quinta-feira, 22 de março de 2012

POTENCIAL de Consumo das Torcidas Brasileiras

Conspirações e que tais

ÀS VEZES é divertido soltar umas teorias com incríveis e elaboradas conspirações contra isso, a favor daquilo. Damos asas à imaginação e nos divertimos, geralmente com um pastelzinho e um refrigerante ou suco ou outra bebida de cunho social. Acontece, porém, e cada vez mais, que a brincadeira toma conta de toda conversa e ganha tons raivosos, assumindo ares de verdades absolutas, abrindo caminho para manifestações cada vez mais radicais e mais distanciadas dos fatos, da realidade.

Ninguém está aqui para conspirar a favor do Corinthians e contra o Flamengo, ou a favor do Flamengo e contra o Corinthians. Menos ainda a favor ou contra o Vasco da Gama ou quaisquer outros clubes.

Pesquisas reproduzem a realidade. Sim, não são perfeitas, obviamente, por isso mesmo há margens de erro, mas retratam a realidade de forma boa o bastante para que decisões as mais diferentes sejam tomadas.

Pesquisas com base em amostras da população, são usadas em todo o mundo embasando as mais diferentes decisões, desde alocação de verbas governamentais (isso ocorre no Brasil a partir de trabalhos do IBGE) até sobre quanto pagar para uma empresa ver seu nome estampado numa camisa de um time de futebol.

Porque a nossa percepção da realidade é sempre muito limitada e subjetiva, e porque ela, a realidade, é imensa, sofisticada e diversificada demais, somente com ferramentas como essas podemos ter uma visão relativamente mais ordenada da mesma, permitindo-nos decisões mais corretas ou menos incorretas, em todos os níveis e campos.

Vamos, então, ao post, que é a parte final desse trabalho cujo objetivo foi dar uma visão do potencial de consumo das torcidas de futebol do Brasil.

Potencial de Consumo das Torcidas Brasileiras – Parte IV – Final

O Potencial de Consumo

Em sua apresentação dessa parte final, a Pluri Consultoria destaca que o potencial de consumo depende de três fatores principais:

1) Da renda do torcedor;
2) Da disposição para consumir;
3) Da oportunidade de consumo.

Tendo a renda estimada, como vimos no post anterior (lembrando que ela foi estabelecida a partir dos dados de renda individual do IBGE), é preciso definir quanto desta renda o torcedor está disposto a destinar a produtos e serviços direta ou indiretamente relacionados ao seu clube. Aqui, mais uma vez, contamos com a providencial ajuda do IBGE, que em suas pesquisas mensura o quanto da renda do brasileiro se destina a cada grupo de gastos (segmentado por região), permitindo melhor qualificar o percentual da renda dos torcedores que se destina ao consumo de produtos e serviços relacionados aos clubes de futebol. Outra variável fundamental, como já foi dito nesse trabalho e de acordo com a metodologia empregada, é a localização geográfica do torcedor, que tem a ver diretamente com a oportunidade de consumo. Portanto, quanto mais próximo do clube estiver o torcedor, em sua função consumidor, maior será a sua disposição ao consumo.

Outro ponto importante a ser destacado é que este potencial de consumo está disponível não apenas para os clubes (na verdade eles ficam com a menor parte), mas para todos os envolvidos no universo relacionado, como empresas patrocinadoras, fornecedores de material esportivo, varejo esportivo ligado a clubes, empresas fabricantes de produtos licenciados, empresas de mídia envolvidas em transmissões esportivas, etc.


Como podemos ver na tabela acima, o Potencial de Consumo total dos clubes brasileiros, chega hoje a 1,5 bilhão de reais por mês, o que representa cerca de 1,2% da renda dos torcedores.

Graças ao seu mix de distribuição geográfica e tamanho, o Corinthians é o clube que lidera esse item, com um potencial estimado em 450 milhões de reais mensais, valor bem acima do segundo e terceiro colocados, praticamente empatados: São Paulo e Flamengo, com 289 e 288 milhões, respectivamente.

