sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

NOTÍCIA antiga!



Sérgio Serra, ex-presidente do Paysandú (fonte: Internet)

Em rede nacional jornalista da Globo faz denúncia séria


"MEU irmão, Sérgio Serra, acaba de renunciar à presidência do Paysandu Sport Clube (time de futebol de Pará), depois de um episódio traumático que nos abalou a todos. No domingo à noite, ele passeava numa praça em Belém com a esposa, Cristina (sim, minha xará), e o filho mais velho, Gustavo, de 14 anos, quando dois homens numa moto se aproximaram. Um deles, com o rosto encoberto pela camisa, encostou o revólver no rosto do meu irmão e disse o seguinte: “Eu já sei onde tu moras. Se o Paysandu descer pra série C, eu acabo contigo, com a tua mulher e com esse teu filho maluco”. Detalhe, Gustavo, meu sobrinho, é um adorável adolescente autista, um tesouro que temos em nossa família.

Abaladíssimo, meu irmão tomou a única decisão possível numa situação como essa, a renúncia. Como muitas outras coisas no Brasil, o futebol (com poucas exceções), pra mim, há tempos virou coisa de bandido. Já está a tal ponto contaminado que não há o que reformar, recuperar, restaurar, tamanha a putrefação. E dou ênfase: tal como outras tantas coisas no Brasil. Quando meu irmão informou à família que iria se candidatar à presidência do clube, todos lamentamos.

Eu, particularmente, achava um desperdício o Sérgio dedicar o seu talento, sua competência, sua inteligência e seu altruísmo a isso. Mas meu irmão é um idealista, tem um coração de ouro, acredita poder fazer a diferença com seus valores, seu trabalho e sua dedicação. Sou testemunha do quanto trabalhou nestes seis meses, sacrificando o tempo precioso em que poderia estar com a família e sua vida profissional, para se dedicar ao clube que é sua paixão desde a infância.


Infelizmente, vejo este caso, que me toca tão de perto, como uma metáfora do Brasil de hoje, em que bandidos nos ameaçam, nos amedrontam, nos tiram a crença de que podemos contribuir para a construção de algo melhor, nos tiram a esperança em dias melhores.





A quem interessava a renúncia de Sérgio Serra? Quem estava incomodando com a sua postura em não esconder a realidade?

Durante quatro anos, vendeu-se a ideia de que o Paysandú vivia tempos de boa fortuna,  um clube esportivo nadando em prosperidade, um exemplo bem-sucedido de administração de um clube de futebol. E o seu torcedor acreditou nisso.

Estranho!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

ESTADOS Unidos têm quarenta milhões de pessoas na pobreza ou extrema pobreza!



OS ESTADOS Unidos, um dos países mais ricos do mundo e considerado uma “terra de oportunidades”, está rapidamente se tornando campeão de desigualdades, de acordo com o relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e os direitos humanos, Philip Alston.

A pobreza consolidada pode piorar ainda mais com as políticas propostas pela administração Trump, alertou o especialista em comunicado após visita de duas semanas a Califórnia, Alabama, Geórgia, Virgínia Ocidental e Washington D. C., assim como Porto Rico.

“O sonho americano está rapidamente se tornando a ilusão americana, enquanto os EUA têm agora a menor taxa de mobilidade social de todos os países ricos”, disse o especialista independente nomeado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para analisar a situação de pobreza e de direitos humanos nos países do mundo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

ANTÓNIO Nóvoa!

Uma escola que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo


MUITO discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil.


Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores.

Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo”, resume.

Carta Educação: O senhor cobra uma maior participação da sociedade na educação tendo, inclusive, formulado o conceito de espaço público da educação. Como vê esse cenário de sinergia no Brasil?

domingo, 24 de dezembro de 2017

FERNANDO Horta!

Maluf e a chocante covardia que se tornou a justiça brasileira


SOU de uma geração para quem Maluf era o exemplo mais bem acabado do problema do Brasil. Todos sabiam que era corrupto, todos sabiam que roubava, e ainda assim ele fazia tudo e dava gargalhadas sobre nossas cabeças. Maluf ensinou que não se deve mexer com corruptos em altos postos. Era o exemplo da tese do Caligaris no livro "Hello, Brasil". Maluf fazia e o Estado brasileiro, por conivência ou inépcia, aceitava.

Por anos quisemos Maluf preso. Quisemos ver aquele sorriso cínico atrás das grades. Por anos o Estado brasileiro nada fez.

O problema é que quem está sendo preso não é aquele Maluf. Aquele que roubava e tinha desde delegado até presidente para lhe proteger as costas. Aquele Maluf que chamava general de exército pelo apelido. Aquele Maluf sambou na cara do povo brasileiro por décadas. O que está sendo preso é um velho doente, sem mais qualquer ligação ou serventia aos atuais corruptos. O Maluf que está sendo preso é usado como troféu para mostrar como as "instituições brasileiras estão funcionando".

sábado, 23 de dezembro de 2017

LUANA Tolentino!

