terça-feira, 6 de dezembro de 2011

SÓCRATES, ainda


 

MEU COLEGA SÓCRATES


ESPEREI um pouquinho para escrever sobre Sócrates. Por isso vou contar coisas que não li.

Sócrates estava concluindo a medicina em Ribeirão Preto e jogando pelo Botafogo. Veio um jogo contra o Corinthians no Pacaembu, mas ele não conseguiu adiar a prova que faria naquela 4ª feira. Só teve um jeito : táxi, que parou junto ao portão principal. Era desconhecido ainda como jogador. Nem tentou ingressar mesmo porque o acesso dos atletas era pelo portão do tobogã. Calmo ( como sempre) e prático, comprou ingresso, passou pela catraca e foi para o alambrado. O policial mais próximo não acreditou na sua conversa, veio um superior e foi feito o acordo. Sócrates pulou o alambrado e atravessou o gramado com aquela sua corridinha marota, como um cavalo de sangue caipira fazendo o cânter de apresentação antes de um grande prêmio.  Soberbo . Confiante. Quando chegou ao túnel, o time do Botafogo já estava pronto. Deu tempo. Trocou de roupa, jogou e arrebentou ! Vicente Matheus, que assistiu tudo, decidiu-se. “Vou trazer essse magrão para o Corinthians e custe o que custar” . Não sei quanto custou , mas compensou.
No futebol do final dos anos 80, meia era meia, armador era armador e centroavante era centroavante. Mas Sócrates enxergava tudo diferente disso. Ele reinventou um jeito bonito de se jogar bola. Ia sem pressa para todos os pedaços do campo, não dava pontapés, não simulava faltas e de repente estava na frente do goleiro. Ali não se apavorava e fazia gols como se estivesse brincando no quintal da sua casa. Lembra de Brasil x Itália em 82 ? Aqui no Pacaembu, cansou de fazer isso. Há um gol desse tipo, antológico contra o Taubaté.
A anatomia humana preparou o bote para Sócrates. Pela sua altura um pouco acima de 1,90m, era imaginável que calçasse 43-44. Mas que nada. A chuteira 40 era seu número. Ou seja, era uma vareta com pouca base de sustentação. Então, para não ter desequilíbrio ao girar o corpo, passou a passar e chutar de calcanhar e foi o melhor de todos que eu vi nesse quesito. Fantástico.
Quando eu trabalhava no Controle Antidoping, conheci melhor o Sócrates. Nenhum jogador gosta de ser sorteado. Sócrates transformava o sorteio do seu nome num piquenique com cerveja. Chagava e jáa ia avisando. Fiz xixi no vestiário agora mesmo e portanto só vou ter vontade de novo daqui umas 4 horas.  Ia abrindo as cervejas com um ritual de risadas e de contar causos, como só ele contava. Ri muito. Aprendi muito com ele.
Não há na história do futebol nenhum movimento político tão inovador e tão responsável como o da Democracia Corintiana em que o socialista Sócrates foi o autor e personagem ao mesmo tempo. Não por acaso, Zé Maria, Wladimir e Biro-Biro lançaram-se na política após a carreira, porque aprenderam com o Magrão da Democracia.
Para o texto não ficar comprido, amanhã eu conto o resto. (blog do Dr. Osmar de Oliveira)

Aguardemos o resto da prosa.

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