Os 14 maiores potenciais são de clubes do Sul e Sudeste. Bahia e Sport, praticamente empatados, lideram a relação dos demais clubes, com 21 milhões de reais mensais.


Vimos na primeira tabela que Flamengo e Vasco, com 49% e 45% respectivamente, são os dois clubes com a maior parcela de potencial de consumo oriunda de outros estados que não o de origem. Nenhum outro clube atinge sequer a marca de 30% nesse ponto.

Observação do OCE: o que hoje é limão, amanhã pode ser limonada. Há uma clara tendência de maior crescimento da economia e renda da população nos estados com economias menos desenvolvidas, fator que, a médio e longo prazo, será benéfico para pôr o potencial de consumo desses dois clubes em um outro patamar.

Nessa última tabela, com a renda per capita dos torcedores, podemos ver o peso que a distribuição geográfica das torcidas representa para o potencial de consumo. O potencial de consumo do torcedor vascaíno no estado do Rio de Janeiro que é de 24 reais mensais, cai para pouco mais da metade quando somado ao potencial de consumo dos torcedores dos demais estados.

Indo para o oposto, clubes como Avaí e Figueirense, sem torcedores fora de seu estado de origem, que apresenta excelente relação PIB/população, mantém seu potencial de consumo no máximo, o que faz desses dois os clubes com maior potencial de consumo por torcedor do Brasil.

Índice de Propensão ao Consumo do Torcedor – IPCT

Para levar a cabo esse trabalho de acordo, a Pluri criou esse índice, que vem a ser a combinação de fatores geográficos e sócio-econômicos. Os fatores geográficos são a localização do torcedor e sua distância em relação à sede do clube. Para os analistas da empresa, quanto mais próximo estiver da sede, maior será a propensão do torcedor a comprar produtos ligados ao clube. Os fatores sócio-econômicos são, principalmente, sexo, idade e renda do torcedor, individualmente.

Vemos um fator interessante: sete dos oito melhores colocados têm o grosso de suas torcidas em cidades com alto nível de desenvolvimento, excelentes IDH e economias de peso mais que respeitável: Florianópolis, Curitiba e Campinas.

Nesse quesito, o Flamengo acaba por ser o clube mais prejudicado em função de três fatores que se somam: grande percentual da torcida fora do estado de origem, grande peso de torcedores de estados com economias de menor porte e parte de seus torcedores com perfil sócio-econômico de baixa renda (classes C, D e E – ver posts do Olhar Crônico Esportivo na categoria Pesquisas – Tamanho de Torcidas). O fato de ter a maior torcida do Brasil ameniza o peso desse índice, naturalmente.

Palmeiras e Vasco apresentam excelentes perfis sócio-econômicos, mas a forte influência da parte da torcida localizada em outros estados afeta o resultado final dos dois clubes.
Considerando a região Nordeste, o Vitória apresenta a torcida com o melhor perfil sócio-econômico, ao passo que Santa Cruz, Fortaleza e Ceará apresentam os mais baixos perfis nessa categoria.

Informações e análises como essas que vimos nesses quatro posts, são usadas há bastante tempo pelas empresas com interesse no futebol e também pelos clubes com departamentos de marketing atentos à realidade e com visão de futuro.

A Pluri inovou em alguns pontos e em outros colocou à disposição do mercado mais uma fonte de informações. É importante termos em mente que decisões de mercado são sempre tomadas com base no maior número de informações possível. Ou seja, nenhum trabalho por si só representará toda a “verdade”, seja do mercado, seja do perfil de uma torcida, seja do valor de uma camisa como veículo, ou mídia, para uma marca.

O futebol brasileiro se profissionaliza e cresce como oportunidade de negócios para as empresas. O crescimento do volume e diversidade de informações a seu respeito, assim como a aparição de novas empresas ligadas à produção dessas informações, são frutos diretos das transformações por que passa o futebol brasileiro fora dos gramados.

A intenção desse Olhar Crônico Esportivo, desde seu início, foi e continua sendo, manter o leitor, o torcedor, não só atualizado, mas também capacitado, dentro de nossas limitações, a compreender essa realidade em transformação. (Emerson Gonçalves em Olhar Crônico Esportivo) 

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