período do dia em que quase todos, militares e civis, já se preparam para voltar às suas casas, as oficinas, os hangares, os almoxarifados, o posto médico, a garagem e as seções administrativas, em todos esses locais o ritmo de trabalho vai aos poucos chegando à calma. Muitos já estão trocando de uniforme para, em poucos minutos, entrarem em formação para a chamada de final de expediente e o aguardado “Fora-de-forma, marche!”. Exceção se faz à equipe de serviço e a uma ou outra equipe de manutenção, que prepara as aeronaves para o voo do início do dia seguinte. 

Calixto Wilson, o operador da copiadora, após a rotina de copiar o boletim diário da unidade, pega do bolso um cigarro e o acende; abrindo a porta, sai da sala, pois lá fora o ar está bem mais fresco agora com a aproximação do crepúsculo equatorial. É nesse momento que avista uma figura que não via há muitos anos. Vinha em sua direção com passos lentos e caminhada característica. 

Juvenal dos Santos Flores é então um primeiro-sargento. Ele havia servido nessa unidade há mais de dez anos, antes de ser transferido para a região Sul, e agora está de volta. Na época era um jovem terceiro-sargento. 

Abraçaram-se. 

“Bem, muito bem, obrigado. Pois é, amigo Calixto, há quanto tempo mesmo, tchê! Desde 1975, quando eu fui transferido pra minha Querência amada.” 

Juvenal, a convite do amigo, entra na sala para um café. Entre um gole e outro, Calixto entra no assunto. Queria saber por curiosidade sobre um fato ocorrido naquela época. Nesse tempo Calixto já era operador da copiadora, e por suas mãos, além do boletim diário da unidade, também passavam outros documentos, por isso sempre se mantinha bem informado acerca de quase tudo.

Fez muito furor nos papos de rancho e nos senadinhos que se formavam a cada canto do quartel o caso de um grupo de sargentos que sofreu punição disciplinar por terem fraudado o sistema nacional da habitação. O comandante puniu severamente esses militares, aplicando a cada um deles vinte dias de detenção, com base no número 63 do artigo dez do Regulamento Disciplinar.

“Sei o que o amigo quer saber. É sobre um acontecido há dez anos”, disse o primeiro-sargento, depois de esvaziar a xícara. “Mas antes, lembrei o caso da Marcosa”. Deixa que eu te conte.

A Marcosa era uma concessionária de automóveis, que falira há alguns anos. Ora, certa vez o gerente da empresa apareceu na unidade e ofereceu Chevette, carro recém-lançado, aos sargentos recém-formados. Foram 25 carros zero-quilômetro. O Chevette era uma grande novidade e foi lançado pela Chevrolet para competir com o Fusca da Volkswagen. Até quem não sabia dirigir, ganhou carro novo. Mas nenhum deles pagou uma mensalidade sequer. Resultado: faliram a Marcosa.

“Sim, caro Calixto, e dizem as más línguas que foi a nossa gente a responsável por essa falência. Havia uma turma grande de sargentos novos e um dia o gerente da empresa veio oferecer um Chevette para cada um deles. Mas este amigo não estava entre eles. Quanto ao sistema da habitação, devo dizer antes que fazia anos que a minha situação financeira não era boa. Para ser bem sincero, estava à beira da loucura. Mais quebrado que arroz de terceira. Não sabia o que fazer para pagar as dívidas e ao mesmo tempo sustentar a prenda e a piazada. Quando estava bem, devia a apenas dois agiotas.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

NÃO ao racismo!

Por que nunca precisamos de cotas no futebol?


Por Felipe Carrilho

“NÓS não temos um problema racial. No Brasil, os negros conhecem o seu lugar”, diz um sinistro ditado, que poderia servir de epígrafe para análises de intelectuais conservadores ou mesmo para ilustrar muitos comentários que se lê por aí nas redes sociais em tempos de implementação de políticas reparatórias por parte do governo federal.

Muitas são as janelas que permitem sondar a dinâmica social de um país. Esta coluna procura fazer isso por meio da história do futebol brasileiro. No mês da Consciência Negra, cabe indagar em que medida o processo de integração dos descendentes de africanos no esporte que se tornou uma verdadeira “instituição nacional” pode revelar o destino social que a população negra do Brasil teve no período pós-abolição do sistema escravocrata.

No final do sáculo 19, a intelectualidade do País estava empenhada em discutir a questão da nacionalidade brasileira que tinha na presença do negro, no seu entender, um problema crônico. Optou-se, então, por uma política de branqueamento, na qual o incentivo à imigração europeia para abastecer as lavouras de café e a produção da indústria era fundamental. Para Oliveira Viana, o apologista mais notório da arianização da nossa sociedade, o mestiço representava um atraso inevitável para o Brasil que só poderia ser amenizado com a diluição gradual e progressiva do elemento negro.