Professora Luana Tolentino

A PROFESSORA e historiadora Luana Tolentino viralizou nas redes sociais após relatar um caso de racismo sofrido em Belo Horizonte. Na quarta 19, a docente caminhava pela rua quando foi abordada por uma senhora branca que perguntou se ela fazia faxina. Luana escreveu um depoimento sobre o caso, refletindo sobre os impactos do racismo na sociedade.

Luana Tolentino, via Facebook

Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina.

Altiva e segura, respondi:

– Não. Faço mestrado. Sou professora.

Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa.

Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade.

O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura.

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

ESPAÇO Jurídico!

O delegado pode manter preso quem não tem condições de pagar fiança?


Por sugestão de Bruno Lima, via Facebook


A primeira pergunta que me veio à mente e que motivou a redação deste artigo é: poderia alguém permanecer encarcerado somente pelo fato de ser pobre?

Voltando à questão, entendo que não, ou seja, ninguém deve permanecer preso somente pelo fato de não ter conseguido efetuar o pagamento da fiança. Digo isto com base na interpretação que faço da legislação.








ESTE assunto além de ser, a meu ver, atual e relevante, ainda é motivo de divergência entre os profissionais do direito.

Às vezes referida divergência é motivada mais por capricho, tão comum nos meios jurídicos, do que por convicções decorrentes da leitura e do estudo da legislação em si.

Pois bem, recentemente recebi a ligação de um conhecido informando que seu parente havia sido preso em flagrante por ter cometido um furto.

Ocorre que referida pessoa permanecia presa, haja vista que não teve condições de efetuar o pagamento da fiança estipulada pelo delegado de polícia, equivalente a um salário mínimo.

A primeira pergunta que me veio à mente e que motivou a redação deste artigo é: poderia alguém permanecer encarcerado somente pelo fato de ser pobre? 

Afirmo que a pessoa era pobre justamente por acreditar que, acaso tivesse condições, preferiria pagar o valor estipulado a ficar presa. É a partir desta premissa que escrevi o presente artigo.

Voltando à questão, entendo que não, ou seja, ninguém deve permanecer preso somente pelo fato de não ter conseguido efetuar o pagamento da fiança. Digo isto com base na interpretação que faço da legislação, senão vejamos.

O Código de Processo Penal disciplina no artigo 321 e seguintes as hipóteses relativas à liberdade provisória, com ou sem fiança.

De acordo com referido artigo o juiz deverá conceder liberdade quando ausentes os requisitos que autorizam a decretação da prisão preventiva.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

DJAMILA Ribeiro!

Ser negra aqui é ser estrangeira no próprio país




O LIVRO O Que É Lugar de Fala? foi lançado pela pequena editora Letramento, mas atraiu atenção de grandes selos. A autora, porém, pretende manter essa obra – e a coleção que organizou – onde está. Djamila Ribeiro explicou que só vai considerar ir a outras editoras em projetos futuros.



Djamila Ribeiro. Foto: Iara Morselli, Estadão


Feminista e mestre em filosofia política questiona quem tem direito a voz na sociedade

O livro O Que É Lugar de Fala? foi lançado pela pequena editora Letramento, mas atraiu atenção de grandes selos. A autora, porém, pretende manter essa obra – e a coleção que organizou – onde está. Djamila Ribeiro explicou que só vai considerar ir a outras editoras em projetos futuros.

Feminista negra, mestre em filosofia política e ex-secretária-adjunta de Direitos Humanos de São Paulo – na gestão de Fernando Haddad –, a autora tem se destacado como uma das vozes mais atuantes, hoje em dia, em debates sobre questões de gênero e racismo. a entrevista à repórter Paula Reverbel, ela aborda o tema de seu livro: quem tem direito a voz em uma sociedade ainda racista e machista?

Infelizmente o Brasil naturaliza muito a violência. Muitas vezes, quando a gente fala da nossa rotina, as pessoas acham que é exagero. Só vão se chocar quando acontece algo com a filha, por exemplo, do Bruno Gagliasso. Mas falta o entendimento de que, quando a gente fala de racismo, é sobretudo do racismo estrutural. Ligar a televisão e não enxergar pessoas negras… Por que na USP a maioria dos professores são brancos e as mulheres que limpam os banheiros são negras? Por que não tem pessoas negras, enfim, nos espaços de poder?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

JK!


A verdade sobre o assassinato de Juscelino

EM MEADOS do ano passado, um grupo de professores da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e de historiadores da USP decidiu investigar as circunstâncias da morte de Juscelino Kubitscheck. Resultou do trabalho um volume alentado com um conjunto significativo de indícios apontando para o assassinato.

Presidida por Pedro Dallari, a Comissão da Verdade ignorou os estudos. Agora a Comissão da Verdade de Minas Gerais se junta à Comissão da Verdade de São Paulo endossando a tese do assassinato.

Aqui, trechos da reportagem publicada pelo GGN ˆEntenda por JK foi assassinado” em 6 de julho passado, a partir de entrevista com Léa Vidigal Medeiros, coordenadora do projeto.

Juscelino morreu em um acidente de carro em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra, enquanto saía de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. Segundo notícias da época, estava indo ao encontro de uma amante. O veículo, um opala dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, levou uma batida de um ônibus que vinha logo atrás e, no desvio, se chocou com uma carreta que ia em sentido contrário. 

