quarta-feira, 26 de outubro de 2011

BAIRRISMO, não!

Felipe dos Santos Souza

BASTOU sair a organização da tabela da Copa de 2014 para haver uma crítica unânime, sobre a possibilidade de a Seleção Brasileira só jogar no Maracanã se chegar à final do mundial que sediará.

“Como assim? Não pode! O Maracanã é o grande estádio daqui, é um campo-santo do futebol brasileiro!”

Crítica justa e certa. Mas se o estádio carioca pode não sediar jogos da equipe anfitriã em 2014, isso se deve a outras razões, não pelo bairrismo.

Sobre as justificativas reais, o jornalista Lúcio de Castro escreveu e explicou como ninguém, em seu blog no site dos canais ESPN.

Aliás, se há a queixa de que a Seleção Brasileira tem de jogar no Maracanã, ela deveria ter começado antes, muito antes.

Porque o Mário Filho já não é tratado como o estádio da Seleção Brasileira há muito tempo. Mais precisamente, desde a década de 1980.

Antes disso, sim, é que ele era o estádio por excelência para o Brasil jogar. Havia um jogo em São Paulo aqui (no Pacaembu e, após 1970, no Morumbi), um no Mineirão ali, outro em Porto Alegre acolá (na maioria das vezes, Beira-Rio). 

Porém, como já dito, isso começou a mudar desde a década de 1980. 

Por exemplo, além do Maracanã, o Serra Dourada sediou os jogos das eliminatórias para a Copa de 1982. 

O último amistoso da equipe de Telê Santana antes do Mundial da Espanha foi no… Parque do Sabiá, em Uberlândia. 

Além disso, naqueles dois anos da primeira passagem de Telê pela Seleção, foram feitos jogos na Fonte Nova, no Castelão de São Luís, no Arruda… 

Sob Ricardo Teixeira na CBF, tal cenário se solidificou ainda mais. 

Jogou-se em Varginha, Uberlândia, Londrina, Paranavaí, Campina Grande, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto. 

Todas cidades de inegável representatividade em seus estados. 

Podem não ser reconhecidas pelo mundo. Mas são cidades brasileiras. E podem receber jogos da Seleção Brasileira. 

Fica claro, pelas dimensões do país e desejo das cidades em receber o time nacional, que a situação brasileira é diferente da sul-americana. 

Porque, nos outros países da Conmebol, as seleções têm seus estádios bem definidos. 

A Argentina joga no Monumental de Núñez – a experiência em Rosário, nas eliminatórias para a Copa de 2010, deu errado, como o 3 a 1 que o time brasileiro aplicou na Albiceleste deixou claro. 

O Equador tem o Olímpico Atahualpa, em Quito. 

O Peru tem o Nacional de Lima. 

O Paraguai tem o Defensores del Chaco. 

A Colômbia tem o El Campín, em Bogotá – no máximo, o Metropolitano de Barranquilla, além disso. 

O Uruguai, é claro, tem o Centenário, histórico. 

Na Europa, a situação começa a mudar. Até há nações cujas seleções têm seus estádios fixos. Na Inglaterra, não há conversa: é Wembley e pronto. Como na França, com o Stade de France – antes, com o Parc des Princes. Na Holanda, joga-se em três cidades: Amsterdã (com a Arena do Ajax), Roterdã (De Kuip) e Eindhoven (Estádio Philips). 

Só que há outros países cuja situação se assemelha mais à brasileira. 

Principalmente a Espanha. Lá, os problemas com identidade nacional impedem que se jogue só em Madri. Portanto, a seleção joga em Sevilha, A Coruña, Málaga, Palma de Mallorca, Vila-Real, Mérida, Alicante, Logroño… cada jogo, uma sede. E, mesmo em Madri, ela costuma jogar mais no Vicente Calderón (estádio do Atlético de Madrid) do que no Santiago Bernabéu. Só se evita jogar em Bilbao e Barcelona, que bascos e catalães não são agradados em definitivo com um simples jogo de futebol.
A mesma coisa na Alemanha. Desde que a seleção germânica deixou de atuar no Estádio Olímpico de Munique, não se concentra mais na Allianz Arena. Nem no Estádio Olímpico de Berlim. Ela agora joga em Dortmund, Kaiserslautern, Mönchengladbach, Stuttgart ou Gelsenkirchen. a Itália, por sua vez, já não fica só no Olímpico de Roma, como ficou na Copa de 1990: vai para Modena, Bari, Gênova, Pisa ou Turim. 

Isto é: por mais que o Maracanã merecesse, no mínimo, um jogo da Seleção Brasileira na Copa de 2014, ele não seria a base da equipe. 

Porque o Maracanã é tratado como campo-santo do futebol brasileiro muito mais pelo resto do planeta do que pelo próprio Brasil.

E já é assim há muito tempo. (blog do Juca Kfouri)

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