Nas décadas subsequentes, apartados do trabalho formal, os descendentes de africanos foram protagonistas no processo de democratização do futebol, cuja prática estava até então reservada para os filhos das nossas elites, encastelados nos clubes grã-finos das principais cidades. Atuando nos times de várzea, com bolas e uniformes muitas vezes improvisados, o negro mostrou competência esportiva e esteve no centro da luta pela profissionalização do futebol, que dava estatuto de trabalhador formal ao jogador.

Em seu livro Corações na Ponta da Chuteira, o historiador Fábio Franzini apresenta uma emblemática disputa ocorrida no dia 13 de maio de 1927. Um jogo que opunha duas seleções, a dos brancos, jogadores das maiores equipes paulistas da Associação Paulista de Esportes Atléticos, e a dos negros, que atuavam em divisões secundárias ou mesmo em clubes da liga amadora. O jogo terminou com a vitória da “seleção negra” por 3 a 2, e o sucesso de público fez com que o encontro fosse repetido por mais de 10 anos, com ampla maioria de vitórias dos negros.

CRISE na Previdência é uma farsa!

COM ARGUMENTOS insofismáveis, Denise Gentil destroça os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previdência Social no Brasil. Em primeiro lugar, uma gigantesca farsa contábil transforma em déficit o superávit do sistema previdenciário, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilhões em 2006, segundo a economista.

O superávit da Seguridade Social – que abrange a Saúde, a Assistência Social e a Previdência – foi significativamente maior: R$ 72,2 bilhões. No entanto, boa parte desse excedente vem sendo desviada para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira – condena a professora e pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ, pelo qual concluiu sua tese de doutorado

A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005 (clique e leia a tese na íntegra).

Nesta entrevista ao Jornal da UFRJ, ela ainda explica por que considera insuficiente o novo cálculo para o sistema proposto pelo governo e mostra que, subjacente ao debate sobre a Previdência, se desenrola um combate entre concepções distintas de desenvolvimento econômico-social.

domingo, 24 de setembro de 2017

SEM perdão para o puxa-saco!

SE HÁ um crime que definitivamente não compensa é o de puxar o saco.

Ontem eu soube que um expert em bajulação foi mandado embora. Não adiantou ele participar da ação de marketing da empresa, perdendo um dia de folga para balançar bandeirinhas pela cidade. De nada adiantaram suas gargalhadas de Fafá de Belém para as piadas sem graça contadas pelo chefe e tão pouco as lágrimas de crocodilo que derramou quando soube que o rebento do manda-chuva levou pau em matemática.

Não há perdão para o puxa-saco, inclusive por parte do chefe a quem ele bajula, este, por sinal, quase sempre acaba sendo seu algoz. Isso porque a bajulação desmedida se torna um fardo para o bajulado. É constrangedor, mas o puxa-saco não tem noção do seu ridículo.

O dia do juízo final do puxa-saco demora, mas chega. Até a data fatídica, ele se mantém puxando outra coisa: o tapete dos colegas. A delação é uma especialidade do puxa-saco, assim como acender fogueiras para queimar a reputação alheia. Nesse último caso, o único perigo é o fogo pegar em sua cara-de-pau.

A razão pela qual um ser humano se dedica a esse papel degradante é que ele sabe que é um incompetente. Mais do que o medo de perder o leite das crianças, o fato de o puxa-saco não confiar em si mesmo é determinante.

O homem pode ser grande, um herói. Por exemplo, quando inventa algo que ajudará a humanidade ou ao realizar proezas atléticas formidáveis. Mas um homem desce ao degrau mais baixo da mesquinharia quando puxa o saco alheio.

Primo-irmão do imbecil, o puxa-saco não contesta, não questiona e jamais pensou em discordar de seu superior hierárquico. Por isso, toda empresa que se alicerça em puxa-sacos vai para o buraco. Mais cedo ou mais tarde.

Dizem por aí que há blogueiros que puxam o saco de seus leitores.

Não sou desses, mas se você por acaso espirrar, saúde! 
(Rio Acima, Marcelo Migliaccio)


O escriba já foi, e não só uma vez, vítima dessa gente da pior espécie. 
É como diz um pensamento atribuído a Indira Gandhi:
 "No mundo há dois tipos de gente: os que trabalham e os que levam o crédito. Fique no primeiro grupo, onde há menos concorrência."


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

sábado, 23 de setembro de 2017

O IMBECIL, para quem ainda não o conhece!

O BEM mais valorizado hoje em dia não é o ouro, nem o dólar, nem o petróleo, nem a cocaína. 

O bem mais valioso na atual sociedade de consumo é o imbecil. 

Um imbecil tem um valor inestimável para o sistema produtivo. Dê-me um imbecil e eu lhe darei o mundo.

Agora vamos à explicação para teoria tão esdrúxula (ok, admito):

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

AÇAÍ com peixe frito!

(Continuação da postagem de 21set2017)
INICIEI a andar de um lado para outro, de um setor daqui para ali, como que a procurar um ponto de partida para o trabalho de que fui incumbido. Assim, saí do refeitório e entrei na cozinha, local úmido e insalubre por natureza; sapateei um pouco e fui à secretaria do rancho, mas nada vi de anormal além de papéis, arquivos, prateleiras e um barulho infernal de máquinas de escrever. Depois de entrar e sair da câmara fria – e isso não durou mais que dez segundos – resolvi então visitar a despensa.