O acidente ocorreu em uma área plana, em linha reta e com um carro novo para a época, pontos que suscitaram dúvidas se o ex-presidente teria ou não sofrido um atentado.

Enquanto preparava sua dissertação de mestrado sobre a importância do BNDES para o desenvolvimento Lea se deparou com o papel do banco na realização do Plano de Metas do governo Juscelino e acabou encontrando documentos esparsos sobre a morte do ex-presidente que revelavam indícios de um atentado planejado no âmbito da Operação Condor, uma aliança político-militar entre os regimes militares da América do Sul com apoio do governo norte-americano. 

Documentos trocados entre embaixadas brasileiras e norte-americanas comprovam, por exemplo, que Juscelino era monitorado pelo serviço secreto norte-americano desde 1963. Nessas cartas os americanos destacavam que ele era o político mais popular da época, com grandes chances de ganhar novas eleições presidenciais. 

A viagem para o Rio foi marcada para encontrar uma velha amiga e empresária portuguesa. JK pretendia fechar um negócio. “Juscelino, naquele período, estava sem um sustento garantido, ao contrário do que diziam, que tinha a sétima fortuna do mundo”. Há provas de que dois dias após o atentado fatal tinha um encontro secreto com generais contrários ao governo golpistas marcado com a ajuda do seu primo Carlos Murilo, que está vivo e prestou depoimento para o Grupo de Trabalho JK. 

“Ele tinha ambição de se candidatar e voltar a ser referência política para o Brasil”, pontuou Lea. Antes de ir para o Rio, JK tinha acabado de voltar de um encontro com governadores da Bacia do Prata e chegou a ficar alguns dias na casa do jornalista e amigo Adolfo Bloch, dono da Manchete. 

Pouco antes do acidente que o vitimou, JK parou no no Hotel-Fazenda Villa-Forte cujo proprietário era o brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, amigo do general Golbery do Couto e Silva e um dos criadores do Serviço Nacional de Informação (SNI). 

Segundo depoimento do filho de Villa-Forte, Gabriel, que estava presente naquela tarde de domingo, o hotel estava vazio e o ex-presidente ficou lá por quase duas horas. Depois ele e o motorista voltaram para a estrada e poucos minutos depois aconteceu o acidente. Um depoimento dado pelo manobrista do hotel, e registrado na época, destacou que o motorista Geraldo Ribeiro estranhou o carro assim que pegou para retomarem a viagem.

A colisão com o ônibus também não teria acontecido. “Tem fotografias revelando que a traseira esquerda do opala, onde a perícia disse que teria sido o ponto de colisão entre o carro e o opala estava inteira no momento seguinte da colisão, mas, no dia seguinte, a polícia fabricou outras fotos com a traseira esquerda avariada. Ou seja, a avaria do Opala que serviu de causa, digamos, do acidente, foi produzida depois do acidente, em algum momento posterior”. Lea afirmou que existem cálculos matemáticos feitos para reproduzir o acidente na época demonstrando que as provas oficiais produzidas para fechar o caso foram “primitivas” e que claramente “adulteram o local do acidente”. 

Antes de perder a vida, JK enfrentou tortura psicológica e assassinato de imagem. O boato de que seria dono da sétima fortuna do mundo, por exempla, foi diversas vezes espalhado em jornais da época como fruto de corrupção de dinheiro desviado da construção de Brasília. Mas a realidade de Juscelino naquela época era outra. 

“O coronel Affonso Heliodoro, que está vivo, contou que o visitou algumas vezes no exílio para levar dinheiro. Ele viu Juscelino contar moedas”. O entrevistador Luís Nassif também lembrou que o banqueiro e empresário Walther Moreira Salles contou que chegaram a fazer “uma vaquinha” para um tratamento médico de JK. 

Segundo Lea, as propagandas falsas contra o ex-presidente foram arquitetadas entre as embaixadas do Brasil e Estados Unidos. “Veículos de comunicação da época, como Jornal do Brasil, repetiam calunias e todas essas histórias falsas como se fossem verdade. Por exemplo, tinham notícias do tipo ‘saiu documentos que provam a corrupção na construção da Ponte da Amizade no Paraguai ‘, e o documento nunca apareceu, mas a notícia estava lá, repetida várias vezes até a exaustão”. JK chegou a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal que o absolveu por falta de provas quanto ao crime de corrupção.


Clique aqui e tenha acesso aos dois volumes do Relatório da Comissão da Verdade Rubens Paiva sobre o assassinato do Presidente JK:

Aqui, a entrevista com Léa Vidigal Medeiros, coordenadora do projeto, para o programa do GGN 'Sala de Visitas com Luis Nassif'. Sua participação começa aos 24 minutos.





Li alguns livros sobre a vida e a obra de JK. Trata-se de um administrador fora-de-série, ímpar, diferente de todos os outros que o precederam. Rejeitou alterar a Constituição da época para que esta permitisse sua reeleição. Juscelino tinha a faca e o queijo na mão: o Congresso a seu favor e, principalmente, o povo. 