Trazia nas mãos uma prancheta com alguns papéis, que eram os relatórios que o próprio rancho enviava diariamente ao nosso setor. Continham dados e gráficos sobre o consumo de material gasto. Também dispunha em mão do cardápio semanal, um documento com três assinaturas que discrimina as refeições diárias que são usualmente servidas à tropa, café, almoço e jantar, com previsão para segunda-feira até domingo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AÇAÍ com peixe frito!


NÃO me recordo ao certo de quando pela primeira vez ouvi dizer que em rancho* costuma ter desvio de gêneros alimentícios.

Embora tentasse esquecer, me vem, de quando em vez, à memória um caso que me contou um velho taifeiro que veio a trabalhar na mesma seção que eu. Contou-me que anos atrás trabalhava numa secretaria de rancho. Certa feita, ao verificar as notas recebidas, viu que a unidade recebera certa quantidade de arroz de primeira categoria. Achando estranho, pois, pela quantidade recebida do cereal, toda a tropa devia estar comendo do melhor arroz, foi à despensa para conferir. Ao verificar in loco, notou que o produto era de terceira.

POR QUE os EUA são o alvo preferido dos terroristas?


Fez-se vingança, não justiça


Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Iraque, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

JUIZ não é deus!

Senador apresenta projeto de lei que extingue tratamento de "excelência" e "doutor"


LEIA a íntegra (abaixo) do Projeto de Lei do Senado, de autoria de Roberto Requião (PMDB-PR), que extingue os pronomes de tratamento “excelência” e “doutor” para adotar os termos “senhora” e “senhor”.

O projeto de Requião estabelece normas sobre o tratamento protocolar escrito e oral, destinado ou referente aos detentores de cargos públicos.

O que motivou o senador a propor o fim do tratamento cerimonioso para as autoridades, preservando apenas os termos “senhora” e “senhor”, foi a reação da procuradora da República, chamada de querida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante depoimento ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba nesta semana. A procuradora pediu que Lula “não se dirigisse a ela nesses termos, utilizando o tratamento protocolar devido”.

Para Requião, é incabível, na democracia, a continuidade de um tratamento protocolar herdado da monarquia. Na democracia, destacou, todos são iguais, ou deveriam ser.

De acordo com o senador, não é um concurso público que faz alguém merecedor de um título a ser utilizado por todos os outros comuns do povo, pois não se sabe, opina ainda, o que há de excelente em um juiz ou parlamentar. Antes de serem autoridades, frisa Requião, são seres humanos e, como servidores públicos, são devedores ao povo da obrigação de lhes prestar serviço, e com qualidade, sem demandar tratamento majestoso.

Ofereço esse texto legal aos queridos agentes públicos do Ministério Público, do Judiciário, da Polícia Federal e do Brasil em geral. Não são mais que servidores públicos, devendo ser tratados com o respeito que merecem e, da mesma forma, respeitar os direitos sociais e civis de toda a cidadania”, disse.

Com informações da Agência Senado


terça-feira, 19 de setembro de 2017

NÃO ao preconceito!

Boris Casoy é condenado por ofender garis



O APRESENTADOR Boris Casoy e a TV Bandeirantes foram condenados a pagar indenização de R$ 60 mil por danos morais ao varredor José Domingos de Melo, que participou de uma vinheta de ano novo veiculada em um dos telejornais do canal, em dezembro de 2009.

José Domingos conta que se sentiu humilhado pelos comentários preconceituosos do apresentador. “Fui abordado pela equipe da Rede Bandeirantes solicitando que desejasse felicitações de ano novo para veiculação na TV, mas não imaginava que minha participação no programa renderia deboche, preconceito e discriminação”, lamentou.

Na ocasião, após as imagens terem ido ao ar, Casoy – sem saber que o áudio estava sendo transmitido – comentou com colegas de estúdio: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho”.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

NOSSA Língua Portuguesa!


SEM MEDO de ficar discutindo o sexo do anjos, trato neste nosso blogue da invasão abusiva de palavras estrangeiras ao labutar diário do falante da língua portuguesa, habitante humilde aqui deste Brasil nosso. Para tal me utilizo de uma matéria divulgada pela excelente revista Língua Portuguesa (foto ao lado), publicação bacana, supimpa mesmo, que nos foi presenteada pelo professor Xisto Praxedes, um estudioso desta última e tão maltratada flor do Lácio.

O título da matéria é “A fatia estrangeira do idioma”, que apresenta logo a seguir, em destaque, um comentário curto, como uma espécie de subtítulo, “Câmara dá fôlego a projeto avesso a estrangeirismos”. O assunto serve de ilustração a um ensaio de um professor do Departamento de Lingüística da USP, sumidade no assunto, tendo como base um discurso feito por um senador da República em 1998, ocasião em que este protestava contra o excesso de expressões inglesas no idioma. Fala a matéria que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, na época (dezembro de 2007), aprovou projeto de parlamentar proibindo o uso de estrangeirismos no país. O projeto, que tramitou no Senado, deveria ir ao plenário da Câmara. 

Confesso que sobre esse projeto em si não nos interessamos por acompanhá-lo, visto que, provavelmente, não deve ter dado em nada, sob talvez o argumento de que ‘há coisas mais importantes para se votar’. Visualizo nessa batalha inglória algo de quixotesco, coisa assemelhada à visão de um barquinho ao lado de um transatlântico.

Em suma, o professor diz que a língua convive naturalmente com palavras e expressões estrangeiras, e que isso –- a invasão de palavras e expressões estrangeiras -– está longe de lhe causar algum prejuízo. Diz também que as palavras estrangeiras usadas já no cotidiano brasileiro estão plenamente incorporadas pelo falante, e que não têm correspondentes em língua portuguesa, por isso não há problema algum em serem usadas normalmente. Por exemplo, brother não é o mesmo que irmão, tradução literal, mas amigo; book não é igual a livro, e sim um álbum de fotografias que os modelos entregam nas agências, para que se veja como eles fotografam. Entre outros argumentos, diz mais:

“Sobre os estrangeirismos, os que acreditam na desagregação do idioma acrescentam que eles vão descaracterizar a língua. Não é verdade, porque eles não estão atingindo a sintaxe, a morfologia, a fonética da língua. Não alcançam sequer o chamado fundo léxico comum, que individualiza o idioma”.

Língua Portuguesa enriquece a matéria com duas opiniões de artistas sobre a convivência do falante da língua portuguesa com o excesso de estrangeirismos: um totalmente contrário (intolerante, o adjetivo usado na matéria), o paraibano Zé Ramalho; outro, tolerante, – indiferente, eu diria –- apresentado pela revista como favorável, encarando com bom humor essa relação desigual entre a língua inglesa e a portuguesa, o maranhense Zeca Baleiro. Numa leitura atenta, este escriba inferiu que a revista pretende sugerir a seus leitores que o autor da composição “Samba do Approach” não faz objeção ao uso abusivo das palavras inglesas pelo nosso falante comum, não tendo qualquer restrição, apesar de usar de uma ironia fina, em contraponto à opinião do intolerante Zé Ramalho. 

A opinião do professor XP não é bem essa.

Professor XP (Xisto Praxedes) pensa diferente da revista Língua Portuguesa; eu também. Mesmo que não pensasse, quem sou eu para questionar o pensamento de uma autoridade no assunto como o professor da USP, tampouco discordar dos renomados editores de uma publicação conceituada como Língua Portuguesa? Porém, como temos liberdade de expressão, ouso dar meu humilde parecer, como dizia Lima Barreto, e aí vai ele:

Nesse contexto particular da língua, levemos em conta há três segmentos sociais. Vamos a eles, não necessariamente nessa ordem de importância: Primeiro, o falante intelectualizado, inserido num contexto social privilegiado, que muitas vezes pratica o idioma por puro esnobismo, sem necessidade de praticá-lo; segundo segmento, o falante menos escolarizado, que, por conta de uma falsa interação social, pratica a repetição de termos estrangeiros por influência do primeiro e terceiro segmento sociais; terceiro e último segmento, a mídia televisiva e demais meios de comunicação social adjacentes, a agirem como elemento propagador dos termos estrangeiros, interferindo no vernáculo e no falar da sociedade brasileira.

Houve época em que aqui, por este país tropical, o idioma estrangeiro da moda era o francês, língua facilmente assimilável pelo falante brasileiro em razão da abundância de sons oxítonos (brevê, bangalô, guichê ...), como também pelo parentesco. Naquele tempo, o uso desse idioma evidenciava o prestígio social do falante, principalmente o das classes sociais mais abastadas, que podiam estudar na Europa. Porém, até em razão da sua sonoridade, as palavras da língua francesa logo foram adaptadas pelo falante comum para a língua portuguesa, o que não causou danos maiores ao idioma nativo. A imprensa, por sua vez, embora inicialmente elitista, passou a registrar os galicismos da maneira exata como povo falava, dando a mão à palmatória. Mais adiante chegou o inglês, inicialmente patrocinado pela poderosa Inglaterra -– pioneira da Revolução Industrial -– e mais tarde pela ascensão econômica fulminante dos Estados Unidos, favorecidos que foram principalmente pelas consequências funestas das duas grandes tragédias do século XX, que arrasaram o continente europeu.

Com o surto tecnológico, cultural e político concomitante, a língua inglesa tornou-se o idioma do mundo, uma exigência quase impossível ao habitante do planeta Terra de ignorar, sob pena de perder o bonde da História. Inicialmente restrito aos meios mais intelectualizados da sociedade, saiu às ruas com a colaboração dos meios de comunicação, que reverberou o uso indiscriminado do idioma.