Mas, fiel ao seu juramento de cumprir a Constituição, por questão de escrúpulo, preferiu não interferir no curso eleitoral. Passou a faixa a seu sucessor legal, Jânio Quadros (UDN), e esperava tranquilamente o próximo pleito quando se candidataria novamente. A exemplo de outro grande líder popular até então, Getúlio Vargas, ele voltaria. 

E hoje o país seria outro.

Mas  tinha uma pedra no meio do caminho, como bem disse seu conterrâneo Carlos Drummond. No meio do caminho tinha uma pedra!

JK!

Comissão da Verdade de Minas Gerais questiona anistia e põe morte de JK sob suspeita



NO DIA em que o AI-5 completa 49 anos, nesta quarta-feira (13), a Comissão da Verdade em Minas Gerais finalizou quatro anos de pesquisas e divulgou o seu relatório final. Resultado de 222 depoimentos e várias audiências públicas e diligências, com quase 1.800 páginas divididas em cinco volumes, o texto traz entre suas recomendações uma série de ações de promoção da memória, abertura de arquivos oficiais ao público e revisão do entendimento, pela Justiça estadual, sobre a aplicação da Lei de Anistia (6.683, de 1979), que deve considerar sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 2010, segundo a qual crimes de lesa-humanidade não prescrevem. O documento aponta 125 torturadores e quase 100 locais usados para tortura e repressão.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

LÚCIO Flávio Pinto!


O cavalo da China


Jornalista Lúcio Flávio Pinto
O MAIOR projeto concebido pelo governo Simão Jatene, ao longo dos seus 11 anos de duração, ainda não foi executado. É a Ferrovia Paraense, projetada para ter 1,3 mil quilômetros de extensão e custar 14 bilhões de reais. Desviaria para Barcarena um fluxo de carga que poderia chegar a 100 milhões de toneladas, de tamanho equivalente ao da ferrovia de Carajás, construída pela Vale, evitando que ela seguisse para o Maranhão ou para o sul do país.

Se essa obra sair, ela será chinesa. O governo paraense, que vinha conduzindo a ideia, delegou-a completamente a um grupo empresarial do setor ferroviário e um fundo financeiro, ambos da China. Eles estão autorizados a fazer o que quiserem, inclusive sentar sobre a ferrovia.

Uma semana depois que o governador assinou um memorando de entendimento com os novos parceiros, na embaixada da China, em Brasília, no dia 6, o documento foi publicado na edição de hoje do Diário Oficial do Estado.

Para uma obra desse porte, era de se esperar que o governo divulgasse a íntegra do memorial de entendimento, para pleno conhecimento e debate da sociedade paraense. Mas o que saiu foi um raquítico extrato dos documentos relativos à China Railway Nº 10 Engeneering Group e à CCCC South America Regional S. A. R. L..

O objeto do entendimento é “o esforço comum entre os signatários para a implementação de projetos de desenvolvimento de infraestrutura logística, comercial e industrial, com agregação de valores à Economia do Pará e, consequentemente, do Brasil, mormente com a construção e operação da Ferrovia Paraense”.

Ou seja: o governo privatizou não apenas a obra. Foi além: privatizou a função pública de planejamento e gestão da ferrovia e do que mais os chineses entenderem de incluir no seu escopo.

Por quanto tempo? O extrato diz que o memorando entrou em vigência na data da sua assinatura, “permanecendo em vigor até o seu fiel cumprimento, salvo a ocorrência do disposto na Cláusula Oitava ou Nona”.

Quais são essas ressalvas? O cidadão paraense não saberá. Por isso mesmo, o memorando não foi publicado. Talvez porque seus subscritores têm a plena consciência de que é usurpação de função pública por ente privado e um cheque em branco para os chineses.

Se ainda existe Ministério Público e Assembleia Legislativa no Pará, esses dois órgãos, para manter o equilíbrio institucional no Pará, precisam obrigar o chefe do poder executivo a oficializar a íntegra desse perigoso memorial de entendimento. Ele pode ter cometido um ato de lesa-Estado, que não pode prosperar, sem que a sociedade se manifeste – diretamente ou por suas entidades representativas.

Parece que o governador Simão Jatene deixou para o seu final de mandato a maior e mais grave iniciativa. Algo como um presente de grego para os troianos sitiados em sua cidadela pela insegurança pública, um dos maiores legados da administração do PSDB no Pará. (Lúcio Flávio Pinto, Belém - PA)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

TRIBUNAL mantém condenação de Rafael Braga!



Rafael Braga, catador de latas, condenado.
O TRIBUNAL de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) ratificou a condenação do ex-catador de latas Rafael Braga por tráfico e associação ao tráfico de drogas nesta terça-feira 12.

Por 2 votos a 1, o TJRJ negou o recurso de apelação protocolado por advogados do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (IDDH) contra a sentença do juiz Ricardo Coronha Pinheiro que o condenou a 11 anos e três meses de prisão.

O documento questionava a falta de fundamentação para manter Rafael preso preventivamente. Ela é feita com base em depoimentos de policiais militares.