Analisemos o primeiro segmento do contexto. Como diz o gramático, filólogo e professor Evanildo Cavalcante Bechara, sobre o uso indiscriminado do idioma inglês, ‘há muito mais esnobismo que necessidade’ (Língua nº 29, p. 16). Sabemos que toda língua é dinâmica, heterogênea, viva, que, entre outras características, pede emprestado a outras línguas expressões e palavras, como diz o próprio professor Bechara. Sobre isso, nenhuma divergência. Pois bem, da mesma forma que palavras como álcool, açúcar, batuque e jibóia, se incorporaram com o tempo ao nosso vocabulário, com as necessárias adaptações de grafia e fonema, de idêntica maneira, um dia, nossos bisnetos poderão vir a escrever anglicismos como blogue, mause, rárduere, niquineime, róialti, e falarem essas palavras com naturalidade, sem que precisem enrolar a língua. Se a tecnologia formadora de opinião assim o permitir.

Perguntemos ao "intolerante" Zé Ramalho se ele tem algo contra se falar em futebol, basquete, biquíni, e certamente o artista paraibano responderá negativamente, nenhuma restrição, pois tais palavras estão totalmente incorporadas ao nosso vocabulário, e, igualmente às de origem francesa, prejuízo algum causam à língua de Camões. Hoje falamos com naturalidade tantas palavras cuja origem nem percebemos: dible, que antes já foi dribbling ("O drible da vaca", Língua 29, p. 65); futebol, que nos primórdios já foi foot-ball; time, que um dia foi team, e gol, que se escrevia goal. Mas não nos esqueçamos de que, naquele tempo, o Sol não se punha no Império Britânico, e, por aqui, a mídia impressa –- mais zelosa com o vernáculo –- reinava soberana. Menos mal que a Inglaterra mandava no planeta, pois, se fosse o filho- – como hoje -– nosso esporte mais popular seria o beisebol ou talvez o futebol da bola oval. 

Ahg!!!

O uso desnecessário de palavras inglesas –- soltas -– dá ao falante das classes mais humildes a falsa ideia de inclusão, sugerindo um prestígio que, na verdade, se resume apenas ao mero esnobismo estéril, fenômeno habilmente explorado pelos fabricantes, comerciantes, publicitários e outros profissionais da área. Um estabelecimento chamado shopping center acaba passando à maioria de seus frequentadores a ideia de status, em desfavor a um outro conjunto de lojas que se chame, por exemplo, Conjunto Nacional ou Pátio Brasil (ambos estabelecimentos existem de fato e estão localizados em Brasília). Essas lojas –- com nome em bom português –- nada ficam a dever aos milhares de shoppings centers, espalhados pelo Brasil a fora e não precisam usar nomes estrangeiros para vender mais.

Vamos ao segmento segundo:

No caso da sociedade brasileira, porém, a invasão indiscriminada do idioma ficou de tal forma vulgar, sem controle, a ponto de o falante comum, gente do povo, o praticar sem que tivesse a menor noção da tradução – literal ou não – da maioria das palavras e expressões. Está na moda e se considera chique quem reproduz uma expressão ou palavra inglesa, e quem não o faz se sente fora do contexto, inferior, ignorante, excluído socialmente. Como exemplo, temos o famoso “x-búrguer”, o sanduíche dos carros de lanche. Ora, a maioria dos falantes comuns não tem a menor noção de que o ‘x’ da palavra se refere a queijo, apenas a difunde como o papagaio, a repetir o que costuma ouvir. Menos mal que, nesse caso específico, a improvisação vale como uma espécie de aportuguesamento do vocábulo estrangeiro original, o famoso jeitinho que o brasileiro dá para sobreviver.

Chegamos, finalmente, ao terceiro segmento: Na maioria dos casos não existe a mínima necessidade de enrolar a língua. Vejamos um exemplo difundido pela televisão e demais meios de comunicação adjacentes. O que quer dizer a sigla AIDS? Respondo: Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida (separei com o hífen o vocábulo 'imunodeficiência' por uma questão de didática). E por que não SIDA, como se escreve e fala nos países de língua espanhola? A resposta é simples: No início da década de 1980, quando se começou a falar na doença, a televisão apenas repetiu - por comodismo, por esnobismo, não sei a razão - a sigla inglesa, sem a preocupação em traduzi-la para a língua portuguesa. O resultado é que todo mundo, no Brasil, fala AIDS e não SIDA.

O uso de outros idiomas interfere na cultura? Sim, claro que interfere. O que dizer do hoje famoso Halloeen (não sei se está certo assim), ou o dia das bruxas, festa juvenil que não existia há vinte ou trinta anos?

Zeca Baleiro

É preciso dizer que se existisse um veículo tão poderoso como a televisão no início do século passado hoje possivelmente não estaríamos escrevendo futebol e sim foot-ball, e assim por diante, da mesma forma como os anglicismos e galicismos hoje tão comuns.
Como ilustração, reproduzimos adiante a letra de Samba do Approach.