Com a decisão, Rafael Braga deve voltar à prisão assim que terminar o seu tratamento de saúde. Ele encontra-se em prisão domiciliar para tratamento de uma tuberculose até o dia 18 de fevereiro.
Breno Borges, filho de uma desembargadora,
foi apanhado com 130 kg de maconha. Está livre.

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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

EDIR Macedo e o tráfico de crianças!



UM JORNALISTA da TV Globo, com muitos anos de casa, teve um problema com a direção da emissora anos atrás e pensou em sair da empresa, buscar um lugar em outra emissora. “Mas, quando olhei para o mercado, e vi o que havia, a qualidade das concorrentes, pensei: vai ser aqui mesmo. Nas outras emissoras, o ambiente é pior”, pensou.

A declaração desse jornalista vem à memória depois de assistir ao primeiro episódio da série da TVI, emissora de Portugal, sobre um estranho esquema de adoção de crianças mantido pela Igreja Universal do Reino de Deus naquele país. “É ilegal”, diz a reportagem, com base em entrevistas de um juiz.

Sem a Universal, não existiria a Rede Record de Televisão, vice-líder de audiência ao lado do SBT. E não é possível entender a Record sem conhecer a Universal, seus propósitos e sua prática. Nesse sentido, ganha importância a declaração que ouvi de um membro da igreja que conheci quando trabalhei na TV Record, entre 2005 e 2006.

“Eu estava no culto quando o pastor perguntou se havia algum membro da igreja interessado em ser obreiro. Eu levantei a mão e, ao final do culto, outra pessoa nos informou que deveríamos estar na igreja no dia seguinte, às 5 da manhã. Fui para lá, estava frio. Ninguém nos atendeu até as 8. Nesse horário, apareceu uma pessoa na janela e disse que a reunião estava cancelada, deveríamos voltar no dia seguinte, às 5 da manhã. No dia seguinte, voltei e, mais uma vez, a reunião foi cancelada. Isso é uma maneira da igreja ver o quanto você está mesmo disposto a participar da obra, ver se você resiste”, afirmou.

domingo, 10 de dezembro de 2017

TIRIRICA e Aécio!

Duas despedidas, dois palhaços, um país



TIRIRICA subiu à tribuna da Câmara na quarta, dia 6, para fazer ali seu primeiro e último discurso.

O segundo deputado mais votado no país em 2014, com mais de 1 milhão de votos, não pretende mais se candidatar. 

“É triste e o que vi nesses sete anos, saio totalmente com vergonha. Não vou generalizar, não são todos, tem gente boa como em qualquer profissão”, falou para um plenário vazio.

Afirmou não ter feito “muita coisa”, mas atribuiu tudo à “mecânica louca” do Congresso Nacional.

“Estou saindo triste para caramba, estou muito chateado, muito chateado mesmo com a nossa política, com o nosso parlamento. Eu, como artista popular que sou e político que estou, estou bem chateado. Não com os meus sete anos aqui na política”, disse, supostamente emocionado.

“Jamais vou falar mal de vocês em qualquer canto que eu chegar”, garantiu. 

Tiririca passou esse tempo sem fazer nada. Entrou com o mote “pior que tá, não fica”. Ficou. Não apresentou um projeto, não representou sua classe — seja ela qual for. Uma nulidade.

Vivia de selfies tiradas nos cantos do Congresso. Apoiou o impeachment. “Pela Florentina de Jesus, pelo meu cachorro Lulu, pela minha irmã Duculina, pela minha esposa, minha amante e minha namorada, meu filho que vai nascer em 2020, eu voto sim”, declarou.

É um macunaíma, mais um herói sem caráter, como Aécio Neves.

O senador escreveu uma carta ao PSDB dando adeus à presidência do partido após quatro anos em que ele ajudou a arrebentar um país e sua própria sigla.

Denunciado por corrupção passiva e obstrução da Justiça, pilhado em grampos mafiosos com Joesley Batista, ele promete provar “a absoluta correção” de todos os seu atos.

“Venho me dedicando de maneira integral à minha defesa diante das falsas e criminosas acusações de que sou vítima”, escreveu.

“Considero que, no processo de sucessão interna ora em marcha, a unidade, a coesão, a firmeza de princípios – nos cobram, por exemplo, posição clara e corajosa em favor da aprovação da reforma da Previdência ora em debate no Congresso – são os valores maiores a serem perseguidos, a fim de que preservemos, na árdua disputa eleitoral que se aproxima, a coerência que construímos ao longo da nossa história”.

Rir é sempre o melhor remédio, mesmo diante de homens públicos desse nível. É a nossa tragédia nacional, nossa sina. A única maneira de sobreviver no Brasil é não levar esse circo a sério.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CÁSSIO de Andrade!

O livreiro e o poeta entre letras, bancos e baionetas



NO RASTRO do regime militar instalado em 1964, duas expressivas personagens, a despeito de suas diferenças ideológicas, traçaram o caminho da resistência e da mediação frente ao regime discricionário no Pará: o poeta Raimundo Alonso Rocha e o jornalista e livreiro Raimundo Jinkings. O poeta e o livreiro trilharam em experiências e tradições diversas a história comum das letras, dos bancos e das baionetas, sob o signo de um passado de diferenças. 