‘Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat
Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é high-tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado já foi trash
Fica ligada no link
Que eu vou confessar, my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho engov
Eu tirei o meu green card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop star
Mas já não sou nouveau riche
Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz como Damon Hill
Tenaz como Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Quero jogar no dream team
De dia macho man
E de noite uma drag queen”.

Diferentemente do que pretendeu passar a revista Língua Portuguesa, publicação ímpar no assunto, este escrevinhador não crê que um artista do nível de Zeca Baleiro, deduzindo pela qualidade de suas composições, concorde irrestritamente com essa invasão estrangeira ao nosso idioma, apenas usou as palavras de forma inteligente, numa espécie de sátira ao falante esnobe, colhendo um efeito sonoro sem igual, uma rara figura de estilo musical, característica que lhe é peculiar. Somou o útil (a sátira às pessoas esnobes) ao agradável (o original efeito de estilo musical). Se você não pode vencer o inimigo poderoso, una-se a ele. Isso não significa necessariamente concordância com o mais forte, apenas uma espécie de coexistência pacífica.

Jackson do Pandeiro

A nossa preocupação não é em si com a língua, mas com falante dela. É preciso dizer que, se “o idioma vai muito bem, não está decaindo, não está ameaçado de desagregação nem está corrompendo-se”, como disse o ilustre professor, o mesmo não se dá com o falante da língua, agravado ao das classes mais humildes. Este, mais perdido que cego em tiroteio, vagueando ao sabor das ondas, e acaba por prestigiar uma língua estrangeira em prejuízo do seu próprio idioma, onde verdadeiramente reside sua nacionalidade, como bem disse Eça de Queirós.

O problema é antigo. Já em 1959, o baiano Waldeck Artur de Macedo, nome de batismo do músico e humorista Gordurinha, denunciava a invasão cultural norte-americana nas letras da excelente Chiclete com Banana, um samba-roque imortalizado na voz do paraibano Jackson do Pandeiro, outro autodidata genial. O que o idioma tem a ver com a cultura? A resposta é óbvia, e não preciso nem dizer. Gordurinha diz por meio da música que aceita os costumes norte-americanos desde que eles concordem com os nossos, uma relação desigual desde aquela época. Reproduzimos adiante a letra:

Eu só ponho bebop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba /
Quando ele aprender que o samba não é rumba //
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
( ... )
Quero ver a grande confusão
Olha aí o samba-roque meu irmão
É mas em compensação
Eu quero ver o boogie-woogie
de pandeiro e violão.
Quero ver o Tio Sam de frigideira
Numa batucada brasileira.’


O uso de expressões estrangeiras na música não é nenhuma novidade. Incluo nesta postagem outro exemplo de empréstimo musical. Reproduzimos adiante a letra da música “Pret-a-Porter de Tafetá”, em que o uso da imitação do som de palavras francesas, língua abundante em oxítonas, é habilmente explorado pelo cantor e compositor mineiro João Bosco, que assim produziu um efeito sonoro interessante, divertido e bastante musical. Nenhum protesto, portanto; somente uma brincadeira, talvez sem pretensão política alguma:

“Pagode em Cocotá /
Eu vi a nega rebolar/
Num preta-porter de tafetá /
Beijei meu patuá /
oi sambá oi ulalá/
Mé carrefour /
O randevú vai começar /
Além de me empurrar /
Kes que sé tamanduá /
Purquá jé suí du zanzibar/
Aí eu me criei /
Pas de bafo meu bombom /
Pra que zangar /
Sou primo do Villegaignón /
Voalá e çava patati patata /
Boulevar sarará /
Sou da praça Mauá /
Dendê matinê padedê /
Meu peticomitê /
Bambolê encaçapo você /
Taí seu Mitterrand /
Marcamos pra manhã /
Em Paquetá /
Num flamboyant en fleur /
Onde eu vou ter colher /
Pompadú zulu /
Manjei toá bocú.”/



É lógico que não cultivo ojeriza ao uso, quando necessário, de expressões e palavras estrangeiras, o que combato é o exagero no uso. E se são realmente necessárias e vieram para ficar, que tal aportuguesá-las?

Fiquem com Deus. E vamos às histórias dos subúrbios.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

NÃO ao racismo!

O teste do pescoço


QUER saber se existe racismo no Brasil? Faça o Teste do Pescoço!
1. Andando pelas ruas, meta o pescoço dentro das joalherias e conte quantos negros/as são balconistas;
2. Vá em quaisquer escolas particulares, sobretudo as de ponta como Objetivo, Dante Alighieri, entre outras, espiche o pescoço pra dentro das salas e conte quantos alunos negros/as há . Aproveite, conte quantos professores são negros/as e quantos negros estão varrendo o chão; 
3. Vá em hospitais tipo Sírio Libanês, enfie o pescoço nos quartos e conte quantos pacientes são negros, meta o pescoço a contar quantos negros médicos há, e aproveite para meter o pescoço nos corredores e conte quantos negros/as limpam o chão;

domingo, 17 de setembro de 2017

O EXEMPLO de JK!