No âmbito de uma conjuntura econômica e política de modernização forçada, em especial na Amazônia, o retraimento das lutas bancárias e da liberdade sindical se fez visível. Elementos novos se apresentaram no estofo da mediação que as lideranças sindicais bancárias passaram a conduzir com o Capital e o Estado, nas atuações de base e negociais. Durante e após a intervenção militar no movimento sindical bancário paraense, uma específica prática sindical foi assumida por suas lideranças hegemônicas, pelas diversas formas de articulações e confrontos com as políticas nacionais para o setor bancário, nos devidos limites permitidos aos percalços da mediação sindical.

Esta prática sindical refletia a síntese da luta social dos bancários, no contexto histórico peculiar à reinvenção de tradições de lutas, reelaboradas pela mediação. Suas lideranças conduziram junto aos bancos e às baionetas formas específicas de mediação, criando as condições necessárias para a eclosão de táticas e estratégias marcadas por permanências, negociações e conflitos. Nesse espaço de negociações e conflitos, o poeta Alonso Rocha e o jornalista Raimundo Jinkings expressaram os principais grupos hegemônicos no interior do movimento bancário paraense e contribuíram para o devir sindical bancário da resistência e da mediação. 

Raimundo Alonso Pinheiro Rocha, ou Alonso Rocha foi um autêntico representante dos denominados grupos dos “Independentes”. Desde o V Congresso Nacional dos Bancários, em 1954, dedicou-se ao movimento sindical, atuando junto à direção do Sindicato dos Bancários do Pará dirigindo a Federação dos Bancários e Securitários do Norte e Nordeste, representando-a na Confederação Nacional. Fundou a Federação e participou da criação da CONTEC. Foi em Belém um dos organizadores e fundadores do Centro Paraense de Desportos dos Bancários, em 1959, chegando a comandar delegações locais em eventos nacionais do desporto bancário. De 1954 a 1976, foi delegado do Pará em quase todos os Congressos Bancários e Convenções Nacionais de Bancários e Securitários além de intensa participação na organização de encontros sindicais locais durante o regime militar. 

Em todos os eventos, Alonso Rocha foi ocupando posição de destaque, eleito em assembleias ou indicado pelas diretorias do sindicato bancário. Era dotado de profundo conhecimento do movimento sindical, aliando essa habilidade à postura moderada e pragmática, com talento à eloquência, em destaque à verve poética. Defendia a independência dos sindicatos em relação aos partidos políticos, em torno do discurso que procurava relacionar a combatividade corporativa com a tolerância ao espírito democrático em conviver com as diferenças. Junto com outros bancários independentes foi responsável pela sustentação de uma postura ética com as lideranças comunistas da época, mesmo em momentos tão difíceis para a vida sindical local, sem abrir mão de suas convicções independentes, por isso mesmo respeitada entre seus opositores. 

Alonso Rocha recebeu vários prêmios e consagrações como poeta. Após sua aposentadoria do Bank of London, em 1980, dedicou-se exclusivamente à vida literária, abandonando a militância sindical. Foi membro perpétuo e presidente da Academia Paraense de Letras, recebendo o título de Príncipe dos Poetas entre seus pares, em 1987, título este que o acompanhou até seu falecimento em 2011.

Raimundo Jinkings foi a maior expressão dos comunistas no movimento sindical bancário e no movimento sindical como um todo, no Pará. Entrou no BASA em 1951, onde iniciou sua militância política e sindical. Sofreu perseguições políticas dos grupos conservadores locais, sendo obrigado a atuar no Maranhão por conta disso entre 1955 e 1961. Ao retornar ao Pará, participou de intensa atividade sindical, em torno das posições assumidas nacionalmente pelo PCB, principalmente a defesa da luta pela unidade das forças democráticas e do pacto sindical-camponês, atraindo para si a oposição das elites conservadoras e rurais da época. 

Junto a Cléo Bernardo, Rui Barata e Eidorfe Moreira, Jinkings contribuiu para a fundação do Partido Socialista Brasileiro– PSB no Pará. Participou do Comando Geral dos Trabalhadores – CGT em 1961, como representante do Sindicato dos Bancários do Pará. Foi também militante político no movimento dos jornalistas e a partir de 1963, atuou com Benedito Monteiro na tentativa de organizar os sindicatos de trabalhadores rurais na luta pela Reforma Agrária, sofrendo por isso intensa perseguição política e policial após 1964, junto com outros militantes do PCB. Após a Abertura democrática, anistiado, manteve sua atuação entre os comunistas, desenvolvendo também intensa atividade de livreiro até seu falecimento 1995.

A descrição de traços de tão distintas biografias evidencia a importância que comunistas e independentes assumiam no devir sindical bancário. Indica também elementos para se compreender as razões que possibilitaram à hegemonia destes últimos no Sindicato dos Bancários do Pará até a consolidação do Estado discricionário no país. No uso de suas diferentes estratégias construíram processos sociais diversos nas relações com o capital e o Estado, reveladoras de conflitos e tensões. No que pontuavam negociar, construíram relações negociadas, mas nas tensões com as bases, atuavam nas tênues fronteiras do conflito.