Lula, Pimentel e o exemplo de JK


“A HISTÓRIA se repete. A primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Nunca a célebre frase de Marx me pareceu tão atual. Não sem motivos, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, na solenidade de entrega da tradicional Medalha JK, no último dia 12, em Diamantina, lembrou em seu discurso a perseguição sofrida por Juscelino Kubitschek, após o golpe de 64, que o levou a três anos de exílio. Acusavam-no – pasmem! – de ser “o mais corrupto presidente que esse país já conheceu” e execravam-no nas manchetes de rádio, jornal e TV.
Hoje, poucos se lembram, ou têm conhecimento do alegado objeto da corrupção. Um apartamento na Avenida Vieira Souto, no Rio de Janeiro, que segundo os militares e a imprensa legitimadora do golpe, o ex-presidente teria recebido de um empreiteiro amigo. Nada se provou contra JK, é claro, pois o imóvel nunca pertencera a ele -- e assim ocorreu em vários outros Inquéritos Policiais Militares que sofreu. Mas isso pouco importava, pois o objetivo do regime militar nunca fora o combate à corrupção, visto ser aquele um dos governos mais corruptos de nossa história.

sábado, 16 de setembro de 2017

JUIZ não é deus!

Doutor só é quem faz doutorado!


NO MOMENTO em que nós, do Ministério Público da União, nos preparamos para atuar contra diversas instituições de ensino superior por conta do número mínimo de mestres e doutores, eis que surge (das cinzas) a velha arenga de que o formado em Direito é Doutor.

A história, que, como boa mentira, muda a todo instante seus elementos, volta à moda. Agora não como resultado de ato de Dona Maria, a Pia, mas como consequência do decreto de D. Pedro I.

Fui advogado durante muitos anos antes de ingressar no Ministério Público. Há quase vinte anos sou Professor de Direito. E desde sempre vejo "docentes" e "profissionais" venderem essa balela para os pobres coitados dos alunos.

Quando coordenador de Curso tive o desprazer de chamar a atenção de (in) docentes que mentiam aos alunos dessa maneira. Eu lhes disse, inclusive, que, em vez de espalharem mentiras ouvidas de outros, melhor seria ensinarem seus alunos a escreverem, mas que essa minha esperança não se concretizaria porque nem mesmo eles sabiam escrever.

Pois bem!

Naquela época, a história que se contava era a seguinte: Dona Maria, a Pia, havia "baixado um alvará" pelo qual os advogados portugueses teriam de ser tratados como doutores nas Cortes Brasileiras. Então, por uma "lógica" das mais obtusas, todos os bacharéis do Brasil, magicamente, passaram a ser Doutores. Não é necessária muita inteligência para perceber os erros desse raciocínio. Mas como muita gente pode pensar como um ex-aluno meu, melhor desenvolver o pensamento (dizia meu jovem aluno: "o senhor é Advogado; pra que fazer Doutorado de novo, professor?").

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

NÃO ao racismo!

Lugar de negro é no presídio


DESDE ontem, quem entrou no banheiro masculino do Prédio 3 da Universidade Mackenzie, encontrou rabiscado atrás da porta: “Lugar de negro não é no Mackenzie, é no presídio.”

Em que ano estamos?

Segundo uma nota emitida após o episódio pela universidade, estamos em outubro de 2015, mês em que a instituição completa 145 anos de existência, de uma “história de ampliação de liberdades e construção de oportunidades” e de “compromisso com a defesa dos direitos e garantias individuais e coletivos”.

Mas será que seus alunos representam bem esse compromisso? O problema está na pouca dedicação em transmitir esses valores ou na falta de interesse dos estudantes em absorvê-los?


O Prédio 3 abriga a Faculdade de Direito, curso com mensalidade de R$ 1.681,00.

Na página de apresentação do curso no site da universidade lemos que “O Curso de Direito visa obter do acadêmico de direito uma formação humanística que permita conhecer e compreender melhor o meio social, político, econômico e cultural onde possa atuar, além de compreender as desigualdades sociais e regionais do trabalho, do meio ambiente, do consumidor, das políticas públicas e, acima de tudo o papel do Direito no cenário que se apresenta.”

O LIXO na televisão!

Testemunha ocular da escória

ONTEM eu eu vi, com esses olhos que a terra há de digerir, um homem capotar com seu carro e ser lançado pelo teto solar a seis metros de distância.

Vi também uma briga de vizinhos em que um deles, deficiente físico, foi espancado.

Também assisti a um guarda penitenciário dar tiros para o alto dentro de um restaurante lotado. O motivo? Uma garota pisou no pé dele.

E testemunhei um pastor evangélico abusar sexualmente da neta de 12 anos em casa, depois de pregar a palavra de Deus no culto... Havia uma câmera escondida no apartamento.

Ah, ia me esquecendo: vi ainda uma dupla de assaltantes levando duas reféns para comprar artigos esportivos para eles com seus cartões de crédito.

JUIZ não é deus!

Doutor é só quem tem doutorado!