Entre o ativismo clandestino de base de Jinkings e as negociações acordadas de Alonso construíram o livreiro e o poeta um enredo de representações nas quais se constituíram como atores sociais e sujeitos de sua própria história. Em histórias entrecortadas e cruzadas por caminhos diversos, entre a institucionalidade e a recorrência a direitos, teceram os fios de sua condição militante e bancária sob lógicas próprias, mas por interesses comuns em suas experiências. O tornar-se bancário os articulou e nesse construto mediaram identidades nas lembranças rememoradas das letras e nas ações partilhadas que as experiências e tradições amalgamaram em seu fazer-se. Trouxeram ao mundo das letras, nos livros e na poesia, os riscos e as aventuras das incertezas entre bancos, espadas, letras e baionetas.

(O Texto, aqui editado, foi publicado no Diário do Pará em agosto de 2014 na semana de comemoração de aniversário de 32 anos do jornal)

Cássio de Andrade, via Facebook

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

LÚCIO Flávio Pinto!


As falcatruas de Duciomar


A ORGANIZAÇÃO criminosa chefiada pelo ex-prefeito de Belém, Duciomar Costa (foto ao lado), era integrada por pessoas que se vincularam a ele, em praticamente toda a sua vida profissional, gravitando entre cargos públicos e empresas privadas que dependiam diretamente dele, tanto no exercício do mandato de senador (2002-2004) quanto no de prefeito de Belém (2005-2012)

A partir da gestão municipal de Duciomar, essas pessoas se tornaram titulares de empresas que foram contratadas pela prefeitura, direta ou indiretamente, com uso de recursos de variadas fontes, dentre os quais verbas federais. Até então, tais pessoas não possuíam capacidade financeira para serem responsáveis por empresas que, repentinamente, passaram a receber um volume significativo de recursos públicos, em contratos diretos com a municipalidade ou em subcontratações por empresas que venceram ou tiveram dispensadas licitações.

As primeiras empresas investigadas pelo Ministério Público Federal, que é a fonte das informções usadas neste texto, foram Metropole Construçoes e Serviços de Limpeza e SBC/Sistema Brasileiro de Construção Ltda. (antiga Varanda Sistemas de Habitação Ltda). Elas teriam recebido elevados valores em contratos públicos, repassando esses recursos a outras empresas supostamente subcontratadas, chegando, por fim, ao grupo do qual faz parte o ex-prefeito, em posição de liderança.

O MPF diz já ter indícios de materialidade e autoria para alguns crimes praticados:

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

DAS SENZALAS aos estúdios!


Como uma criança negra pode adquirir uma cidadania completa vendo o negro ser exibido cotidianamente – salvo raras exceções – como escravo, assalariado subalterno ou bandido?



UM JORNALISTA da Rede Globo diz com todas as letras que a buzina de um carro nas proximidades do local onde realizava uma entrevista “era coisa de preto”. Outro, colocado pelo governo golpista no cargo de presidente da Empresa Brasil de Comunicação, divulga em pleno horário de trabalho mensagens racistas através da internet.

Parecem fatos isolados, originários de comportamentos individuais doentios. Mas não são. Refletem o racismo arraigado em amplos setores da sociedade que volta e meia vem à tona fazendo-nos lembrar que mais de 300 anos de escravidão não se apagam tão facilmente.

O Brasil depois da abolição não viveu a segregação institucionalizada dos Estados Unidos ou o apartheid da África do Sul, onde a discriminação racial era explicita. Aqui os negros ao conquistarem sua libertação tornaram-se cidadãos formalmente iguais a todos os outros. Apenas formalmente. Na vida real deixaram os grilhões que os prendiam aos senhores para serem jogados na vala comum da miséria, quando não da indigência.

Refletindo sobre esses acontecimentos, o abolicionista Joaquim Nabuco deixa tudo isso claro. Escreve no livro Minha Formação que o movimento contra a escravidão no Brasil “era um partido composto de elementos heterogêneos capazes de destruir um estado social levantado sobre o privilégio e a injustiça, mas não de projetar sobre outras bases o futuro edifício”.

E mais. Dizia que a realização da obra abolicionista “parava assim naturalmente na supressão do cativeiro; seu triunfo podia ser seguido, e o foi, de acidentes políticos, até de revoluções, mas não de medidas sociais complementares em benefício dos libertados, nem de um grande impulso interior, de renovação da consciência pública, da expansão dos nobres instintos sopitados”. Para Nabuco, “a corrente abolicionista parou no mesmo dia da abolição e no dia seguinte refluía”.

Refluxo com consequências que chegam aos nossos dias através das estatísticas recorrentes mostrando as discrepâncias de renda entre a população branca e negra ou da constituição da população carcerária brasileira formada em sua absoluta maioria por negros e pardos.

São dados reais e palpáveis aos quais se associam outros, de caráter simbólico, como o da ausência ou da sub-representação do negro na televisão, especialmente na publicidade e em telenovelas. Fato que levou uma dinamarquesa a dizer que há mais negros na TV do seu país do que na televisão brasileira.

Como formar uma identidade negra se os espelhos refletem imagens que não correspondem a ela. Em outras palavras, como uma criança negra pode adquirir uma cidadania completa vendo o negro ser exibido cotidianamente – salvo raras exceções – como escravo, assalariado subalterno ou mesmo bandido?

Do mesmo modo formam-se identidades brancas fundadas na ideia da superioridade racial. Constituem-se mentalidades que diante do cerco simbólico racista naturalizam a relação desigual revelada em situações as mais variadas que vão de comentários e pretensas piadas à escolha, pela cor, das pessoas abordadas nas ruas por agentes policiais.

No telejornalismo a situação é a mesma. Apresentadores negros contam-se nos dedos e atrás das câmeras a situação não muda. No jornalismo em geral as redações são formadas praticamente apenas por brancos. São eles que falam sobre os negros, sobre suas alegrias e angústias. A vivência negra, dessa forma, aparece na mídia atravessada por intérpretes brancos que por maior boa vontade e retidão de caráter que possuam nunca conseguirão transmitir o que os negros sentem na pele.

O pior é que além de praticamente não existirem nas redações, os negros nem sempre são tratados por brancos capazes de entender o drama do racismo. Ao contrário, o difundem sem a menor autocrítica como demonstram os exemplos recentes citados acima.

As duas agressões mencionadas possuem como ponto comum o fato de terem sido cometidas por profissionais da comunicação, ambos colocados em posições públicas onde atos e palavras causam larga repercussão. E por consequência implicam em maior responsabilidade, algo ao que tudo indica desprezado por seus autores.

O antídoto a esse estado de coisas é a denúncia ampla e rápida dessas violações da dignidade humana, envolvendo todos aqueles que lutam contra o racismo no país. Nesses casos recentes, foi essa reação que determinou o imediato afastamento do apresentador de TV das telas e a investigação pela Comissão Ética Pública do governo federal do comportamento adotado pelo gestor da Empresa Brasil de Comunicação. Não deixa de ser um alento.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AMANHÃ os pássaros cantarão!





Luzes da Cidade



HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas e nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, com sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas de cinema.

Charlie (um hipocorístico de Charles, que ele costumava usar e pelo qual era mais conhecido) fez de quase tudo no cinema. Foi escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs música, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica “Luzes da Cidade“, de 1931, mais uma obra imortal do genial Chaplin. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que há quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entrava na era do cinema falado. Não obstante, o filme foi um campeão de bilheterias.

Sim. Porque há obras de arte que precisam e merecem ser vistas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam; por tais motivos merecem ser apreciadas pela vida inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, a poesia e o sonho, como que em mágica, se reapresentam, revelando-se cada vez de uma faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil .

São clássicos e os clássicos não morrem jamais.

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, por não ter onde morar, vagueia pela cidade, dormindo em qualquer lugar e comendo do que conseguir. Numa tarde uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela, e, por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, acaba se passando por um homem de classe social abastada. À noite, ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, um magnata, que lhe oferece eterna amizade. “Amigos para sempre”, diz o agradecido, ébrio, infeliz e desmemoriado ricaço. O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa, leva o Vagabundo para casa, e de lá, após condignamente trajados, para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes ricos, acaba por protagonizar várias trapalhadas, além de transgredir as regras.


Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o poderoso não o reconhece, mandando que seu mordomo expulse Carlitos da casa: “Quem é esse aí, que eu não conheço?”

Há muitas pessoas volúveis. O ser humano se comporta em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as variações de humor. No caso, a ingestão do álcool provoca sensíveis mudanças de comportamento nas pessoas.

Sabe-se que há indivíduos que, uma vez em estado de embriaguez, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, em vez de seguros e econômicos; se são mesquinhos, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos quando sóbrios. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Aí, sim, desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, some o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros, relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, que foram convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, além de fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, podendo passar a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que as diferenças não existem. A partir daí, deixam de representar obstáculos as muralhas da etnia, da religião, da convicção política, da classe social.

No caso apresentado por Chaplin em “Luzes da Cidade” existe uma enorme disparidade sócio-econômica entre o magnata e o vagabundo. Este nada tem, enquanto àquele de material nada falta: possui casa de luxo, tem empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social, títulos, além de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que o vil metal não pode comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar. Ainda assim — também por influência da bebida –, um tenta tirar sua própria vida, ao passo que o outro o salva, e salva sem exigir nenhuma condição ou pagamento, malgrado seja um necessitado.

O homem, possuindo tudo de material, é incapaz de ter aquilo que o dinheiro não pode comprar, qual seja, um amor sincero, a amizade verdadeira, a paz de espírito e o conforto espiritual. Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin criou um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o vagabundo, ele, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, praticando o verdadeiro amor cristão, embora não se saiba ser religioso. E, para ele, a vida é importante, reconhecendo no outro alguém um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. “Amanhã os pássaros cantarão!”, isto é, não se mate, meu irmão, porque vale a pena viver.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, doa o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. Enquanto isso, ele é preso e passa muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais manda que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado…

Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre, embora constituída de homens poderosos.

Mas amanhã os pássaros cantarão!