“CHAME-ME de Doutor”, “Me respeite, sou um Doutor”. É “doutor” aqui, “doutor” ali. Nunca uma palavra –- um título acadêmico, para o bom entendedor -– foi tão vulgarizada em nosso país. Quer demonstrar respeito para alguém? Chame-o de doutor. As considerações são do professor Augusto Cesar, que cita como exemplo disso o que ocorreu em uma visita de um presidente brasileiro à Espanha. O cerimonial da presidência da República entregou a lista das autoridades que compunham a comitiva brasileira ao cerimonial do rei. Quando o mesmo já ia se afastando para tomar as devidas providências, retornou e perguntou ao cerimonial brasileiro se todos eram doutores. Constrangimento geral. Foi pedida de volta a lista para que fosse reformulada com os respectivos cargos. Lá, o cargo de doutor tem a mais alta relevância e não é qualquer um que tem o direito de usar o mesmo. Não é dito e nem usado de forma leviana como no Brasil. Confira os argumentos do especialista em cerimonial, eventos e protocolo.

1 - Aqui o problema começa ao se querer fazer um convite, enviar uma carta, uma petição, um cumprimento, e também na conversação em um evento publico ou social onde se encontram autoridades. É comum a pessoa se perguntar qual o pronome de tratamento que deve empregar, em meio as dezenas de expressões que se convencionou considerar as mais respeitosas.

2 - Penso que é uma falsa ideia considerar os pronomes de tratamento como necessários para manifestar respeito pelo cargo público que uma pessoa ocupa. Esses cargos, em uma democracia, são conferidos pelo povo e nenhum deles representa autoridade sobre pessoas; representam apenas responsabilidade pelo cumprimento da lei no setor específico da autoridade respectiva.

3 - O respeito pelo cargo de uma autoridade ou pela autoridade da mesma, ou pela pessoa que exerce a autoridade, consiste em respeitar a lei por cujo cumprimento ela é responsável, e não em chamá-la de doutor ou de excelentíssima. Como dito, os pronomes de tratamento são expressões do distanciamento e da subordinação em que uma pessoa voluntariamente se põe em relação a outra, a fim de agradá-la e ensejar um relacionamento cortês e quem sabe, conseguir algum favor.

4 - O principal pronome de tratamento, consagrado universalmente e o único que as pessoas comuns devem usar como necessária manifestação de respeito, não importa a quem estejam se dirigindo, é “senhor” e “senhora”, usando-se sempre o tratamento direto. A expressão Vossa Senhoria, pela razão acima exposta já emprestaria uma ênfase desnecessária à superioridade e, no meu entender, deveria ser evitada.

5 - O homem comum, mesmo quando se dirige ao Presidente da República (e eu já fiz eventos com três e nunca os chamei de doutor), ou quando fala dele, não deve utilizar mais que senhor presidente. Então, seria perfeitamente polido e respeitoso o tratamento na frase: "Senhor presidente, o senhor pode conceder-me uma audiência?", e o mesmo é válido para o tratamento com qualquer autoridade, inclusive juízes, reitores, deputados e senadores.

6 - É de notar, e isto eu acho muito importante, que também no tratamento que se dá ao reitor de uma universidade pode ser obrigatório o emprego daqueles anacrônicos pronomes de tratamento apenas para os professores e funcionários da universidade, que são seus subordinados, e para a burocracia, se a universidade for federal, estadual ou municipal. No caso de se tratar de uma universidade particular, apenas se o seu Conselho Universitário criar um protocolo contendo tal determinação estaria o seu corpo docente obrigado a empregar o pronome "Magnífico Reitor" ou "Vossa Magnificência". Portanto, nesse caso, se você quer chamar o seu reitor de magnífico com propriedade, apresse a aprovação do protocolo da sua instituição estabelecendo tal preciosismo.

7 - Os alunos das universidades tanto públicas quanto privadas, quando dirigem seus requerimentos ao reitor, não estão obrigados a tratá-lo por "Vossa Magnificência" nem a endereçar sua petição "Ao Magnífico Reitor", uma vez que não pertencem à instituição, apenas a frequentam. O tratamento que devem dar ao reitor é apenas Senhor Reitor.

8 - O emprego indevido de doutor é comum entre a gente mais humilde e sem instrução, e por funcionários mal preparados, que associam a palavra doutor a um status social ou a um nível de autoridade superior ao seu. Essas velhas divisões não são condizentes com a democracia.

9 - É necessário lembrar que não existe lei (recentemente houve um caso de um juiz que baixou uma norma para ser chamado de doutor) que obrigue uma pessoa comum a tratar outra por doutor. Esse tratamento só é obrigatório nos meios acadêmicos para aqueles que fizeram defesas (antigamente pública) de Tese de Doutorado. Muito menos um tratamento discriminatório desse tipo poderá ser um dever de civilidade ou de boas maneiras. Quando estabelecer um novo relacionamento, limite-se simplesmente ao uso de senhor ou senhora

10 - O título de doutor pode ser cassado. O de senhor e senhora nunca!